Venezuela

Maduro pede que emigrantes “parem de lavar latrinas e voltem à pátria”

Venezuela afirma que em seu território vivem “seis milhões de colombianos, equatorianos e peruanos cujo atendimento custa mais de três bilhões de dólares ao país”

Migrantes venezuelanos percorrem a estrada que liga a cidade de Cúcuta à colombiana Bucaramanga.
Migrantes venezuelanos percorrem a estrada que liga a cidade de Cúcuta à colombiana Bucaramanga.Schneyder Mendoza (EFE)

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pronunciou-se sobre a crise migratória no seu país, enviando uma mensagem aos milhões de cidadãos que estão cruzando as fronteiras, de ônibus ou a pé, em busca de novos horizontes em nações vizinhas: “Parem de lavar pocetas [latrinas] e venham viver na pátria”.

Maduro fez as declarações no palácio presidencial de Miraflores, durante um ato com um grupo de empresários para a assinatura de convênios que permitam ao Governo reativar a hoje minguada produção petroleira do país. O mandatário disse que os emigrantes venezuelanos “seguem cantos de sereia” e atribuiu o fenômeno a uma “campanha da direita”.

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Enquanto isso, o Ministro das Comunicações, Jorge Rodríguez, proferia um discurso no qual comentou que vivem em seu país pelo menos “seis milhões de imigrantes da Colômbia, Equador e Peru, que foram recebidos de forma solidária, sem xenofobia e com os braços abertos”, e cujo atendimento, disse, “custa ao Estado venezuelano mais de três bilhões de dólares [12,3 bilhões de reais]”. Rodríguez mostrou gráficos para demonstrar que, em termos históricos, a Venezuela foi o país que mais imigrantes recebeu em toda a América Latina.

Parte importante dos integrantes da diáspora venezuelana atual é composta por cidadãos que são filhos de colombianos, peruanos e equatorianos chegados ao país nos tempos de prosperidade econômica venezuelana, entre as décadas de 1960 e 1980. Com estas declarações o Governo da Venezuela busca responder a um crescente ambiente crítico internacional contra o regime chavista por sua suposta indiferença à onda migratória.

Nesta quarta-feira, a TV estatal divulgou reiteradamente uma notícia que documentava a existência de 89 venezuelanos que voltaram do Peru a Caracas em um voo fretado pelo Peru. Todos os entrevistados se diziam felizes em regressar e contavam histórias de trato discriminatório. Maduro afirmou que os emigrantes venezuelanos são ”escravos econômicos” e manifestou a esperança de que a maioria deles retornará quando forem sentidos os efeitos de seu programa de Recuperação Econômica, Crescimento e Prosperidade.

A diáspora venezuelana, um fenômeno absolutamente inédito na história do país, passou anos sendo tratada de soslaio e com desinteresse pela cúpula chavista, que habitualmente atribuía o fenômeno a tensões existentes nas camadas médias e “nas elites” nacionais, às quais, em mais de uma ocasião, convidou a deixar a Venezuela se não estivessem satisfeitas com o socialismo.

Mas a onda migratória venezuelana deste ano chegou, pela primeira vez, aos setores populares urbanos e rurais, que o chavismo tradicionalmente sente lhe pertencer, deixando perplexos os dirigentes, intelectuais e jornalistas que ainda acompanham Maduro. O Quarto Congresso do Partido Socialista Unido da Venezuela seguida suas deliberações neste fim de semana sem que praticamente ninguém fizesse menção a esse fenômeno.

Só Diosdado Cabello comentou brevemente que as notícias das agências internacionais dando conta da marcha de cidadãos venezuelanos rumo ao Equador eram “um show”, no qual jornalistas e fotógrafos fazem essas pessoas descerem dos ônibus para oferecerem uma imagem distorcida que insinue um estado de necessidade.

Calcula-se, segundo informações dos Governos dos países de acolhida, que mais de 800.000 venezuelanos já emigraram para a Colômbia, 60.000 para o Brasil, 300.000 para o Equador e pouco mais de 400.000 para o Peru e Chile, respectivamente. Tudo isto numa nação onde a inflação se aproxima de um milhão por cento e que, antes desta crise, não tinha tradição migratória nenhuma.

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