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Quando somos caçadores

Caça e fotografia constituem-se de um espírito parecido, mas com objetivos opostos. Quando um projeto de lei tenta legitimar a caça esportiva, vale lembrar o que as imagens das florestas tentam evitar: matança em nome do lazer

Uma onça pintada no Pantanal.
Uma onça pintada no Pantanal.Victor Moriyama

A caça aos animais faz parte da sobrevivência humana desde os tempos em que vivíamos nas cavernas e lá buscávamos abrigo contra o mau tempo e a ameaça dos predadores. Sim, naquela época não éramos dominadores soberanos da natureza. Mas o que antes era uma necessidade alimentar logo se transformou em um estranho hobby do homem branco, batizado sugestivamente de “caça esportiva”. Semanas atrás veio a público o projeto do Deputado Valdir Collato (MDB-SC) que propõe a legalização da caça e comercialização deliberada de animais silvestres no Brasil (PL 6268/2016), o que desperta reflexão sobre o aspecto “esportivo” desta atividade criminosa. Faltam argumentos aceitáveis numa prática em que a violência pela arma de fogo se impõe ao animal em nome do lazer humano.

Caça e fotografia constituem-se a partir de um mesmo elemento que chamarei de “espírito caçador”, ao colocar o homem urbano em contato íntimo com a natureza a partir da mira de uma máquina, seja uma espingarda ou uma câmera fotográfica. Os dois propósitos são totalmente opostos. De um lado as belas imagens produzidas da fauna e da flora brasileiras podem sensibilizar uma população distante da floresta no combate ao desmatamento. Do outro, o resultado é a morte violenta de um animal indefeso. Não existe proteção contra a mira de uma arma de fogo, ou como dizia o mestre Leminski: “a ignorância não gera dúvidas”. Os animais assassinados são comumente empalhados e pendurados na parede da sala como um troféu que conota status de poder ao caçador. As fotografias tiradas na natureza também são penduradas na parede, mas em museus, exposições, galerias de arte. Nos dois casos, caça e fotografia, o objetivo é encontrar os animais e para isso recorre-se ao auxílio essencial dos mateiros, aqueles que conhecem verdadeiramente os signos da floresta e guiam os aventureiros com segurança no interior da mata.

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É preciso muita prática e anos de vivência em campo para assimilar os códigos que a natureza nos oferta. Identificar os pássaros pelo canto, enxergar num imenso verde de árvores uma paca, reconhecer um felino a partir do cheiro da urina num arbusto ou projetar a quantos minutos uma anta cruzou a estrada ao analisar o frescor da pegada. Os conflitos socioambientais sempre guiaram minha produção jornalística, onde muitas vezes há a ameaça de extinção de biomas e espécies como fio condutor de situações complexas entre homem e natureza. Por conta disso, nos últimos anos vi-me diante de um grande aprendizado: manusear teleobjetivas enormes e ler os sinais da floresta para documentar os impactos causados pelo homem. Nesta jornada, conheci muitos mateiros detentores de conhecimentos fabulosos sobre fauna e flora locais adquiridos por anos de vivência no interior da mata.

Numa visita ao projeto Onçafari, que há oito anos trabalha na conservação da Onça Pintada no Pantanal, é possível perceber algumas dessas nuances. Localizado próximo a cidade de Miranda, no Mato Grosso do Sul, a caça esportiva —que ganhou notoriedade nacional com a prisão da Fazendeira Beatriz Rondon flagrada na organização de Safaris ilegais— tem raízes antigas na região. “No fim de semana, nos bares e na fila da lotérica, o assunto é a caça da onça”, comenta Edu, ou Carlos Eduardo Fragoso, biólogo do projeto Onçafari, e um apaixonado pela natureza. Conservacionista de carteirinha, Edu ensina a ver as pistas deixadas pela onça pintada no meio da mata: “a gralha emite um som escandaloso quando qualquer predador está por perto. 80% das vezes é a onça e nos guiamos até ela a partir daí”. Fotografar com os ouvidos é fundamental para captar boas imagens em campo.

Hoje vivemos um colapso global, a humanidade ficou grande demais. Atividades como a caça esportiva, neste momento, fazem parte de um mundo arcaico que já não tem mais espaço. Não existem mais recursos, mais bens naturais, mais natureza para consumir. É nesse conflito entre homem e natureza que baseia-se a própria noção de humanidade e “civilização”. Algo deu muito errado. Povos tradicionais, que vivem na e com a floresta, sugerem composições mais inteligentes e que provavelmente podem se tornar estratégicas para sobreviver no futuro da Terra. Não há separação quando se vive da floresta, do cerrado, do sertão. Humanos, bichos e plantas têm todos a mesma dignidade e na crença espiritual indígena possuem deuses próprios, guardiões. Dentro desse sistema de convivência podemos pensar que matar um animal, que serve de alimento, faz parte de uma cadeia, e que muitas vezes têm um lugar espiritual também. Não há consumo, entretimento ou violência.

A fotografia trabalha com o regime das “Imagens”, que têm em si uma dinâmica algo subjetiva. Não podemos separar completamente a informação da composição, da plasticidade, da imaginação que se produz quando olhamos algo. Talvez assim, dessa maneira a desviar da lógica que separou o homem da natureza, as imagens possam provocar novamente o sentido contínuo e íntimo de um ser humano mais integrado com o todo. Eu digo não ao PL da Caça.

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