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Pelo menos 95 mortos e 158 feridos com a explosão de uma ambulância-bomba no Afeganistão

O coordenador da ONG italiana Emergency, que atende 131 feridos em seu hospital, fala em “massacre”

Talibãs assumiram chacina, assim como após ataque ao hotel Intercontinental na semana passada

Homem é carregado ferido após ataque em Cabul, neste sábado.

Quase uma centena de pessoas morreram neste sábado, 27 de janeiro, e outras 158 ficaram feridas em um atentado no centro de Cabul, capita do Afeganistão. O ataque, com uma ambulância carregada de explosivos, é o quarto sofrido pela capital afegã no último mês e o mais sangrento desde o caminhão bomba que em maio do ano passado provocou 150 mortos. Os talibãs assumiram a chacina, assim como fizeram em relação ao ataque ao hotel Intercontinental há uma semana.

“Os últimos dados que temos são de 95 mortos e 158 feridos”, declarou Waheed Majroh, porta-voz do Ministério da Saúde, seis horas depois do atentado, citado pela ToloNews. A gravidade de alguns hospitalizados fazia temer que o número de vítimas fatais continuasse aumentando.

Pouco antes das 13h (e das 6h em Brasília), uma ambulância explodiu em um comando da polícia no centro de Cabul, ao lado da popular Chicken Street e de várias embaixadas, entre elas a da União Europeia. A região estava especialmente cheia por se tratar do horário de almoço em um dia de trabalho para a maioria dos afegãos.

“É um massacre”, afirmou Dejan Panic, o coordenador no Afeganistão do grupo de ajuda Emergency, que administra um hospital especializado em trauma próximo ao local da explosão. Esse centro recebeu 131 feridos, segundo informou em seu Twitter.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR), de sua parte, denuncia o uso de uma ambulância para que fosse perpetrado o atentado. “Poderia ser considerado perfídia sob o DIH [Direito Internacional Humanitário]. Inaceitável e injustificável”, tuitou seu escritório no Afeganistão.

Este novo ataque aos talibãs, cujo ataque ao hotel Intercontinental uma semana antes causou pelo menos 22 mortos (14 deles estrangeiros), contradiz a confiança demonstrada tanto pelo presidente afegão Ashraf Ghani como pelos Estados Unidos de que uma nova estratégia militar mais agressiva conseguiu expulsá-los dos centros urbanos. Desde o verão passado, a Administração Trump apostou em um aumento dos bombardeios sobre os insurgentes com a finalidade de inclinar a balança no sentido das forças de segurança afegãs e obrigá-los a negociar. Os rebeldes se empenham no entanto em demonstrar que não foram enfraquecidos.

“A mudança de estratégia fez com que as cidades se tornassem sua nova frente”, interpreta o comentarista afegão Bilal Sarwary. Em conversa pelo telefone com o EL PAÍS, explica que na medida em que os EUA intensificaram seu apoio às forças especiais afegãs com o bombardeio de posições dos talibãs e do Estado Islâmico, esses grupos encontraram nos ataques nos centros urbanos “um meio de chegar às manchetes e minar a confiança das pessoas do Governo”.

Sarwary destaca também “as falhas de inteligência e segurança” que continuam ocorrendo no país e que atribui à cultura da impunidade. “Ninguém é afastado e muito menos demitido depois de incidentes como o de hoje”, lamenta.

Ele não é o único a apontar nessa direção. Omar Zakhiwal, embaixador afegão no Paquistão, se referiu a “outra falha de segurança e deficiência dos serviços de informação” ao criticar o atentado. Da mesma forma, o general Mohammad Ayub Salangi, chefe da polícia de Cabul e das províncias do noroeste, instou o presidente Ghani a empreender “reformas urgentes e cobrar responsabilidades dos funcionários”.

Devido à intervenção dos EUA que os desalojou do poder em dezembro de 2001, os talibãs combatem tanto as tropas estrangeiras como o Governo afegão, ao qual acusam de lacaio do Ocidente. Tanto esse grupo como o ramo local do Estado Islâmico aumentaram seus ataques em Cabul desde 2016, transformando essa cidade de cinco milhões de habitantes em uma das mais perigosas do país para civis.

E isso apesar de que, desde o brutal caminhão bomba de maio do ano passado, o centro se transformou em uma fortaleza de muros de arame-farpado e bloqueios policiais dedicados a inspecionar os veículos que o cruzavam. No entanto, segundo jornalistas locais, as ambulâncias escapavam até agora desse escrutínio, uma falha que foi explorada pelos terroristas e permitiu que o ataque de sábado tenha ocorrido a menos de cem metros do escritório do chefe de polícia de Cabul, a 50 do Comando Antiterrorista e a 30 das instalações do Comando Nacional de Segurança.

“Conseguiram que não haja mais um povo, um vale, uma montanha seguros; agora também nem as cidades”, resume Sarwary. “Isso coloca em situação muito difícil tanto os diplomatas quanto as ONGs, não só para seu trabalho mas também porque estão tentando convencer os refugiados de que é seguro voltar, e claramente não é assim”, conclui.

Dupla frente insurgente

A maioria dos grandes atentados sofridos por Cabul e outras cidades afegãs são obra dos talibãs e em particular da rede Haqqani. Eles se responsabilizaram tanto pela ambulância bomba deste sábado como pelo ataque ao hotel Intercontinental uma semana antes. Mas, em julho de 2016, entrou em cena o Estado Islâmico no estado iraniano de Coração, um ramo local do grupo surgido no Iraque e Síria e mais conhecido por sua sigla em inglês ISIS, com uma explosão dupla que causou pelo menos 85 mortos. Desde então, esse grupo assumiu cerca de vinte ataques na capital, com frequência de caráter sectário como o que realizaram contra um centro cultural xiita em 28 de dezembro passado. Também atribuíram o assalto contra a sede da ONG Save the Children em Jalalabad da quarta-feira passada e o primeiro atentado deste ano em Cabul, que deixou vinte mortos.

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