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Mulheres de todo o mundo se identificam com o assédio narrado num conto viral da ‘The New Yorker’

Se você é mulher, ‘Cat Person’, de Kristen Roupernian, talvez faça você sentir que já passou por isso

Jaime Rubio Hancock
Plume Creative / Getty Images

Nem todos os virais são vídeos de dois minutos, tuítes de 280 caracteres ou fotos do Facebook. Viralizam também contos de mais de 7.000 palavras, como é o caso de Cat Person, uma história publicada na revista The New Yorker escrita por Kristen Roupernian, que pode ser lida em cerca de 20 minutos. Conforme informa The Atlantic, é o conto da The New Yorker mais lido até agora neste ano (a revista publica um toda semana). Não apenas isso: o texto deu origem a muitas análises, tanto nas redes sociais como em outros artigos, falando sobre relacionamentos, feminismo e até gêneros literários.

Cat Person (pessoa dos gatos) narra a relação entre Margot, de 20 anos, e Robert, de 34. Depois que se conheceram e trocaram mensagens de texto, ficam juntos uma noite. O encontro não é muito bom e Margot decide que não quer vê-lo novamente. Como a própria autora explica em uma entrevista na The New Yorker, a protagonista está sempre dominada pelas incertezas: não sabe realmente como é Robert e muito imagina só a partir de suas mensagens. Mesmo assim, tanto antes quanto durante o encontro, ela está mais preocupada com o que ele sente do que com o que ela realmente quer fazer.

O sucesso do conto não se deve apenas à habilidade da autora para refletir essas experiências. O contexto também tem muito a ver: na revista The Atlantic, a jornalista Olga Khazan escreveu que esse conto viral se encaixa perfeitamente no “momento #MeToo”, em referência à hashtag que mulheres de todo o mundo usaram para dizer que também foram vítimas de abuso sexual. Segundo Khazan, o texto reflete “os esforços das mulheres para administrar os sentimentos dos homens e a humilhação que ainda sofrem”. E acrescenta, falando sobre as dúvidas que Margot tem antes de ir para a cama com Robert: “O que temos de pensar de um encontro sexual tecnicamente consensual, mas que Margot considera a pior decisão que tomou na vida?”.

Para mim, a coisa mais interessante sobre 'Cat Person' não é a parte sexual, mas a GESTÃO PERPÉTUA que ela é forçada a fazer: o espaço mental que ela dedica a interpretar as emoções do imbecil, reorientando suas reações e mitigando possíveis danos.

Não fazia ideia de quão universais são essas emoções para as mulheres. Não sabia que outras mulheres tinham passado por experiências como essas e isso me faz sentir muito triste por todas nós.

Estou na metade de Cat Person, a história da The New Yorker, e estou fazendo uma pausa para encontrar ajuda de grupo. Por favor, ajude-me, nem sequer terminei.

Matilda Dixon-Smith, crítica do The Guardian, concorda quando escreve que, em experiências como as que Roupernian narra, “ninguém violou a lei, ninguém rompeu seu consentimento, mas mesmo assim você se sente mal”. Na opinião dela, vale a pena falar e refletir sobre esse tipo de relações sexuais, especialmente agora: “Estamos imersos no momento pós-Weinstein e desnudamos algumas das insidiosas diferenças de poder que até agora estavam escondidas”.

Ademais, faz tudo isso sem quer se limitar a dar uma lição de moral e, portanto, mostrando “a complexidade oceânica do encontro entre Margot e Robert, que se lê como uma história perene de confusão entre seres humanos e também como um produto de seu tempo”, como escreve Laura Miller na revista Slate.

Dixon-Smith também fala no The Guardian sobre a perplexidade que os homens mostram nesse momento: “Eles estão à margem, confusos, olhando o que forjaram”. Há muitos exemplos dessa confusão e da falta de reflexão em uma conta do Twitter chamada Men React to Cat Person (“homens reagindo a Cat Person”) que traz tuítes que seguem a resposta banal de “not all men” (nem todos os homens), entre outras atitudes habituais. Ou seja, querendo enfatizar que eles nunca fariam algo parecido e que, portanto, a experiência que essas mulheres tiveram “não é para tanto”. Também há muitos comentários que reduzem o valor da experiência da protagonista e, consequentemente, as experiências daquelas que se sentiram identificadas com ela.

Adoro como isso se tornou uma história masculina. Eu devo tê-la lido de uma maneira muito diferente. Não vejo nenhum problema de consentimento. Ela só estava confusa e insegura. Então fez ghosting com ele. O pior que ele fez foi insultá-la no final.

Cat Person, resumo: uma garota egocêntrica e crítica se envolve com um cara pelo qual não tem atração física. Eles fazem sexo antes de estabelecer uma conexão emocional. Sem surpresa, o ato sem amor é triste e deprimente. Gato(s): Pista(s) falsa(s).

Algum homem poderia ter navegado no labirinto de pensamentos e sentimentos da cabeça dela? Robert estava mal preparado.

Muitas mulheres do meu feed estão compartilhando Cat Person, mas não muitos homens, o que é uma pena porque é como uma janela secreta para uma experiência privada que a maioria de nós experimentou e se alguém precisa ler essa merda, são os homens.

Muitas mulheres compartilharam suas impressões sobre o conto no Twitter, depois de se sentirem identificadas com a história.

Uma das funções (ou recompensas) da ficção é que pode ajudar a refletir sobre vivências e ideias que nem sempre soubemos ou pudemos expressar, como aconteceu com muitas leitoras e com o personagem de Margot. Mas também pode nos ajudar a saber o que outras pessoas passaram. Inclusive o que se fez outras pessoas passar.

Depois do sucesso mundial do conto de Roupenian, a Companhia das Letras anunciou que comprou os direitos do livro 'You know you want this' (Você sabe que quer isso) que deve ser publicado nos Estados Unidos na primavera de 2019.

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