Trump evita criticar Putin e anuncia um novo relacionamento com a Rússia

Após reunião em Helsinque, os líderes dos dois países negam interferência do Kremlin nas eleições presidenciais dos EUA em 2016

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu homólogo russo, Vladimir Putin, após a reunião em Helsinque.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu homólogo russo, Vladimir Putin, após a reunião em Helsinque.Chris McGrath (Getty Images)

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não se atreveu a contradizer seu interlocutor, o presidente russo Vladimir Putin, e até demonstrou mais confiança em seu homólogo que em seus próprios serviços de segurança durante a entrevista coletiva conjunta com a qual encerrou a primeira cúpula propriamente dita entre os dois líderes nesta segunda-feira em Helsinque (Finlândia). Não houve comunicado final nem compromissos claros para o futuro, nem discussão sobre divergências ou análises ou referência às razões para a deterioração das relações bilaterais. Os líderes avaliaram positivamente seu encontro como o início de um processo de normalização, ainda a ser concretizado, lançaram algumas ideias de cooperação, em parte repetidas, e concordaram em ajudar Israel a manter sua segurança e cooperar e manter a comunicação entre seus militares na Síria. As incógnitas sobre o futuro continuam sendo as mesmas ou até maiores do que antes do esperado encontro entre os dois líderes.

Em sua entrevista coletiva no palácio presidencial em Helsinque, Trump não se pronunciou sobre a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, um episódio decisivo para a deterioração das relações com o Ocidente. Putin respondeu por ele a uma pergunta sobre o assunto. “Trump fala sobre a ilegalidade da incorporação da Crimeia à Rússia. Nós temos outro ponto de vista. Houve um referendo de acordo com a ONU. É uma questão encerrada”, disse ele.

Referindo-se à deterioração das relações, Trump afirmou que os dois países são responsáveis por isso e que a cúpula presidencial deveria ter acontecido muito antes, porque há muito a fazer conjuntamente, incluindo a prevenção da proliferação nuclear. Em várias ocasiões, o líder norte-americano referiu-se à questão das armas nucleares e repetiu que a Rússia e os EUA detêm 90% do arsenal nuclear existente e essa é uma razão convincente para o diálogo entre os dois países. “Vamos continuar reunindo-nos no futuro”, disse ele.

O presidente dos EUA até pareceu tomar partido de Putin contra os serviços de segurança de seu país, dizendo que o homólogo russo “negou categoricamente esse tipo de ingerência” nas eleições presidenciais de novembro de 2016. Trump qualificou como um “desastre” a investigação realizada pelo promotor especial Robert Mueller sobre a trama russa. Ele se queixou de que a investigação “teve consequências negativas nas relações das duas maiores potências nucleares do mundo”. “Fizemos uma campanha [eleitoral] extraordinária e essa é a razão pela qual eu sou presidente”, disse ele.

Putin ajudou. “Eu tive de repetir o que já disse várias vezes: o Governo russo nunca se interferiu e não tem nenhuma intenção de interferir nos assuntos internos dos EUA, incluindo o processo eleitoral”, e chamou de “absurda” a ideia de que a Rússia participou de uma conspiração durante a campanha. Referindo-se à possível existência de material comprometedor contra Trump em Moscou, Putin exclamou: “Tirem esse lixo da cabeça.”

Na véspera da cúpula de Helsinque, 12 agentes de serviços de segurança russos foram acusados de hackear os computadores do Partido Democrata. Putin foi além e propôs a Trump que, no âmbito de um acordo de cooperação entre os serviços secretos dos dois países assinado em 1999, solicitasse que os envolvidos fossem interrogados na Rússia na presença de promotores dos EUA. A contrapartida seria que os EUA permitissem que os promotores russos interrogassem, em território norte-americano, pessoas procuradas pela Justiça russa, como Bill Browder, diretor da empresa Hermitage Capital, que a Rússia acusa de irregularidades financeiras. De acordo com Putin, Browder entregou mais de 400 milhões de dólares (1,5 bilhão de reais) à campanha de Hillary Clinton e algumas autoridades de segurança dos EUA podem ter acompanhado a transferência do dinheiro. Trump chamou a oferta de Putin de “incrível”.

Putin apresentou várias propostas de cooperação, por exemplo, na regulação dos mercados de energia, petróleo e gás de xisto. “Poderíamos trabalhar de forma construtiva para regular os mercados internacionais, porque não estamos interessados em uma queda extrema nos preços”, disse ele. Putin também quis tranquilizar Trump, que estava preocupado com a interrupção da passagem do gás russo pela Ucrânia. “Eu assegurei ao presidente que a Rússia está disposta a manter esse trânsito “, disse ele. “Estamos prontos para prorrogar o contrato que expira no próximo ano, se a disputa entre as partes comerciais (Gazprom e Naftogaz Ukraina) ficar na alçada do Tribunal de Arbitragem de Estocolmo”, disse ele. Os dois consórcios passaram anos litigando no tribunal sueco sobre questões como preços do transporte de gás. Trump não repetiu na imprensa os seus argumentos contra o gasoduto Nord Stream 2, que aumentará, a partir de 2019, o envio de gás russo direto à Alemanha pelo fundo do Mar Báltico, mas disse que Putin é “um bom competidor” e afirmou que “competiriam no campo da energia. Antes, o líder republicano havia criticado a chanceler alemã Angela Merkel por aumentar a dependência dos combustíveis russos.

Putin admitiu que queria que Trump se tornasse presidente EUA porque esse político era a favor da “normalização” das relações bilaterais, mas em seu discurso a confiança ficou mais distante. “Não se pode confiar em ninguém. De onde você conclui que ele [Trump] confia em mim e eu confio nele? Nós temos nossos interesses e os defendemos “, disse em resposta a um repórter. A segurança de Israel foi uma questão em que Trump e Putin concordaram. Afirmando que não há nenhum país mais próximo de Israel do que os EUA, Trump disse que “Putin também ajuda a Israel”, acrescentando que “criar segurança para Israel é algo que os dois queremos e podemos fazer algo para ajudar as pessoas da Síria”. O líder russo disse haver conversado na véspera com o presidente francês Emmanuel Macron sobre uma iniciativa humanitária para ajudar o retorno dos refugiados sírios, acrescentando que isso poderia “reduzir substancialmente emigração para a Europa”.

Os dirigentes concordaram que o encontro serviu para iniciar um processo destinado a restabelecer a cooperação, tanto em termos de relações bilaterais como no cenário internacional. Putin qualificou o diálogo com seu colega como “aberto e franco, bem sucedido e útil” e Trump, por outro lado, como “profundo, aberto e produtivo”. Pela primeira vez, o líder russo levou em uma viagem ao exterior sua nova limusine de fabricação russa, que ele inaugurou do dia de sua posse em maio. Além do novo veículo presidencial, os russos levaram à Finlândia vários ônibus da série Kortezhe, destinados a substituir os veículos oficiais de fabricação estrangeira.

Russa é presa nos EUA

Uma cidadã russa de 29 anos foi presa preventivamente, neste domingo, em Washington suspeita de atuar, de forma secreta, como uma agente do Kremlin nos Estados Unidos, segundo o Departamento de Justiça. O objetivo de Maria Butina era tecer relações com americanos e se infiltrar em empresas que tivessem influência entre políticos norte-americanos. A notícia da russa indiciada por crime de conspiração foi dada poucas horas depois do encontro ente os presidentes dos EUA e da Rússia em Helsinque.