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Mulheres cientistas escondidas pela História

Livro destaca o papel de 14 grandes pesquisadoras desaparecidas ou relegadas a segundo plano no relato da ciência

Cientistas numa manifestação contra os cortes na ciência, em 2013.
Cientistas numa manifestação contra os cortes na ciência, em 2013.

Um experimento: dois currículos exatamente iguais, mesmos estudos, mesma experiência, mesma formação e mesmas competências. Só uma diferença: o nome. Um deles se apresenta como Jennifer; o outro, como John. Distribuem vários CVs a 127 professores de biologia, química e física para que avaliem suas competências e a possibilidade de serem contratados. Resultado: na visão dos especialistas, Jennifer tem 17,5% menos competências que John e deveria ganhar 12,4% menos.

Jennifer e John não existem. São dois personagens inventados por Corinne Moss-Racusin numa pesquisa publicada em 2012 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Mas as cifras – e a realidade – são contundentes: as mulheres receberam apenas 3% dos quase 600 prêmios Nobel de ciência entregues até hoje. E não há nenhum nome feminino à frente dos órgãos públicos de pesquisa na Espanha (segundo dados de 2015). Só que as pesquisadoras existem. E muitas. Sempre existiram, embora a História tenha se encarregado de ocultá-las.

Mas o professor de farmacologia Sergio Erill, entre outros, incumbiu-se da tarefa de jogar luz sobre esses nomes e dar a eles o devido lugar no mundo da ciência. Através do livro La Ciencia Oculta (A ciência oculta), editado pela Fundação Dr. Antonio Esteve, da Espanha, o professor examina o papel de 14 grandes pesquisadoras que ficaram relegadas a segundo plano – ou ao mais miserável anonimato –, apesar de sua grande contribuição para a ciência. “O papel da mulher na ciência esteve – e está – cheio de dificuldades”, resume o professor.

Erill analisa a história de vida de 14 mulheres que tiveram um papel crucial no desenvolvimento de várias disciplinas científicas. A começar, por exemplo, por Hipátia, de quem não se sabe ao certo nem o ano de nascimento (calcula-se que foi entre 355 e 370), mas cuja contribuição à geometria, à álgebra e à astronomia é bem conhecida. Também sabemos sobre a sua morte, nas mãos de um grupo de cristãos por uma espécie de heresia.

Grandes e chamativas imagens, a priori sem vínculos entre si, são o ponto de partida de cada biografia selecionada por Erill. O autor reconhece que deixou muitas, muitíssimas, de fora. “E tantas outras das quais não sabemos nada”, completa. Trata-se de uma homenagem breve – cada caso dura apenas algumas páginas –, em linguagem simples e coloquial, diz Erill, para se aproximar de um público concreto: os adolescentes. “Queria dizer aos jovens que as mulheres tiveram um papel importante. Então, escrevi de maneira informal para que o texto seja atrativo”, explica.

Maria Kirch, descobridora de um cometa em 1702, passou a vida como ajudante, sempre à sombra de alguém: primeiro de seu marido; depois de outro astrônomo; e, mais tarde, de seu filho. Ada Lovelace, filha do poeta Lord Byron, lançou as bases do que agora conhecemos como programação informática, mas seu nome sempre se submeteu ao de Charles Babbage, que ficou famoso como o precursor do computador – um conceito que, na verdade, Ada desenvolveu.

Mina Fleming entrou para o Harvard College Observatory como empregada do professor E. C. Pickering e acabou catalogando mais de 10.000 estrelas e descobrindo 10 novas, 52 nebulosas e 310 estrelas variáveis. Nesse mesmo centro, Pickering contratou Henrietta Swan Leavitt também para catalogar estrelas. Mas a cientista encontrou um elemento-chave para determinar a distância entre as elas, uma ferramenta fundamental da cosmologia que serviu, anos depois, para descobrir que o Universo se expande.

Mina Fleming entrou para o Harvard College Observatory como empregada e descobriu 10 novas, 52 nebulosas e 310 estrelas variáveis.


Emmy Noether, que demonstrou uma teoria da física de partículas e teve um papel essencial no campo da álgebra abstrata, trabalhou durante 25 anos sem receber salário. Rosalind Franklin, artífice da imagem que mostra a estrutura helicoidal do DNA, teve seus dados “roubados”. Estes serviram para que Watson e Crick recebessem o Nobel de 1962 por sua contribuição para o entendimento da estrutura do DNA como uma hélice dupla. Nem sequer a mencionaram.

Ninguém reconheceu o papel dessas mulheres. E, quando isso aconteceu, foi em círculos restritos ou tarde demais. Quando alguém propôs entregar o Nobel a Leavitt, a pesquisadora já estava morta havia quatro anos. Lisa Meitner, uma das descobridoras da fissão nuclear, tampouco foi mencionada quando a Academia Sueca premiou seu companheiro Otto Hahn pela façanha. Em 1967, quando era apenas uma estudante de doutorado, Jocelyn Bell descobriu os pulsares, o que rendeu um Nobel ao seu orientador Antony Hewish e a Martin Ryle. Embora tenha sido ela a primeira a detectar o sinal, Hewish disse na época que dar o Nobel a uma aluna de doutorado teria desvalorizado o prêmio.

Para expiar as culpas da História, a comunidade científica tentou remediar as ignomínias sofridas por essas mulheres. Assim, um asteroide foi batizado de Kirch. A geóloga Florence Bascom, que precisou frequentar a universidade escondida atrás de uma tela para não distrair seus colegas masculinos, foi condecorada postumamente com seu nome numa cratera de Vênus e num asteroide. Leavitt deu nome a uma cratera da Lua. Para homenagear Meitner, colocaram seu nome num elemento da tabela periódica: o meitnério (Mt, número atômico 109).

Erill finaliza com o não-caso de Jennifer e John, com suas páginas em branco, sem rosto. Porque Jennifer, diz o autor, ainda pode ser qualquer das jovens pesquisadoras que lotam as salas das faculdades de ciências de meio mundo. “O preconceito está tão arraigado na sociedade que levará muito tempo [para desaparecer]. Primeiro, será preciso tomar consciência do problema”, avisa.

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