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Antidepressivos funcionam, segundo o maior estudo sobre sua eficácia

Uma análise de 522 testes confirma a utilidade das 21 drogas mais comuns para tratar a depressão

Uma seleção de cápsulas e comprimidos de antidepressivos Ampliar foto
Uma seleção de cápsulas e comprimidos de antidepressivos

Uma equipe internacional de cientistas que analisou centenas de testes clínicos das 21 drogas antidepressivas mais comuns concluiu que todas elas são mais eficazes na redução dos sintomas da depressão severa do que um placebo. Os pesquisadores afirmam que esses resultados, publicados na revista médica The Lancet, são a “melhor evidência” de que os antidepressivos funcionam e de que mais pessoas doentes poderiam se beneficiar de seus efeitos.

“O efeito placebo é extraordinário, especialmente com a depressão", explica Andrea Cipriani, da Universidade de Oxford, autor principal do estudo. Nos testes com controle aleatório, um terço dos pacientes com depressão severa melhorou depois de dois ou três meses de tratamento apenas com comprimidos açucarados. No entanto, a porcentagem média de pacientes que melhoram ao tomar um antidepressivo real é de 60%. “O ingrediente ativo, a molécula da droga, aumenta a probabilidade de melhoria em 20 ou 25 pontos percentuais”, diz Cipriani. “Sabemos que é estatisticamente significativo, agora temos de ver quanto é significativo na clínica”.

A pesquisa é uma meta-análise, ou seja, um estudo estatístico dos resultados de pesquisas científicas anteriores, neste caso de 522 testes com 116.477 adultos. Para tornar a análise a mais robusta possível, os pesquisadores “se esforçaram muito” para incluir também dados não publicados, diz a especialista em metodologia da Universidade de Berna (Suíça) Georgia Salanti, que também participou da pesquisa. “Buscamos também estudos de empresas farmacêuticas ou de pesquisadores particulares que não chegaram a publicar os resultados de seus testes talvez porque não fossem favoráveis”, explica.

Os cientistas descobriram diferenças na eficácia dos antidepressivos: variam desde os que apresentam o dobro da eficiência de um placebo até os que são apenas um terço mais efetivos do que o placebo. Neste caso, a eficácia de um medicamento é definida como a probabilidade de reduzir os sintomas da depressão em ao menos 50% depois de oito semanas de tratamento. Além disso, os pesquisadores compararam a aceitação de cada droga, uma medida dos efeitos colaterais e do nível de satisfação dos pacientes inferida pelos abandonos de tratamento durante os testes clínicos.

Muitos não recebem tratamento

Em todo o mundo, apenas uma em cada seis pessoas que necessitam de cuidados médicos para depressão recebe um tratamento eficaz, diz Andrea Cipriani. Esse cuidado pode ser farmacológico ou de outro tipo, como a psicoterapia. Isso significa que muito mais pessoas doentes das que estão atualmente em tratamento poderiam se beneficiar do efeito dos antidepressivos, além das outras terapias eficazes disponíveis.

De acordo com Julio Bobes, parte do problema é que as pessoas que realmente precisam de cuidados médicos podem não consultar especialistas por ignorarem a doença ou a eficiência dos tratamentos. “Os próprios afetados às vezes não acreditam que é uma doença”, explica o psiquiatra.

Relatório da OMS, divulgado no site do Ministério da Saúde, mostra que a prevalência da depressão no Brasil já é a segunda maior carga de incapacidade, sendo o maior índice na América Latina. São mais de onze milhões de brasileiros diagnosticados com a doença, de acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS). A prevalência registrada é maior entre as mulheres (10,9%) do que nos homens (3,9%).

Em um comunicado anexo ao estudo publicado na mesma edição da revista, os pesquisadores Sagar Parikh, da Universidade de Michigan (EUA), e Sidney Kennedy, da Universidade de Toronto (Canadá), apontam que três drogas em especial poderiam ser consideradas como “primeira opção” recomendável na clínica por suas altas pontuações em eficácia e aceitação: são a agomelatina, o escitalopram e a vortioxetina. No entanto, Salanti esclarece que os dados são baseados em efeitos médios e o objetivo de sua publicação “não é fazer recomendações específicas”. Cipriani acredita que a hierarquia pode ser especialmente útil para casos clínicos novos e sem antecedentes familiares em que um médico e seu paciente devem escolher uma medicação antidepressiva sem qualquer indicação – para além dos dados estatísticos gerais – da resposta individual que poderia gerar.

Na prática, os psiquiatras se orientam por sua experiência no uso de cada antidepressivo e avaliam os casos particulares de cada paciente, afirma Julio Bobes, presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria. Dado que os estudos coletados utilizam diferentes metodologias e doses, a meta-análise “não é a forma de rigor para organizar drogas em termos de eficácia”, diz o médico. No entanto, Bobes observa que o estudo “foi muito bem feito” e ressalta que os dados ratificam o que os profissionais clínicos já sabiam: que os antidepressivos funcionam para tratar a depressão severa. Tanto ele quanto o autor do estudo, Cipriani, concordam que as mesmas conclusões não podem ser aplicadas em casos de depressão leve.

A pesquisa incluiu pessoas de diferentes etnias e nacionalidades, mas baseou-se apenas em adultos e não contempla diferenças na resposta às drogas por idade, sexo ou outras variáveis. Há dois anos, Cipriani publicou outro estudo na The Lancet que questionou a eficácia dos antidepressivos em crianças e adolescentes. Na ocasião, os pesquisadores descobriram que apenas a fluoxetina – conhecida pelo nome comercial de Prozac– é efetiva para esses pacientes, talvez porque a depressão infantil e juvenil tenha origens e mecanismos particulares. Em adultos, a fluoxetina foi considerada uma das drogas menos eficazes (só aumenta a probabilidade de melhora em 52% em relação ao placebo), embora seja também uma das mais bem aceitas, pois causa poucos efeitos colaterais e tem baixas taxas de abandono nos testes clínicos. Em média, a droga mais eficaz para reduzir os sintomas de depressão severa em adultos é a amitriptilina, que foi a sexta mais bem aceita das 21 estudadas.

 

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