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Cinco ataques contra igrejas chilenas poucos dias antes da visita do Papa

Polícia encontra panfletos contra a chegada do sumo pontífice, que nesta segunda inicia sua visita ao país sul-americano

Pichação numa igreja: “10 bilhões pelo Papa enquanto o povo morre nas comunidades”.
Pichação numa igreja: “10 bilhões pelo Papa enquanto o povo morre nas comunidades”. AP

Santiago amanheceu na sexta-feira com uma notícia que a presidenta Michelle Bachelet qualificou de “estranha”. Três igrejas da capital foram atacadas de madrugada, três dias antes da chegada do papa Francisco, que entre segunda e quinta-feira estará no Chile para depois viajar ao Peru. As igrejas católicas que sofreram agressões, seja com bombas incendiárias ou explosivos, ficam nos municípios de Recoleta, Peñalolén e Estación Central. Durante a manhã, a polícia encontrou um novo artefato numa paróquia de Estación Central e outro no município de Santiago Centro, que não chegaram a explodir. “As próximas bombas serão na sua batina”, dizia um dos panfletos encontrados.

“O que ocorreu ontem à noite é muito estranho, não é algo que possamos identificar como um grupo específico”, afirmou Bachelet, pedindo que a visita do papa Francisco seja vivida “num clima de respeito, solidariedade e alegria entre nós”. “Serão três dias para que o Chile se encontre ao começar um ano que nos trará desafios, mas também benefícios para as famílias”, completou a mandatária, que na manhã de terça o receberá no palácio presidencial de La Moneda. O Chile preparou todos os detalhes para a visita do Papa, que deve celebrar uma missa para cerca de 400.000 pessoas no Parque O’Higgins, em Santiago.

A Promotoria Sul, encarregada da investigação dos casos, suspeita da rearticulação do Movimento Juvenil Lautaro (MJL), uma organização de esquerda que defendia a luta armada na ditadura de Pinochet. Em novembro e dezembro passados, o mesmo grupo teria atacado várias delegacias do país. Já para os Carabineiros, a polícia militarizada do Chile, trataria-se de grupos anarquistas.

Os ataques foram condenados por diversos setores. O presidente eleito, Sebastián Piñera, expressou pelo Twitter que “o ódio e a intolerância não podem prevalecer sobre o respeito e o Estado de Direito”. Em nota, a Igreja Católica local lamentou o vandalismo. “Esses atos, que contradizem o espírito de paz que anima a visita do Papa ao país, nos doem profundamente. Com humildade e serenidade, pedimos a quem realizou esses atos – que consideramos que não representam, em absoluto, o sentimento da imensa maioria da população – que reflita sobre a necessidade de que exista respeito e tolerância entre todos, para construir uma pátria de irmãos”, afirma o documento do Arcebispado de Santiago.

Janela quebrada da igreja católica Emmanuel, um dos alvos.
Janela quebrada da igreja católica Emmanuel, um dos alvos. AP

O Governo anunciou que apresentará uma denúncia e, através do subsecretário do Interior, Mahmud Aleuy, reforçará as medidas de segurança nas igrejas católicas. Embora os ataques não tenham provocado grandes danos nem feridos, para o Ministério Público trata-se de atos “preocupantes”. “O Chile receberá a visita não somente do líder da Igreja Católica, mas de um chefe de Estado”, afirmou o procurador-chefe da zona Metropolitana Sul, Raúl Guzmán.

A visita de Francisco é segunda realizada por um sumo pontífice ao país sul-americano. João Paulo II esteve no país em 1987, no final da ditadura de Augusto Pinochet. Desta vez estará em Santiago, mas visitará outras duas cidades: Temuco, no sul, onde acenará ao povo mapuche, e Iquique, no norte, escolhida por ser uma localidade com forte presença de imigrantes e onde o Papa se reuniria com vítimas da repressão do regime militar (1973-1990).

Francisco chegará a um país que se distanciou da Igreja Católica. Embora na ditadura a instituição gozasse de apoio popular devido ao seu ativo papel em defesa dos perseguidos, nas últimas décadas perdeu força entre a sociedade. Segundo um estudo da consultoria chilena Latinobarómetro divulgado na última sexta, o Chile é a nação sul-americana com o menor índice de aprovação de Jorge Bergoglio e a menor confiança em sua instituição. Nas semanas anteriores à visita, por exemplo, os chilenos criticaram não só o custo da viagem, mas também a decisão das autoridades de declarar dias de festa pela chegada do Papa, considerando que o Chile é um Estado laico.

“10 bilhões pelo Papa enquanto o povo morre nas comunidades”, dizia uma pichação numa parede próxima a uma das igrejas atacadas.

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