Superclássico argentino

Argentina recupera duas torcidas no clássico Boca e River

Decisão da Supercopa foi um experimento bem sucedido pelo fim da torcida única no futebol argentino

Torcidas de River e Boca estiveram juntas na decisão em Mendoza.
Torcidas de River e Boca estiveram juntas na decisão em Mendoza. (AFP/EFE)

River Plate x Boca Juniors. Boca Juniors x River Plate. O clássico de sempre. Que a cada partida escreve uma página na rica história da rivalidade. Esse ódio, desta vez, não cruzou a fronteira do folclore e, apesar de alguns incidentes isolados, não houve brigas nem grandes confusões. De certa forma, pode-se dizer que a decisão da Supercopa vencida pelo River por 2 a 0 foi um triunfo do futebol que há muito tempo não se via na Argentina. Jogaram rivais, não inimigos. E o River ganhou porque teve mais coração que seu rival, componente fundamental na hora de disputar um troféu. Assim, o time millonario se vingou, 42 anos depois de duelarem pela última vez em uma final.

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Além do jogo e do resultado, o fato de as duas maiores torcidas da Argentina voltarem a dividir as arquibancadas de um estádio, ainda que fora de Buenos Aires, soa como uma redenção para o esporte local. O Superclássico desta quarta-feira foi uma prova de fogo para que as autoridades voltem a permitir público visitante nos jogos de futebol.

Ao pé da cordilheira dos Andes, a quase 1.000 quilômetros da capital federal, as estradas de Mendoza receberam esquema especial de vigilância antes e depois da partida. O deslocamento de torcedores para a quarta cidade mais importante da Argentina se transformou em uma questão de Estado. Desde a sexta-feira passada, o Ministério da Segurança deslocou parte de seu efetivo para Mendoza. O órgão centralizou uma operação que envolveu 1.500 policiais, em conjunto com cinco províncias, para controlar as rotas que separam a terra “do bom sol e do bom vinho” de Buenos Aires.

O fluxo de pessoas na cidade começou a aumentar uma semana antes do clássico. Os ônibus misturaram lobos solitários das torcidas de Boca e River, que, sem provocar intrigas, compartilharam mesas de bar e cervejas. As companhias aéreas aproveitaram a ocasião e a mobilização para inflar o preço das passagens. Um voo que em época normal custaria entre 2.500 e 4.000 pesos (cerca de 500 reais) saiu por 10.000 pesos (quase 1600 reais), o mesmo valor que dois voos para o Rio de Janeiro. Os poucos assentos disponíveis na véspera do jogo tinham escala em Santiago, no Chile, e uma espera de 12 horas. No entanto, Mendoza vestiu-se com as cores mais populares da Argentina e, desde segunda-feira, grupos de torcedores rivais se cruzavam nas ruas cantando e festejando. A bomba-relógio que poderia anunciar uma briga generalizada acabou desarmada pela forte presença de famílias que encaravam a partida como um passeio.

Fazia muito tempo que o Superclássico não tinha duas torcidas, um velho costume que dá ao futebol argentino um contorno especial, que muitas vezes se impõe à qualidade dos jogos entre Boca e River. A necessidade de novos anunciantes faz com que os dirigentes da Superliga argentina pressionem o governo e as forças de segurança pela volta das torcidas visitantes aos estádios. O Superclássico de Mendoza marcou a estreia do programa Tribuna Segura 2.0. Pela primeira vez na história do país, um estádio teve wifi disponível em todos os seus setores. Assim, o Ministério da Segurança pode implementar o reconhecimento facial dos torcedores, que se soma ao controle por RG que, em mais de um ano, já restringiu o acesso a 1.141 barra bravas e prendeu 286 indiciados em 531 operações.

“A Superliga está trabalhando para ter outro perfil de torcedor. Não é o mesmo que foi ao clássico, e o modelo de torcidas visitantes que temos em mente é outro, não este [de Mendoza, com divisão meio a meio]”, advertiu ao EL PAÍS o diretor da área de eventos esportivos do Ministério da Segurança, Guillermo Madero. “Queremos um torcedor monitorado desde a compra do ingresso, passando pelo acesso e o controle de identidade, até chegar às arquibancadas, em um estádio seguro e onde todos estejam sentados. É um trabalho progressivo”, enfatizou, antes de fazer uma recomendação: “A organização do futebol precisa ter maior investimento em segurança”. Não há dúvidas de que o êxito do clássico democrático em Mendoza pode acelerar ainda mais o processo pelo fim da torcida única na Argentina.

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