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COLUNA

Alckmin escorrega ao dizer que Bolsonaro é como o PT

Querer comparar a força histórica do PT com a trajetória sem história de Bolsonaro é uma afirmação falsa, além de arriscada

Geraldo Alckmin, durante o Única Foro, no dia 18 de junho de 2018. rn
Geraldo Alckmin, durante o Única Foro, no dia 18 de junho de 2018. EFE

Nem tudo vale em política nem na vida. Não é possível afirmar, como fez Geraldo Alckmin, pré-candidato do PSDB à Presidência, que “Bolsonaro é como o PT”, já que ambas as realidades políticas refletiriam “o atraso” e o “extremismo”.

É possível que Alckmin, diante de sua dificuldade em levantar voo nas pesquisas, esteja tentando abrir espaço para recolher votos de quem rejeita tanto o ex-capitão Bolsonaro como o Partido dos Trabalhadores (PT), ou seja, os anti-Bolsonaro e os anti-PT ou anti-Lula. Pode ser uma estratégia, mas nesse caso parte de uma premissa falsa.

O PT pode ser criticado por muitas coisas, entre as quais ter às vezes esquecido, no afã de querer perpetuar-se no poder, de algumas de suas metas fundacionais como partido nascido para regenerar a política. Os Governos do PT de Lula e Dilma podem ser criticados, mas querer comparar a força histórica do PT com a trajetória sem história de Bolsonaro, ao considerar ambos como o espelho do atraso, é uma afirmação falsa, além de arriscada.

Os governos petistas tiveram muitos defeitos, mas nunca representaram o atraso. Eles continuaram as aberturas democráticas iniciadas pelos governos de FHC e ampliaram-nas. Abriram espaços novos de liberdades na defesa dos direitos humanos, das minorias, dos segregados. Querer comparar as aberturas sociais realizadas pelo PT com as propostas obscurantistas e contra os direitos humanos de Bolsonaro soa a ofensa democrática e histórica.

Nem Bolsonaro e o PT são iguais como representação do atraso do país nem tampouco podem ambos ser tachados de serem igualmente extremistas. Bolsonaro é extremista e acho que nem se ofende de ser assim tachado. O PT, sobretudo com Lula, foi tudo menos extremista. Talvez pudesse ser tachado de ter sido às vezes excessivamente conformista com as práticas e políticas dos partidos de direita com os quais fez alianças de que hoje pode ser que se arrependa.

Se Bolsonaro aparece sempre na extrema direita, o PT se moveu mais no campo da social-democracia e da centro-esquerda, nunca nos extremos. Tanto é assim que o PSOL é um partido que nasceu da saída do PT de alguns militantes que consideraram o primeiro Governo Lula excessivamente conservador.

Se Alckmin, um governante experiente que leva uma vida navegando na política, precisa, por sua colocação no centro, arrebatar os votos dos dois extremos, que busque os de Bolsonaro, mas não os do PT, que hoje são, talvez, votos moderados no campo do socialismo, não extremistas. Como diria o veterano petista José Genoino, “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”.

Em meus mais de 40 anos de jornalismo sempre defendi que não existe a objetividade absoluta ao relatar um fato, já que cada um o vê sob o prisma de seus olhos. O que não se pode é esconder ou forçar a verdade. Daí também a dificuldade às vezes em distinguir uma notícia verdadeira de uma falsa. No caso da análise de Alckmin sobre Bolsonaro e o PT, suas afirmações não poderiam ser qualificadas como notícia falsa? Afinal, uma simples análise histórica dos fatos pode demonstrar que Bolsonaro e o PT ou Bolsonaro e Lula, além de não serem iguais, posicionam-se como antípodas um do outro.

Com a palavra, os leitores.

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