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Sexo, tráfico de mulheres e corrupção no Miss Venezuela

Participantes acusam ex-gerente da organização do concurso de pedir favores sexuais em troca de patrocínio

Escandalo Miss Venezuela 2018
Osmel Sousa, com as semifinalistas de Miss Venezuela. AP

Patricia Velásquez, candidata a Miss Venezuela em 1989, conta em sua autobiografia, intitulada Sin Tacones, Sin Reservas (“sem salto alto, sem reservas”), lançada em 2015, que se prostituiu antes de alcançar a fama. Foi uma confissão que na época passou quase despercebida, mas que ganhou um novo sentido após a revelação de uma trama envolvendo corrupção e garotas de programa no famoso concurso de beleza do país.

Nenhum depoimento agora parece ser um caso isolado. Várias ex-misses decidiram expor suas experiências de assédio dentro do concurso. Migbelis Castellanos, representante da Venezuela no Miss Universo de 2014, relatou que Osmel Sousa, ex-gerente da organização do concurso, lhe pediu que oferecesse favores sexuais a empresários e funcionários públicos em troca de um patrocínio que bancasse os custos da sua candidatura. Numa entrevista ao canal Telemundo, ela afirma que Sousa — conhecido como “o czar da beleza” — perguntou-lhe antes de disputar o certame internacional: “Você não tem alguém que pague?”.

Sousa, que causou surpresa ao se demitir em fevereiro da organização do Miss Venezuela, nega ter servido como mediador entre candidatas a miss e patrocinadores que exigiam sexo como pagamento. “Que se investigue, e que se investigue de verdade, que se apresentem provas, não intrigas. Após quase 40 anos, você acha que se o Miss Venezuela mantivesse uma rede de prostituição a Venevisión não teria percebido? Agora, se tem alguma menina que depois de sair do concurso faz uma vida irregular, isso não é da minha responsabilidade, nem do Miss Venezuela, nem da Venevisión”, disse o empresário em entrevista ao site Runrunes.

Um grupo de candidatas ao Miss Venezuela.
Um grupo de candidatas ao Miss Venezuela. AFP

O “rei da beleza” fez poucas declarações desde que se desligou do concurso que dirigiu por mais 35 anos. Mas rompeu seu silêncio há alguns dias, quase um mês depois do início do escândalo que associa as misses à corrupção e à prostituição, e que levou na semana passada à suspensão do concurso por decisão dos próprios organizadores, a empresa televisiva Cisneros Media.

Sousa, famoso por ser implacável com as candidatas, diz que não fez fortuna com negócios irregulares e que seu rompimento com a Cisneros Media se deveu a divergências com vários diretores que desautorizaram algumas das suas decisões nos últimos anos. Mas sua tentativa de esclarecer o assunto acabou sendo ofuscada pela onda de denúncias sobre uma possível rede de prostituição no concurso e outros negócios ilícitos que envolvem suas participantes. O mais ruidoso foi a relação de Claudia Suárez, primeira finalista do Miss Venezuela em 2006, com o magnata Diego Salazar, detido em decorrência de um desfalque de dois bilhões de dólares da estatal petrolífera PDVSA com a ajuda de um banco de Andorra.

Osmel Sousa, ex-gerente da organização do concurso Miss Venezuela, em 2016, em Miami. ampliar foto
Osmel Sousa, ex-gerente da organização do concurso Miss Venezuela, em 2016, em Miami.

Suárez foi o chamariz para o depósito de mais de um milhão de dólares nos cofres desse paraíso fiscal europeu, segundo uma investigação publicada em 20 de janeiro pelo EL PAÍS. Zoraya Villarreal é uma veterana miss e apresentadora de TV que também esteve ligada a Salazar, primo de Rafael Ramírez (ex-ministro de Energia e Petróleo e ex-presidente da PDVSA), já que dirigia sua fundação beneficente no país sul-americano. A revelação desses casos motivou outras ex-misses a denunciarem as conexões de participantes do concurso com empresários ou altos líderes do chavismo.

Uma legião de ‘conectadas’

Enchufado é um termo pejorativo na Venezuela. Significa uma pessoa que se beneficia de suas conexões com figuras de poder para ter acesso a altos cargos, negócios ou riquezas procedentes do erário público. Muitas ex-misses são insultadas com essa palavra desde que o escândalo eclodiu. Anarella Bono, ex-mulher do atual diretor do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social da Venezuela, e Debora Menicucci, esposa do presidente do Tribunal Supremo de Justiça, Maikel Moreno, admitiram em um vídeo que eram enchufadas e ameaçaram revelar outras colegas vinculadas a altos funcionários. “Somos parte dessas conexões”, disse a mulher de Moreno.

Outras, entretanto, rejeitaram propostas de patrocínios procedentes de poderosos. Vivian Sleiman, candidata no concurso de 2001, relatou que se reuniu com um “patrocinador” a pedido dos organizadores do Miss Venezuela. Sua lembrança sobre esse encontro é incômoda: o homem que tinham lhe dito para conhecer estava seminu ao se apresentar. “Ouvi falar de tráfico de mulheres e de uma rede de prostituição”, contou ela à Telemundo.

Muitas passaram por situações semelhantes, e outras escutaram relatos. Andreína Castro, ex-representante do Estado de Aragua em 2009, admitiu que uma proposta comum é serem damas de companhias em troca de uma vultosa quantia em dólares.

A queda do rei da beleza

M.C.

Nascido em Cuba de pais espanhóis, Osmel Sousa vive na Venezuela desde os 13 anos e neste país desenvolveu a maior parte da sua carreira profissional. Está desde 1981 à frente do concurso Miss Venezuela, e sob sua batuta o país adquiriu a fama de ser um celeiro de misses, com uma lista de prêmios difíceis de igualar e que fizeram dele um personagem muito popular: sete coroas do Miss Universo, seis do Miss Mundo e outras sete no Miss Internacional.

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