Facebook aplicará lei europeia de proteção de dados a todos os usuários do mundo

“Proteção europeia aos dados pode aumentar a confiança do público”, diz Mark Zuckerberg, fundador da empresa, em Paris

Mark Zuckerberg, hoje em Viva Tech em Paris.
Mark Zuckerberg, hoje em Viva Tech em Paris.CHARLES PLATIAU (REUTERS)

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Em seus esforços para recuperar a confiança tão erodida pelos escândalos de vazamento de dados de milhões de seus usuários, o Facebook anunciou nesta quinta-feira que estenderá a todos os seus dois bilhões de usuários no mundo o novo regulamento europeu sobre proteção de dados (RGPD), que entra em vigor nesta sexta-feira. O fundador e executivo-chefe da rede social, Mark Zuckerberg, foi além ao afirmar, em Paris, que se trata de uma normativa que está em sintonia com os valores do Facebook.

“O RGPD se centra em alguns poucos princípios: controle e transparência sobre o uso da informação, assim como responsabilização quando as empresas fazem um mau uso dela. E esses são valores que sempre compartilhamos”, afirmou Zuckerberg durante um encontro com o público na feira de tecnologia Viva Tech, em Paris.

“Agora que já fizemos isso na Europa queremos nos assegurar de que todo o mundo desfrute do mesmo tipo de controles fortes”, disse, acrescentando que o processo de atualização das condições de privacidade dos usuários da rede social em nível planetário levará “algumas semanas”.

A decisão do Facebook foi transmitida num primeiro momento pela diretora de privacidade da companhia, Erin Egan. “A partir desta semana, vamos pedir a todos no Facebook que consultem informações importantes sobre sua vida privada e o controle de sua navegação no Facebook”, disse em um comunicado. “As pessoas nos disseram que desejam explicações mais claras sobre as informações que colhemos e a forma como as utilizamos”, reconheceu.

Segundo o RGPD, as grandes plataformas de Internet devem se assegurar de que têm o consentimento “livre, específico e informado” de seus usuários quanto ao uso de seus dados pessoais.

Para Zuckerberg, que acaba de pedir mais uma vez desculpas pelo escândalo da Cambridge Analytica, desta vez perante o Parlamento Europeu, o RGPD é um “passo na direção adequada” e pode contribuir para aumentar a tão erodida confiança pública.

“Uma boa regulação pode melhorar a confiança pública em que estes sistemas estão funcionando e dar às pessoas a confiança de que as empresas estão respeitando seus desejos. Pode ser um passo na direção adequada”, considerou.

Em seu último evento público previsto em Paris, Zuckerberg deixou de lado o paletó azul escuro com gravata que vestiu durante seu périplo pelas instituições públicas – do Senado norte-americano em Washington ao Parlamento Europeu em Bruxelas – para entoar o mea culpa pela fuga de dados de 87 milhões de usuários do Facebook, entre eles 2,7 milhões de europeus. Não voltou à sua tradicional camiseta cinza com moletom, mas optou por um híbrido: calça escura e uma camiseta cinza de manga comprida que, sem ser uma volta total às suas raízes, claramente parece deixá-lo mais à vontade do que quando precisa vestir paletó e gravata. Trata-se da mesma roupa que usou na véspera ao visitar o laboratório de Inteligência Artificial do Facebook em Paris, pouco depois de se reunir – aí sim, engravatado – com o presidente francês, Emmanuel Macron, no Palácio do Eliseu.

Desculpas

O que Zuckerberg não evitou no auditório central do Viva Tech, onde foi recebido com aplausos e uma enorme espera, foi a litania de pedidos de desculpa que encadeia há meses por causa de um escândalo que obrigou sua empresa a promover uma profunda revisão, além de altos investimentos, em matéria de privacidade e comprovação das informações que circulam por sua rede.

“O que está claro agora é que não assumimos um olhar mais amplo de como as pessoas podem usar as redes sociais, das notícias falsas a tentativas de interferir em eleições e discursos de ódio”, reconheceu o fundador do Facebook. “Temos que assumir um olhar mais amplo sobre a nossa responsabilidade”, prosseguiu, para não só “reagir aos problemas quando estes surgem” como também saber antecipá-los e cortá-los pela raiz. “Esta é a máxima prioridade neste momento”, insistiu.

Apesar do novo pedido de desculpas, a viagem de Zuckerberg a Paris serviu em parte para iniciar um caminho de redenção depois da enxurrada de comparecimentos a instituições públicas para explicar como o Facebook pôde permitir o vazamento dos dados de milhões de seus usuários e, além de pedir perdão, tentar dar garantias de que isso não se repetirá.

No Viva Tech, entre os seus, empreendedores e entusiastas das novas tecnologias, Zuckerberg pôde permitir um tom e um aspecto mais relaxados que em sua visita da véspera ao Eliseu, onde chocou por sua postura rija frente a um Macron que, desta vez, quis dar um toque informal ao encontro e não só o marcou nos jardins do palácio presidencial como também ele mesmo tirou o paletó, que Zuckerberg entretanto manteve firmemente fechado.

O tom também era mais distendido que diante do presidente francês, que – como voltou a fazer nesta quinta-feira ao inaugurar a feira, logo antes de embarcar para a Rússia – reclamou na véspera que gigantes tecnológicos como Google e Facebook –os chamados GAFA – paguem os impostos que lhes cabem nos países onde operam. Apesar disso, Zuckerberg comemorou – em sua rede social, claro – o encontro e anunciou que o Facebook “continuará investido nos próximos anos na França”, onde tem há três anos um laboratório de inteligência artificial e promove o Startup Garage.