Com nomeação de ultraconservador, Trump coroa sua guinada à direita

O moderado McMaster foi substituído por John Bolton, um falcão da era Bush, na Segurança Nacional

John Bolton (à esquerda) e H.R. McMaster
John Bolton (à esquerda) e H.R. McMaster (REUTERS)

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Os expurgos continuam. O presidente Donald Trump demitiu o assessor de Segurança Nacional, general Herbert Raymond McMaster, e o substituiu por John Bolton, um falcão da era Bush. O anúncio, a dois meses das negociações diretas com a Coreia do Norte, completa a vertiginosa crise de Governo que começou em meados do mês com a saída do assessor econômico Gary Cohn e a demissão fulminante do secretário de Estado, Rex Tillerson. Os três formavam a ala moderada da Casa Branca e eram o principal freio à política ultranacionalista de Trump. Com o afastamento do trio, o presidente agora tem mãos livres para realizar seu programa mais radical.

A saída do tenente-general McMaster era dada como certa. Incapaz de segurar a língua, esse antigo herói de guerra era uma voz respeitada dentro e fora da Casa Branca, mas se indispôs desde o início com Trump, que o achava muito rebuscado e distante de suas propostas mais radicais. Apenas a admiração que o presidente sente em relação aos militares de alta patente e com experiência no campo de batalha deteve seus impulsos e, finalmente, lhe proporcionou uma saída suave comparada com a sofrida por Tillerson, demitido sem aviso prévio por um tuíte humilhante.

A Casa Branca afirmou que a saída de McMaster, a segunda de um assessor de Segurança Nacional em 14 meses, foi feita de comum acordo com o presidente. Mas não especificou qual será seu futuro. O general também não esclareceu, embora tenha adiantado que também abandona a carreira militar. “Depois de 35 anos de serviço à nossa nação, pedi minha exoneração do exército”, disse em um comunicado fornecido pela Casa Branca.

“H.R. McMaster venceu muitas batalhas e ajudou a desenvolver nossa estratégia de segurança, revitalizar nossas alianças no Oriente Médio e levar a Coreia do Norte à mesa de negociações”, disse o presidente.

O substituto de McMaster se encaixa na nova agenda de Trump. Em um ano de eleições legislativas, o presidente quer dar uma guinada à direita e levar adiante sua grande aposta nacionalista. O fim do multilateralismo, as guerras comerciais, a ruptura de tratados como o do Irã e o uso de ameaças militares compõem esse programa.

Ex-embaixador na ONU no mandato de George W. Bush, Bolton é conhecido por suas teses extremas em política internacional. Alinhado com o diretor da CIA e futuro secretário de Estado, Mike Pompeo, o novo assessor de Segurança Nacional exigiu a saída do acordo com o Irã e não descarta, por exemplo, a intervenção militar na Coreia do Norte. Um fator de enorme relevância nas conversas cara a cara que Trump aceitou em manter em maio com o ditador norte-coreano, Kim Jong-un.

Eliminados McMaster, Tillerson e Cohn, o último sobrevivente da ala moderada é o secretário de Defesa, o tenente-general Jim Mattis. Protegido por seu prestígio, Trump não teria ousado demiti-lo. Mas ficou em minoria em um Executivo controlado pelos falcões e no qual a liderança é de Mike Pompeo, de quem se espera que seu primeiro gesto depois de assumir a Secretaria de Estado seja a saída do acordo nuclear com o Irã.

A crise também permitiu a ascensão do conservador e televisivo Larry Kudlow, em substituição a Cohn, e o retorno à arena do assessor Comercial, Peter Navarro, um ultranacionalista que incentiva a guerra tarifária contra a China e defende a ruptura do Tratado de Livre Comércio com a América do Norte.

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