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Esquerda da América Latina cerra fileiras em torno de Lula

Maduro, Morales, Correa e Cristina Kirchner repudiam prisão do ex-presidente

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, momentos antes de se entregar à polícia.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, momentos antes de se entregar à polícia. AP

Repúdio ou silêncio. A prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se entregou à polícia neste sábado, provocou a união das distintas almas da esquerda latino-americana frente ao que consideram uma perseguição movida pela direita. Os principais líderes da região evitaram, por outro lado, pronunciar-se sobre a condenação a 12 anos de prisão ditada em janeiro por Lula ter aceitado, segundo a Justiça, um apartamento no Guarujá como suborno de uma construtora.

Os defensores de Lula não entraram na essência da questão, isto é, o desenvolvimento judicial de um caso de corrupção, e se concentraram na carga simbólica da decisão tomada na madrugada da quinta-feira pelo Supremo Tribunal Federal, que o levou à prisão. Essa decisão representa, para eles, um ataque a um modelo de gestão que coincide com o momento de maior pressão contra o chamado socialismo do século XXI, do chavismo ao kirchnerismo. Trata-se, em suma, de um repúdio vinculado às afinidades ou às alianças políticas.

O presidente venezuelano criticou a medida falando abertamente em “injustiça”. Nicolás Maduro, alvo de acusações similares, disse que lhe “dói na alma” e limitou suas considerações exclusivamente à batalha ideológica: “A direita, em sua incapacidade de governar democraticamente, escolheu o caminho judicial para amedrontar as forças populares”, escreveu Maduro no Twitter. “O que estão fazendo a Lula da Silva fará crescer a força espiritual de uma nova onda de povos livres nos anos que estão por vir”, acrescentou, ao expor sua exigência de liberdade para Lula.

Evo Morales, um dos mais aguerridos, vem criticando há dias a Justiça brasileira. “Estamos presenciando uma das maiores injustiças do século XXI. Querem prender um homem inocente que deu sua vida por seu país e conseguiu que dezenas de milhões de brasileiros saíssem da miséria e da fome”, enfatizou o presidente da Bolívia. “Hoje, mais que nunca, estamos contigo, irmão.”

Um de seus antigos aliados, o ex-presidente do Equador Rafael Correa, também fez do caso uma questão de resistência contra o que considera um retrocesso conservador não só no Brasil, mas também em toda a região. Sua defesa de Lula coincide, além disso, com a tentativa de proteger seu legado. O ex-líder equatoriano acusa seu sucessor e ex-vice-presidente, Lenin Moreno, de traí-lo. Correa saiu do partido que fundou há 12 anos, o Aliança País, e impulsionou uma nova legenda, o Movimento Revolução Cidadã, que mergulhou numa campanha a favor do ex-líder sindical brasileiro. “Todo um povo se levanta para defender Lula!”, afirmou, também em sua conta no Twitter. “Anos de infâmias da imprensa corrupta brasileira não puderam destrui-lo, como também não poderão nos destruir”, acrescentou, sem evitar uma referência a uma de suas obsessões.

A ex-presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner opinou, ao ficar sabendo da decisão do STF, que este caso acabará fortalecendo Lula. “Ele vai ganhar as próximas eleições presidenciais e as elites do poder, às quais nunca interessou nem a justiça nem a democracia, utilizam o aparelho judicial para sua proscrição. Todo nosso afeto para ele”, assinalou. O Executivo de Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, também divulgou uma mensagem de apoio.

Na Colômbia, que realizará eleições presidenciais em 27 de maio, não houve reações oficiais, assim como no México. O candidato à presidência do país andino Gustavo Petro, o único aspirante nitidamente de esquerda, foi o único a se solidarizar com o ex-presidente brasileiro: “Depois de um pronunciamento militar, a corte suprema do Brasil prende Lula. Só a reação do povo brasileiro pode impedir o assassinato da democracia".

O partido criado pela antiga guerrilha colombiana das FARC, a Força Alternativa Revolucionária do Comum, já castigado pelos eleitores nas eleições legislativas de 11 de março e à margem da corrida presidencial, também manifestou apoio a Lula. “Rejeitamos que, assim como ocorreu com a ex-presidente Dilma Rousseff, recorra-se a práticas questionáveis juridicamente, que descaracterizam o que deve ser uma democracia, com o objetivo de deslegitimar e barrar seu adversário político”, afirmou as FARC em um comunicado.

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