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Espanhol ou catalão?

Separados nos sentiríamos mais sós em um planeta que tinha começado a derrubar suas fronteiras para sentir-se uma única aldeia enriquecida pela força da união de suas línguas e suas culturas

Manifestação em Barcelona convocada por entidades contrárias à separação da Catalunha, no dia 29 de julho
Manifestação em Barcelona convocada por entidades contrárias à separação da Catalunha, no dia 29 de julho Enric Fontcuberta (EFE)
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Alguns leitores brasileiros me pedem que, como espanhol, eu “me defina sobre a Catalunha”. Começo dizendo que não gosto nem de bandeiras nem de hinos. Não me emocionam. Talvez por isso me sinta sobretudo cidadão do mundo. Hinos e bandeiras me trazem ecos de batalhas de uns povos contra outros. Os hinos nasceram como gritos de guerra. A eles prefiro os minutos de silêncio para recordar alguma tragédia, como os realizados em Barcelona para homenagear as vítimas do terrorismo.

Não gosto das bandeiras que me evocam igualmente os tempos, da antiguidade, em que os povos lutavam entre si para ampliar seus territórios. Os papas abençoavam as bandeiras dos cruzados. A cruz cristã continua presente em muitas bandeiras. Eu prefiro as cantadas pelo grupo de rock espanhol Extremoduro: As bandeiras de minha casa são a roupa estendida / em minha casa as bandeiras são os pássaros sem dono / em minha casa as bandeiras são de todas as cores / em minha casa as bandeiras são feitas de água pura / são os duendes do parque que reviram o lixo.

Eu gostaria de tecer uma bandeira com as cores de todas as culturas do planeta. Uma bandeira que abraçasse as aspirações de justiça e liberdade de todos os oprimidos e esquecidos, os sonhos de todos os poetas, as batidas do coração de todos os apaixonados. Sou filho do planeta. Por isso, sinto-me catalão porque sou espanhol. E porque sou espanhol sinto-me também galego e asturiano e basco e andaluz e castelhano. Sinto-me espanhol de todas as comunidades, cada uma com sua história, sua literatura e suas riquezas naturais. Se acaso me senti, quando jovem, atraído especialmente pela Catalunha foi por se opor ao franquismo e porque foi a que mais se contagiou dos valores democráticos do exterior, enquanto o resto da Espanha dormia em seu ostracismo, ausente do mundo. A democracia deve muito à Catalunha. Sou espanhol de toda a Espanha e sou europeu porque tenho consciência que a União Europeia não só trouxe prosperidade ao velho continente, mas também, e principalmente, paz, o único meio século da Europa sem guerras é este que estamos vivendo desde que nasceu a Europa unida.

Hoje, quando me invade a tristeza de ver, novamente, os demônios de uma possível guerra entre irmãos baterem as asas sobre a Espanha, tenho a certeza de que, qualquer que seja o desfecho do drama catalão, separados nos sentiríamos mais sós em um planeta que tinha começado a derrubar suas fronteiras para sentir-se uma única aldeia enriquecida pela força da união de suas línguas e suas culturas. Que a Catalunha do design e da economia, da arquitetura que emociona o mundo, a Catalunha laboriosa e séria, a democrática, a invejada por empresários e intelectuais, a aberta ao mundo, não renuncie a ser essa parte de que a Espanha precisa para sê-lo de todo. E que a Espanha democrática e europeísta, que cresceu e prosperou pela mão dessa Catalunha que a ajudou a lutar contra a barbárie da guerra e da ditadura, não permita, embora seja a custo de inventar o impossível, que os catalães acabem fora dela.

Perderíamos todos, os espanhóis, perderia a Europa e perderia o mundo, já que hoje não se move uma peça em seu tabuleiro sem que as demais entrem em alarme. “Dividir para vencer” foi um antigo grito de guerra romano. A paz, a da Espanha e a da Catalunha, a da Europa e a do mundo, só será possível se estivermos juntos, não separados.

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