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TRIBUNA

As 136 milhões de pessoas deixadas para trás

Essa é a cifra dos que precisam de ajuda de emergência e sofrem em conflitos novos e crônicos pelo mundo

Criança em acampamento na República Democrática do Congo após fugir de área de combate no Sudão do Sul.
Criança em acampamento na República Democrática do Congo após fugir de área de combate no Sudão do Sul. AFP

Esther tem 30 anos e passou os últimos três fugindo. Em 2014, ela deixou seu vilarejo próximo à cidade de Batangafo, no norte da República Centro-Africana, durante os conflitos que provocaram a queda do então presidente do país. Viveu mais de dois anos em um acampamento de deslocados até que, com o recrudescimento da guerra em 2017, passou a sentir medo ali também. Desde julho, Esther vive no terreno de um hospital de Médicos Sem Fronteiras. Como outras centenas de pessoas que buscaram refúgio no lugar, ela divide uma cabana de galhos e pedaços de pano com a filha e o irmão mais novo.

Esther é uma entre 2,5 milhões de centro-africanos que precisam de assistência emergencial, e uma entre quase 136 milhões de pessoas em todo o mundo que, segundo estimativa do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), dependerão de ajuda humanitária em 2018. O número, 5% maior do que em 2017, representa 1 em cada 56 dos 7,6 bilhões de habitantes do planeta. E está subestimado, uma vez que a projeção do OCHA não inclui, por exemplo, as pessoas que fogem da violência em países da América Central, e também perdem os meios de sobrevivência.

Em meio a cifras enormes, é fácil esquecer de que cada uma delas é a multiplicação de histórias individuais de sofrimento, que se repetem neste exato momento. Embora desastres naturais e fenômenos climáticos deem sua contribuição, a causa principal são os conflitos prolongados – como o que pôs Esther em fuga e atingem países como Iêmen (22,2 milhões em necessidade de ajuda emergencial), Nigéria (14,5 milhões), Síria (13,1 milhões), Iraque (8,7 milhões), Sudão do Sul (7 milhões) e Somália (6,2 milhões). Na República Democrático do Congo (RDC), palco de diferentes conflitos que se sucedem há mais de duas décadas, mais de 13 milhões de pessoas precisarão de assistência de emergência em 2018.

Em 2017, a esse quadro somaram-se novas e agudas crises humanitárias. Em apenas quatro meses, a partir de agosto, mais de 650 mil pessoas da etnia Rohingya fugiram de Mianmar para o vizinho Bangladesh. Os profissionais de MSF nos acampamentos de refugiados ouviram relatos que davam conta de uma onda de violência generalizada contra esse povo por parte do Exército, da polícia e de milícias birmanesas: aldeias incendiadas, homens e rapazes executados, mulheres agredidas e estupradas. Nem as crianças foram poupadas.

“Eu estava segurando meu bebê de 28 dias no colo. Eles o atingiram com alguma coisa pesada. O objeto bateu na cabeça e o bebê morreu. Eu vi como seu crânio se abriu e o cérebro saiu”, contou uma refugiada Rohingya, de 25 anos, que havia sofrido cortes de facão na cabeça e no pescoço. Equipes de MSF fizeram um levantamento com mais de 2.400 famílias precariamente instaladas nos acampamentos em Bangladesh. Assim, foi possível estimar que pelo menos 6.700 Rohingyas foram mortos no estado de Rakhine, em Mianmar, apenas no primeiro mês da crise.

Também se revelou com maior força, em 2017, o inferno em que vivem os migrantes e refugiados que tentam cruzar a Líbia para chegar à Europa pelo Mediterrâneo. Encarceradas em galpões fétidos por redes de tráfico, exploradas de todas as formas, essas pessoas estão dispostas a arriscar sua vida no mar, em botes e barcos precários, para ter segurança e uma vida melhor. Foram traídas pelos países europeus, que, para conter a chegada dos deserdados às suas costas, passaram a financiar a guarda costeira da Líbia. A União Europeia tornou-se cúmplice das autoridades de um país sem Estado de direito, custeando o trabalho de receptação de migrantes no mar e sua devolução à detenção ilegal.

Há crises humanitárias que ganham maior destaque midiático, como a da Síria, e crises ignoradas, como a que aconteceu a partir de meados de 2016 na região de Kasai, uma área até então pacífica no centro da República Democrática do Congo. Choques que começaram com a morte pelos militares de um chefe local levaram 1,6 milhão de pessoas a fugir de suas casas. Centenas delas passaram meses escondidas na floresta, se alimentando com o que podiam encontrar. Quando os confrontos cederam, 80 valas comuns foram encontradas. Equipes de MSF trataram pessoas cujos membros tiveram que ser amputados porque ferimentos e fraturas passaram semanas sem tratamento.

Um imenso anacronismo marca algumas das crises humanitárias de 2017. No final do ano, dois surtos de difteria foram reportados no Iêmen e nos campos de refugiados Rohingya em Bangladesh – com respectivamente mais de 300 e mais de 2.000 casos suspeitos atendidos apenas por profissionais de MSF. A difteria é uma doença que chega a ter uma taxa de mortalidade de 40%, mas é facilmente evitável por meio da vacinação infantil de rotina. Por isso mesmo, há tempos não ocorre na maior parte do mundo. Os surtos ilustram a precariedade extrema a que foi reduzido o sistema de saúde do Iêmen, e a discriminação que sofrem os Rohingya no acesso a cuidados básicos de saúde, como a vacinação, em Mianmar.

Jogar luz sobre as crises humanitárias ajuda a pressionar por maiores recursos humanos e financeiros para cumprir o imperativo maior – ainda que muitas vezes negligenciado - de salvar as milhões de vidas em risco. O esquecimento e o sentimento de abandono são comuns aos que lutam para sobreviver e prosseguir em meio a esses eventos terríveis. Quando muitos usam o medo para discriminar e isolar, a experiência de Médicos Sem Fronteiras mostra que, muitas vezes, a solidariedade e a luta pela dignidade de todos podem ser uma força insuperável.

Claudia Antunes é coordenadora de Imprensa e Gabriela Roméro é coordenadora de Conteúdo de MSF-Brasil

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