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Por que os astronautas crescem até cinco centímetros quando vão ao espaço

Viajar fora da Terra provoca perda de massa muscular, problemas visuais e transtornos do ritmo circadiano

O astronauta japonês antes de ir para a ISS, em 17 de dezembro. Ampliar foto
O astronauta japonês antes de ir para a ISS, em 17 de dezembro. REUTERS

O astronauta japonês Norishige Kanai anunciou nesta terça-feira que cresceu nove centímetros no espaço durante suas três semanas na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). “Estou um pouco preocupado sobre se entrarei no assento da nave Soyuz quando regressar”, contou em seu Twitter. Esta nave é a que leva os astronautas da Terra até a ISS, e vice-versa, e seus assentos têm um limite de altura. Mas nesta quarta-feira, depois de a notícia ter dado a volta ao mundo, Kanai se desculpou por um erro na medição: na realidade, só cresceu dois centímetros.

Os astronautas crescem no espaço em média de dois a cinco centímetros. Isto se deve à ausência de gravidade, que faz com que as vértebras se separem e a coluna se expanda. Mas, ao voltar à Terra, em pouco tempo retomam a sua altura original. “Os discos são como esponjas”, explica o fundador e primeiro diretor do Museu da Ciência de Barcelona (atual CosmoCaixa), Rafael Clemente. Este engenheiro industrial e especialista em divulgação sobre astrofísica afirma que a coluna vertebral não se alonga ilimitadamente. “Tanto faz se você estiver no espaço um mês ou um ano, chegará um momento em que não crescerá mais.”

Desde que os seres humanos chegaram ao espaço, há mais de 50 anos, foram realizados vários estudos médicos para determinar como a saída da Terra afeta o corpo humano. Scott Kelly foi o primeiro norte-americano a passar quase um ano no espaço a bordo da Estação Espacial Internacional. A NASA estudou como a viagem afetou sua saúde comparando-a com a de seu irmão gêmeo, que ficou na Terra.

Um dos efeitos mais prejudiciais de viajar ao espaço é que se perde muito cálcio. Ali se flutua, e movimentar-se exige muito menos esforço. Enquanto uma pessoa idosa na Terra pode perder 1% de massa óssea por ano, no espaço essa quantidade se volatiliza em um mês. Além disso, dentro da cápsula os astronautas não têm contato com o sol, uma fonte importante de vitamina D. “O que acontece é muito parecido ao que se passa com as pessoas idosas que estão acamadas: sofrem de problemas de osteoporose ou de perda de cálcio”, ressalta Clemente. Para minimizar esse problema, têm um programa de exercícios muito intensos durante todo o dia: passam horas na bicicleta estática ou no simulador de levantamento de pesos.

A falta de gravidade produz também atrofia nos músculos e as extremidades perdem volume. Para evitar isso, segundo afirma Clemente, os russos utilizavam há anos o traje de pinguim, formado por calças com tiras elásticas até os pés que os forçavam a fazer esforço com as pernas para mantê-las esticadas. “Quando aterrissam, depois de uma longa viagem, praticamente têm de ser carregados nos braços e em seguida colocados em uma cadeira. Levam dias para voltar a adquirir tônus muscular”, explica.

Dois terços dos astronautas regressam do espaço com miopia, apesar de muitos deles serem pilotos que antes tinham uma visão perfeita. Um estudo apresentado em 2016 na reunião anual da Sociedade Americana de Radiologia (EUA) revela que isto se deve às mudanças no líquido cefalorraquidiano, o fluido do sistema nervoso central, pela falta de gravidade.

Decolar também não é sempre fácil. Há astronautas que apresentam enjoos durante as primeiras horas de viagem. Frank Borman, o comandante da Apolo 8 –primeira missão a ir à Lua– vomitou duas vezes na saída. Depois de 24 horas se recuperou e durante o resto da missão não teve sintomas. Mas para a NASA, “o aspecto mais perigoso de viajar a Marte é a radiação espacial”. Os astronautas no espaço recebem até dez vezes mais radiação que na Terra. A exposição à radiação pode aumentar seu risco de sofrer de câncer, causar doenças degenerativas como catarata ou doenças cardíacas e circulatórias.

“O que acontece aos astronautas é muito parecido ao que se passa com os idosos que estão acamados: sofrem problemas de osteoporose ou de perda de cálcio”. Para aliviar esse problema têm um programa de exercícios muito intensos durante todo o dia: passam horas na bicicleta estática ou no simulador de levantamento de pesos

Além dos problemas fisiológicos, também pode haver consequências psicológicas. Ter quatro pessoas metidas em uma cápsula durante seis meses pode provocar incompatibilidade entre elas. Por isso, os grupos da expedição são selecionadas cuidadosamente levando em conta que possam trabalhar eficazmente em equipe. “Os mal-entendidos podem afetar o rendimento e o sucesso da missão”, explica a NASA em seu site. A isso se deve somar possíveis transtornos do ritmo circadiano, já que, segundo Clemente, “em uma nave orbital você pode ver um nascer e um pôr do sol a cada 90 minutos. Portanto, o ritmo de 24 horas se desmonta”.

Conhecer como reage o corpo humano às condições do espaço é útil para as missões futuras, quando as viagens espaciais forem de meses ou anos. Por exemplo, na superfície de Marte se viveria em aproximadamente um terço da gravidade da Terra. Por isso, a NASA trabalha na preparação de um programa médico para compensar os efeitos contraproducentes da redução da gravidade.

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