A pressão política acelera a resolução do assassinato da miss venezuelana

O crime foi resolvido em apenas cinco dias em um país onde nove em cada dez homicídios ficam impunes

Parentes do esposo da miss transportam o f?
Parentes do esposo da miss transportam o f?Alejandro Cegarra (AP)

Foi uma operação policial poucas vezes vista e dirigida pelo próprio diretor do Corpo de Investigações Científicas, Penais e Criminalísticas, José Gregorio Sierralta. O resultado era previsível: a rápida captura dos supostos responsáveis pelo duplo homicídio da atriz e 'miss' Venezuela 2004, Mónica Spear, e seu ex-marido Thomas Henry Berry.

Há onze pessoas envolvidas, a grande maioria delas pertence a uma gangue que vivia em uma ocupação adjacente à autoestrada Porto Cabelo-Valencia. Sierralta assegurou que o autor material se chama Jean Carlos Colina Alcalá, de 19 anos, a pessoa que disparou sete vezes contra as vítimas, que decidiram se esconder no veículo acidentado para evitar o roubo. A filha de ambos, de cinco anos, ficou ferida em uma perna. A bala não foi extraída pelos médicos porque não comprometeu órgãos vitais em sua trajetória.

Era a resposta que precisava o Governo, que costuma exigir resultados rápidos à polícia quando acontece um escândalo desta magnitude. Ninguém duvida na Venezuela de que estes são os culpados e associam a pronta resolução à grande capacidade dos pesquisadores. Há um consenso generalizado: as forças de segurança sabem onde estão os delinquentes, os quais formam parte de bandos de jagunços que roubam e assassinam a quem resiste às suas intenções, mas estão impedidas de atuar como gostariam por ordens políticas. O chavismo sempre teve medo do efeito que a repressão gera entre os mais humildes, seus potenciais eleitores.

A rápida resolução deste crime contrasta com a alarmante impunidade da maioria dos casos. Dados da ONG Observatório Venezuelano de Violência indicam que nove em cada dez homicídios cometidos no país ficam sem culpados. É um problema complexo no qual se misturam a inação, a falta de pessoal – promotores, juízes, policiais- destinado a pesquisar e resolver os assassinatos e certa displicência do Estado venezuelano para fazer valer o princípio de autoridade. Enquanto reconhece a magnitude do problema, o governo faz uma leitura diferente de seu apogeu. Alguns, como o deputado chavista Elvis Amoroso, culpam a oposição de ter as armas. Outros, afirmam que tudo é consequência dos “antivalores semeados pela cultura capitalista” e do efeito perverso da programação dos meios de comunicação.

Até agora não se conhece a versão dos supostos assassinos, os quais já foram condenados no julgamento sumário da opinião pública. Se são ou não bode expiatório parece ser o de menos. Durante o funeral, o pai da ex-miss Venezuela, Rafael Spear, respondeu a uma pergunta sobre os supostos responsáveis com uma declaração que resume parte do estado de ânimo nacional: “Eles me destroçaram o coração”. Todos os envolvidos foram enviados à prisão de Tocuyito, na cidade de Valencia, a 170 km ao Oeste de Caracas.

Alcalá cometeu o homicídio com uma arma roubada que depois entregou a um cúmplice, que fugiu. Versões policiais indicam que ele e as quatro pessoas que interceptaram a atriz e a sua família foram entregues às autoridades pelos mesmos vizinhos do bairro onde residiam. Uma mulher também foi pega porque tinha a câmera fotográfica pertencente a Spear.

Pelo que parece todos fazem parte da gangue “Os Sanguinários” que atua como piratas de estrada no setor onde foi assassinada Spear. Os líderes enviam sempre um grupo de homens mais jovens para cometer os delitos. Roubam aos motoristas que se acidentam aproveitando o péssimo estado da via, ou atravessam objetos na calçada para obrigá-los a parar. Logo os chefes se ocupam de revender os objetos roubados. Esta tese estabelece o roubo como o motivo do crime e joga por terra a tese da participação de matadores de aluguel que sugeriu o presidente Nicolás Maduro.

O governante venezuelano criticou o tratamento informativo que alguns jornais deram ao duplo homicídio. Maduro opinou que está se fazendo um “show macabro” com a criminalidade e o caso da atriz. “Buscam nos dividir”, afirmou. “São campanhas de ódio e desmoralização antivenezuelanas que se expandem no mundo inteiro para falar mau de nossa pátria”. A referência parece dirigida a expressões de atores venezuelanos residentes no exterior, os quais prometeram não voltar ao país enquanto a delinquência continue no seu máximo apogeu.