Violência na Nicarágua

Governo Ortega lança ataque sobre cidade rebelde na Nicarágua, enquanto aumenta a pressão internacional

Estados Unidos, o secretário geral da ONU e 13 países latino-americanos, entre eles o Brasil, exigem o fim da violência policial no país centro-americano

Um jovem em uma barricada na cidade de Masaya, Nicarágua.
Um jovem em uma barricada na cidade de Masaya, Nicarágua. Jorge Torres (EFE)

Daniel Ortega atacou, na terça-feira, grande bastião da resistência na Nicarágua com uma força excessiva. O país amanheceu com a incerteza do que vai acontecer em Masaya, especialmente no bairro indígena de Monimbó, símbolo dos protestos contra o presidente. Entre 1.500 e 2.000 pessoas armadas, entre Exército, Polícia e paramilitares cercaram a cidade, localizada a 35 quilômetros de Manágua, com o objetivo de arrasar os rebeldes de um lugar que, até agora, tinha permanecido impassível perante as forças do Governo. Chegar em Monimbó foi um desafio para Ortega. Após sete horas de cerco, o governo alegou ter tomado o controle da área. Pelo menos três pessoas morreram, uma delas policial.

A estratégia de Ortega é clara. Qualquer indício de resistência deve ser eliminado antes de quinta-feira, quando se comemoram 39 anos do triunfo da Revolução Sandinista. O aniversário coincide com o momento de maior repressão do regime de Ortega em relação à população, após quase três meses de protestos, que deixaram mais de 300 mortos. Se no fim de semana Ortega decidiu atacar a Universidade Nacional de Manágua (UNAN), o principal bastião da resistência estudantil, agora era a vez de Masaya.

"Atacam Monimbó! As balas estão chegando na paróquia de Maria Madalena, onde o padre se refugiou. Que Daniel Ortega pare o massacre! Às pessoas de Monimbó, lhes imploro, salvem suas vidas!"

O ataque contra a cidade rebelde acontece um dia depois de que a comunidade internacional intensificasse a pressão sobre o Governo da Nicarágua para acabar com a repressão e desarmar os paramilitares após quase 300 mortos durante três meses de protestos que exigem que o presidente deixe o poder. Os Estados Unidos, 13 países latino-americanos e o secretário geral da ONU, Antonio Guterres, pediram ao Executivo de Ortega o fim da repressão das manifestações que desde 18 de abril inundaram as ruas do país centro-americano. Guterres pediu o fim imediato da violência e atreveu-se a apontar a responsabilidade do mandatário, pelo menos indiretamente.

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“O número de mortos já é totalmente inaceitável. É evidente que há um uso letal da força por entidades ligadas ao Estado que não é aceitável. Por isso mesmo é tão importante que a violência termine e que o diálogo político permita que se encontre uma solução inclusiva”, disse o secretário geral da ONU em São José (Costa Rica), a 400 quilômetros da Nicarágua, durante uma visita para participar da comemoração dos 40 anos da Corte Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH).

Guterres afirmou que o sistema das Nações Unidos interveio dentro de suas margens mediante o Alto Comissariado para os Diretos Humanos. Também sugeriu a abordagem regional da crise na Nicarágua através do Sistema de Integração Centro-americano (SICA).

Ao seu lado, o presidente costa-riquenho, Carlos Alvarado, condenou novamente a violência cometida contra os estudantes universitários realizada no final de semana, enquanto se prepara para lidar com um aumento na chegada de imigrantes nicaraguenses que se declaram perseguidos e que perderam seus empregos durante essa crise.

Paralelamente, 13 países da América Latina, entre eles o México, Brasil, Argentina e Chile, exigiram o “fim imediato das ações de violência” na Nicarágua e o “desmantelamento dos grupos militares”. A Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru e Uruguai escreveram um comunicado conjunto publicado pelo Ministério das Relações Exteriores argentino. Os Governos dos 13 países denunciaram a “violação dos direitos humanos e das liberdades fundamentais” na Nicarágua. Na mesma declaração pedem “a realização de eleições livres, justas e oportunas, em um ambiente livre de medo, intimidação, ameaças e violência”, diz o texto.

Por sua vez, o Departamento de Estado dos Estados Unidos condenou os recentes ataques contra estudantes, jornalistas e membros do clero na Nicarágua e alertou o presidente Daniel Ortega de que cada nova vítima nos protestos “enfraquece ainda mais” sua legitimidade. Washington, que criticou com dureza o mandatário, reiterou seu pedido para que sejam realizadas eleições “antecipadas, livres, justas e transparentes” como maneira para sair da crise.

Enquanto isso, o ministro espanhol das Relações Exteriores, Josep Borrell, afirmou em Bruxelas que na Nicarágua “a situação vai de mal a pior”, e anunciou que se reunirá com o ministro para as Políticas Nacionais da Nicarágua, Paul Oquist, para estudar a situação.

A CIDH —um órgão que faz parte da OEA— afirmou que já morreram 264 pessoas desde o início dos protestos, enquanto a Associação Pró Direitos Humanos da Nicarágua calcula 351 mortos e milhares de feridos.

Diante dos 150 mortos que a repressão na Venezuela deixou durante todo o ano, na Nicarágua foi registrado o dobro em somente três meses. A investida diplomática põe fim ao longo silêncio da comunidade internacional e vem após um violento final de semana. No domingo morreram pelo menos 12 pessoas quando policiais e paramilitares atacaram a cidade rebelde de Masaya, 35 quilômetros ao sul de Manágua, e comunidades vizinhas para levantar os bloqueios de estrada. No sábado morreram dois dos quase 200 estudantes que se entrincheiraram na Universidade (UNAN) e em uma igreja e foram atacados por quase 20 horas por grupos paramilitares.

A vice-presidente e esposa de Daniel Ortega, Rosario Murillo, afirmou na segunda-feira que o Governo age para liberar o território dos bloqueios de estradas e para “restaurar a paz”. Afirmou também que os protestos fazem parte de “um plano terrorista e golpista acompanhado por uma infame e falsa campanha midiática nacional e internacional, maligna, mas não conseguiram e não conseguirão”.

Por sua vez, a Igreja Católica denunciou a “falta de vontade política do Governo” para dialogar com a Aliança Cívica, de oposição. O diálogo está suspenso desde 18 de junho e desde então os bispos tentaram sem sucesso organizar novos encontros.

A faísca que acendeu o levantamento popular foi uma controversa reforma do sistema de aposentadorias que por fim o Governo revogou. A irritação da população e o nepotismo do casal, entretanto, causaram um longo e sangrento protesto que dura três meses. A oposição acusa-os de instaurar uma ditadura e exige a convocação em março de eleições presidenciais previstas para 2021.