A ciência contra uma velha (e mortal) inimiga

Novas técnicas para deter a tuberculose vão desde um comprimido com sensor para controlar sua ingestão até diagnósticos mais eficientes

Laboratório de tuberculose da Clínica Metrosalud, de Medellín, Colômbia.
Laboratório de tuberculose da Clínica Metrosalud, de Medellín, Colômbia.JAVIER GALEANO (THE UNION)

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A batalha contra a tuberculose, a doença infecciosa mais letal do planeta, segue em ritmo exasperante. Com as atuais quedas de cerca de 1% ao ano, demoraríamos um século e meio para eliminar a epidemia. Enquanto isso, a doença continua matando anualmente quase dois milhões de pessoas. Os motivos para que uma doença antiga, prevenível e curável continue causando tanto dano à humanidade são tantos quantos as soluções, que passam, segundo insistem os pesquisadores, por criar “novas ferramentas”.

Uma série delas foi apresentada semana passada na 48a Conferência da União Internacional contra a Tuberculose e Doenças Respiratórias (The Union) em Guadalajara (México). Não existe uma varinha mágica que possa solucionar tudo da noite para o dia; a ansiada nova vacina que revolucionaria a luta contra o bacilo não é esperada em curto prazo; mas realmente existem contribuições, umas mais consolidadas do que outras, que juntas podem permitir continuar avançando para que a epidemia seja história em 2030, assim como propôs a comunidade internacional nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Estes são alguns dos avanços mais promissores apresentados em Guadalajara:

1. Terapia de observação sem fio

O tratamento para a tuberculose existe; assim como a cura. O problema é que é longo: dura seis meses e os pacientes começam a se sentir bem logo nas primeiras semanas, então é frequente que abandonem a medicação antes de estarem totalmente recuperados. As consequências podem ser muito graves, já que a bactéria é capaz de gerar resistências aos antibióticos e, nesse caso, já não é tão simples acabar com ela. Para evitar isso, sempre que é possível, a ingestão de comprimidos é supervisionada por profissionais de saúde ou voluntários que garantem que o paciente está seguindo adequadamente o tratamento. Mas essa estratégia carece de recursos óbvios: falta de pessoal, capacidade de acompanhamento de um número limitado de doentes, impossibilidade de fazê-lo durante todos os dias da semana...

Com as atuais quedas de cerca de 1% ao ano, demoraríamos um século e meio para eliminar a epidemia. Enquanto isso, continua matando anualmente quase dois milhões de pessoas

A terapia de observação sem fio pode ser uma solução para isso. Consiste em que os comprimidos incorporem um sensor comestível que interage com um equipamento que o paciente usa grudado à pele. Quando toma o remédio, é detectado e a informação é enviada por tecnologia bluetooth a um dispositivo móvel que está conectado a um servidor seguro de Internet, no qual profissionais de saúde podem confirmar a ingestão de forma remota. Uma pesquisa controlada com o dispositivo WOT (em sua sigla em inglês), aprovado pela agência que controla os medicamentos nos Estados Unidos (FDA), comprovou que o método é 54% mais eficiente do que a observação direta, segundo informou Sara Browne, da Universidade da Califórnia.

Na opinião de Paula Fujiwara, diretora científica da The Union, trata-se de um dos avanços mais promissores apresentados este ano no congresso. “Falta ver até que ponto é aplicável”, pondera. O custo e as dificuldades de acesso à tecnologia podem ser um obstáculo a seu avanço. “Estamos trabalhando para levantar todos esses detalhes”, afirmou Browne.

2. Novos métodos diagnósticos

O diagnóstico da tuberculose é lento e exige pessoal especializado, algo nem sempre fácil de conseguir nos locais em que a doença está mais presente: lugares pobres superpovoados e com falta de condições higiênico-sanitárias. A forma mais comum de detectá-la é com o cultivo do esporo, algo especialmente difícil de conseguir em crianças. Duas técnicas apresentadas em Guadalajara tentam mudar essa realidade: uma coleta amostras de células raspadas da boca e outra se baseia em avanços na análise do sangue, uma técnica utilizada, mas não recomendada pela OMS até hoje por não ser tão confiável.

3. Vacinação precoce

Não existe vacina para a tuberculose comum, mas uma efetiva que é feita há um século para meningite tuberculosa e tuberculose miliar, agressivas demais em crianças. Rebecca Harris, da Escola de Saúde e Medicina Tropical de Londres, está estudando, a partir de modelos matemáticos, o impacto dessa imunização ao nascer, com seis semanas, aos seis meses e com um ano de vida, na mortalidade infantil global em diferentes cenários. Os primeiros resultados sugerem que se deve manter a recomendação atual de vacinar recém-nascidos, e tomar medidas para melhorar a disseminação para reduzir os atrasos (e assim os recém-nascidos receberem realmente proteção), o que poderia evitar entre 5.000 e 30.000 mortes por ano.

4. Melhorar as estratégias...

Para além das novidades científicas, levando-se em conta que a tuberculose tem diagnóstico e tratamento efetivo na grande maioria dos casos (exceto em alguns nos quais a bactéria adquire resistência aos fármacos), é crucial usar esses recursos de forma adequada. Um número especial da revista Health Planning and Policy revisou o estado da doença no Sudeste Asiático. O editor convidado dessa série de artigos, Mishal Khan, da Escola de Saúde e Medicina Tropical de Londres, no Reino Unido, assegurou que a evidência demonstra cada vez mais que a resolução de problemas se deve definir localmente, levando em conta as características de cada comunidade.

5. .... e o financiamento

E falta dinheiro para levar diagnóstico e tratamento para quem precisa. Como destaca Paula Fujiwara (The Union), não será possível melhorar esses números de queda da tuberculose em torno de 1,5% anual para 10% ou 15% se não for seguido o Plano Global contra a Tuberculose, que estima necessários 65.000 milhões de dólares daqui a 2020 para prevenir 45 milhões de novas infecções, implementar 29 milhões de tratamentos e salvar 10 milhões de vidas. A cifra de 65 bilhões parece muito dinheiro, mas não investi-los, segundo o documento, custará oito vezes mais.