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Banco Mundial desautoriza seu economista-chefe em polêmica com o Chile

Paul Romer diz que não teve a intenção de acusar a instituição de manipulação política nem de parcialidade na elaboração do relatório ‘Doing Business’: “Não foi isso que eu quis dizer”

Foto de Paul Romer no seu site oficial.
Foto de Paul Romer no seu site oficial.

O Banco Mundial desautorizou o seu economista-chefe, Paul Romer, após uma entrevista dele ao The Wall Street Journal, publicada no sábado, em que acusava o organismo multilateral de alterar sua classificação de competitividade empresarial para prejudicar o Chile e especificamente sua presidenta, Michelle Bachelet. Em carta dirigida ao ministro da Fazenda chileno, Nicolás Eyzaguirre, a principal executiva da instituição, Kristalina Georgieva, classifica as declarações de Romer como “infelizes” e esclarece que “não se trata da visão da gerência do Banco Mundial”. A executiva defendeu o relatório que motivou a polêmica e acrescentou que o BM não tem indícios “que respaldem a ideia de que a metodologia foi distorcida para desfavorecer o Chile, ou que qualquer dessas mudanças tenha ocorrido por outros motivos que não fossem técnicos”. “Temos plena confiança na integridade do trabalho de pesquisa do Banco em geral e na metodologia e nos rankings do relatório Doing Business em particular”, afirmou Georgieva.

O estudo Doing Business mede a facilidade para fazer negócios em 190 países. O Chile caiu constantemente nesse ranking durante o primeiro mandato da socialista Bachelet (2006-2010), subiu no Governo de direita de Sebastián Piñera (2010-2014) e voltou a despencar quando Bachelet retornou ao poder (2014-2018). Nestes 12 anos, o país sul-americano flutuou entre a 25ª e a 57ª posição, uma volatilidade considerável. Segundo as declarações de Romer ao WSJ, a elaboração do estudo poderia ter sido “potencialmente maculada pelas motivações políticas do pessoal do Banco Mundial”, algo que motivou um pedido de perdão do economista. “Quero me desculpar pessoalmente com o Chile e com qualquer outro país onde tenhamos transmitido uma impressão equivocada”, afirmou.

Os quatro anos do segundo Governo de Bachelet, entre 2014 e 2018, teriam sido especialmente prejudicados no Doing Business. Nesse período, a queda do Chile foi provocada quase integralmente por uma mudança na metodologia de análise, e não por alterações nas medições permanentes do ambiente empresarial no país, segundo o relato do economista-chefe do Banco Mundial: “Tendo como base as coisas que estávamos medindo antes, as condições comerciais não pioraram no Chile sob a Administração de Bachelet”, afirmou.

Paralelamente à declaração do Banco Mundial, o próprio Romer escreveu nesta terça-feira uma postagem no seu blog onde esclarece que “numa conversa com um repórter, fiz comentários sobre o relatório Doing Business que deram a impressão de que eu suspeitava de manipulação política ou parcialidade. Não foi o que eu quis dizer. Não vi nenhum sinal de manipulação dos números publicados ou das cifras publicadas no relatório Doing Business ou em qualquer outro relatório do banco”, escreveu o economista. “O que eu quis dizer foi algo em que muitos de nós no Banco acreditamos: que podemos fazer um trabalho melhor para explicar o que nossos números significam”.

Mas Romer novamente pediu desculpas: “Lamento que em minha tentativa de promover mais clareza eu não tenha sido claro”.

Com relação ao Chile, acrescenta: “Na elaboração do relatório Doing Business, alteramos nossos métodos por razões sólidas. Essas mudanças foram cuidadosamente consideradas. Mas quando implementamos essas mudanças, deveríamos ter explicado de maneira mais clara por que, por exemplo, o Chile caía no ranking”.

Em sua carta ao Governo chileno, a executiva do Banco Mundial defendeu as mudanças de metodologia adotadas em 2012 que, supostamente, teriam prejudicado a análise sobre o Chile. Sem essas mudanças, aponta, “o ranking do Chile teria evoluído de maneira similar à observada sob a nova metodologia”: “O Chile se viu especialmente afetado pelas mudanças no indicador de pagamento de impostos”. A executiva observa que Romer chegou recentemente ao organismo multilateral, em 2016, e, portanto, “não teve oportunidade de se familiarizar com o rigoroso processo que acompanhou a mudança de metodologia” e que envolveu, conforme explica, “consultas ao Grupo Banco Mundial, ao setor privado e aos Governos dos países-membros”.

Georgieva, no entanto, reitera a disposição do organismo do investigar o caso depois da denúncia de Romer: “Entendemos que essas declarações tenham criado mal-estar no Chile e faremos todo o possível para reforçar a confiança de nossos clientes e parceiros que confiam na qualidade e na relevância de nossos trabalhos de pesquisa”, declarou ao ministro da Fazenda chileno. “Por essa razão estamos solicitando que uma entidade independente avalie de maneira objetiva se a metodologia do Doing Business foi aplicada adequadamente no cálculo do ranking do Chile. Vamos informá-lo sobre os próximos passos com a maior brevidade possível.”

A presidenta Bachelet, que termina seu segundo mandato em março próximo, reagiu no mesmo sábado pelo Twitter. “Muito preocupante o ocorrido com o ranking de competitividade do Banco Mundial. Além do impacto negativo na posição do Chile, a alteração prejudica a credibilidade de uma instituição que deve contar com a confiança da comunidade internacional”, escreveu a socialista. O ministro da Economia, Jorge Rodríguez, qualificou a suposta a queda no ranking como “uma imoralidade poucas vezes vista”. O chanceler e ministro das Relações Exteriores, Heraldo Muñoz, falou de um dano “irreparável” ao Chile.

A menos de dois meses do fim de seu mandato, Bachelet teve um Governo marcado por transformações estruturais e um crescimento econômico discreto, de 1,8% em média. Os críticos acusam a socialista de gerar instabilidade com reformas mal implementadas, como a tributária, e deixar de lado o crescimento econômico, uma das bandeiras que elegeram Piñera para o período 2018-2022. Para os defensores do Governo, a manipulação do Doing Business pode ter contribuído de maneira significativa para gerar um clima de desconfiança econômica e empresarial.

Depois de receber a carta do Banco Mundial, o ministro da Fazenda, Nicolás Eyzaguirre, afirmou que o Governo “jamais acusou o organismo de ter feito manipulação política nos índices”. “Quem revelou esse assunto foi o economista-chefe, não nós, mas de fato nos sentimos muito incomodados de ter sido matéria de uma controvérsia”, disse o ministro.

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