Rússia volta sem tanques à Europa central 50 anos após a Primavera de Praga

Influência de Moscou no continente marca o aniversário da invasão dos tanques do Pacto de Varsóvia

Cidadãos tchecos cercam tanques soviéticos, em 21 de agosto de 1968, em Praga.
Cidadãos tchecos cercam tanques soviéticos, em 21 de agosto de 1968, em Praga.Libor Hajsky (REUTERS)

A Tchecoslováquia, o país que os tanques do Pacto de Varsóvia invadiram há exatos 50 anos para acabar com a Primavera de Praga, nem sequer existe mais. Aliás, tampouco existem o Pacto de Varsóvia e a União Soviética, o Estado que dirigiu a intervenção militar. Entretanto, a influência de Moscou na Europa ainda é um dos grandes problemas de um continente que recorda nos últimos dias o esmagamento da experiência democrática mais importante que ocorreu no antigo bloco comunista.

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A República Tcheca e a Eslováquia, os dois países nos quais a Tchecoslováquia se dividiu em 1993, depois da chamada Revolução de Veludo, são agora membros da UE e da OTAN. Comemoraram o 50º aniversário da invasão com um tema principal na pauta: até onde chega a influência russa. O presidente tcheco, Milos Zeman, um ex-social-democrata convertido ao populismo, é um dos políticos ocidentais mais partidários do Kremlin, tanto que chegou a justificar a anexação russa da Crimeia. Como escreveu John A. Tures, professor de Ciência Política do LaGrange College (EUA), no The Observer, por ocasião da eleição de Zeman: “Ao final da década de 2000, a República Tcheca sofria os mesmos três Rs que o resto dos países europeus: recessão, refugiados e Rússia”.

Durante a Guerra Fria, Moscou já tinha demonstrado em 1953, na República Democrática Alemã (RDA), e sobretudo em 1956, na Hungria, que não toleraria nenhuma abertura nos países sob sua influência. Entretanto, desde sua eleição em janeiro de 1968 como secretário-geral do Partido Comunista da Tchecoslováquia, Alexander Dubcek pôs em marcha uma série de reformas democráticas, o que chamou de “socialismo com face humana”. Sem questionar a filiação ao Pacto de Varsóvia — a organização militar dos países socialistas, contraposta à OTAN — e sem defender uma economia capitalista, Dubcek introduziu uma maior liberdade de expressão e aumentou a participação dos cidadãos na vida política. Sobretudo, mudou o clima social do país.

Os tchecos assistiam atônitos à abertura liberal e se perguntavam até onde o líder soviético, Leonid Brejnev, permitiria que chegasse. Às 23h de 20 de agosto de 1968, encontraram a resposta quando 2.000 carros de combate e 250.000 soldados começaram a cruzar a fronteira. Embora a maioria dos efetivos fosse soviética, também se somaram outros quatro países do Pacto de Varsóvia: Hungria, Polônia e Bulgária, mais algumas força especiais da RDA.

Em questão de dias, o Pacto tinha mobilizado 600.000 soldados, e nos meses seguintes as águas voltaram ao leito socialista com uma onda de repressão que o regime chamou de “processo de normalização”. Cerca de 300.000 tchecos fugiram para o Ocidente, e um número incalculável foi retirado da vida pública. Entretanto, a resistência se prolongou: em 16 de janeiro de 1969, o estudante Jan Palach se imolou em Praga para protestar contra a ocupação. Oficialmente, 150 pessoas morreram durante a intervenção, um número muito inferior às milhares de vítimas deixadas pela invasão soviética da Hungria em 1956.

“Na Operação Danúbio, a Rússia insistiu que fosse o Pacto de Varsóvia que realizasse a invasão, embora Moscou claramente a dirigisse”, observa o professor Tures por email. “Agiu assim para demonstrar que muitos outros países a apoiavam nesta política. Um colega búlgaro me contou há alguns anos que os soldados de seu país nem sequer sabiam o que estava acontecendo, e só quando chegaram descobriram que estavam participando de uma invasão. Hoje, a abordagem russa é muito diferente. Em vez de tanques, Vladimir Putin financia os partidos populistas com um discurso antiocidental”.

Tanto nos países então invadidos como nos países invasores, a influência russa é hoje um tema central, com a sensação de que Moscou nunca renunciou totalmente à sua área de influência durante a Guerra Fria. “O presidente tcheco, Milos Zeman, é provavelmente o mais importante aliado da Rússia em toda a Europa Central”, diz Veronika Vichová, analista e coordenadora do programa Kremlin Watch no centro de estudos liberal tcheco European Values. “A aproximação com Moscou dos países que fizeram parte do Pacto de Varsóvia é muito diferente. A República Tcheca deu alguns passos para frear a influência russa, mas a situação está longe de ser ideal. Eslováquia e Hungria são vulneráveis por diferentes motivos. No caso do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, ele apoia a influência russa, enquanto a Eslováquia sofre graves problemas de desinformação e corrupção. A Polônia está consciente da ameaça e adotou políticas contra a influência hostil.” Os tanques são uma lembrança remota de um problema nunca fechado.

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