FOTOGRAFIA

Wim Wenders: quando as fotografias eram objetos

Durante anos utilizou a câmera Polaroid para registrar suas vivências. Hoje uma exposição e um livro lembram com nostalgia deste ícone da história da fotografia

Valley of the Gods, Utah, 1977
Valley of the Gods, Utah, 1977WIM WENDERS/ CORTESÍA WIM WENDERS FOUNDATION

Tirar fotos com uma Polaroid era simplesmente divertido para Wim Wenders (Düsseldorf, 1945); um ato original e despreocupado que praticava de forma constante. Desde os últimos anos dos sessenta até o começo dos oitenta, as volumosas câmeras se tornaram seu instrumento fotográfico preferido. Por aquela época estava aprendendo as minúcias do ofício do cinema, e essas imagens captadas de modo intuitivo chegaram a ser uma ferramenta complementar para sua aprendizagem, algo como um diário visual. Sem nenhum propósito específico, representavam “uma forma rápida de tentar ‘enquadrar’ o mundo para verificar o interesse pelas pessoas, os lugares ou os objetos, ou simplesmente recordar coisas”, tal como lembra o célebre diretor de cinema no livro Wim Wenders: Instant Stories, uma biografia ilustrada que compila 403 imagens acompanhando 36 histórias narradas pelo próprio autor. A publicação do livro coincide com uma exposição na The Photographers' Gallery, de Londres, Instant Stories, Wim Wenders´s Polaroids, que inclui 200 imagens desta série de fotografias.

As polaroids de Wenders capturam o mundo externo ao artista, bem como seu mundo interior e íntimo. A paixão pela fotografia ele herdou do pai e, embora nunca tivesse se considerado um fotógrafo, praticou-a em paralelo à trajetória cinematográfica, de modo totalmente independente. Ambas possuem um denominador comum: ‘o caminho’ como metáfora da existência do homem. Instant Stories é em certo sentido um ‘road movie’, um périplo que percorre as vivências, as inquietações, as amizades, as viagens e os filmes do artista, onde fotografar e viver seguem estreitamente unidos, influindo um ao outro.

Autorretrato, 1975.
Autorretrato, 1975.WIM WENDERS / CORTESÍA DEUTSCHES FILMINSTITUT FRANKFURT A.M.

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“Imprimir de um negativo não era o mesmo”, escreve o autor com nostalgia. “Olhar para uma imagem em uma tela não é o mesmo. Não há nada que se compare à experiência da Polaroid. Era um pequeno ato de magia... O milagre estava em sua notável singularidade. E na objetividade que sugeriam, sem falar de uma sensação de veracidade.”

“Faz muito mais sentido viver no tempo presente”, diz a letra de Presente Tense, da Pearl Jam, com a qual encerra o livro. No entanto, Wenders nos submerge em uma viagem nostálgica que começa com sua pequena homenagem às quase já desaparecidas cabines para fotos automáticas. Segue-se uma série de retratos de um amigo, o também cineasta e escritor Peter Handke, com quem começou sua trajetória cinematográfica (a adaptação do romance O Medo do Goleiro diante do Pênalti, de Handke, foi seu segundo longa-metragem). O conjunto de imagens é uma janela para o passado, “uma saudável recordação de como eram as coisas e do que perdemos. Entender que perdemos algo não é necessariamente nostálgico. Poderia ser trágico”, afirmou recentemente o artista ao crítico Sean O´Hagan em The Guardian.

Nova York, 1972
Nova York, 1972WIM WENDERS/ CORTESÍA WIM WENDERS FOUNDATION

As polaroids destilam um ar de inocência, de aventura e de placidez. Elas nos conduzem pela primeira viagem do autor a Nova York, onde presta homenagem a Warhol fotografando as latas Campbell. Levam-nos ao Monumental Valley, muito distante da atração turística em que se converteu –onde os lugares para tirar fotos já estão delimitados. E nos trasladam para a filmagem de A Letra Escarlate na Galícia. Um dos momentos mais tocantes é o relato em que uma estranha em um bar, notando a solidão do estrangeiro alemão, lhe passa um papel com seu número de telefone. A estranha era Annie Leibovitz, com quem faria uma viagem até Los Angeles. Wenders fotografa aquelas máquinas de escrever “que nunca o deixaram na mão” nas noites em que reescrevia as cenas das filmagens. E as imagens dos filmes emitidas através das telas da televisão, em um momento em que não existia o vídeo, como aquelas em que capta Dennis Hopper em Rebelde sem Causa, que mais tarde encarnará Tom Ripley sob sua direção em O Amigo Americano. Viaja para Nova York no dia em que assassinaram Lennon: “Quando lá cheguei, era parte de uma silenciosa reunião de milhares de pessoas. Era um ato de trauma coletivo”, escreve o artista. “Todos tínhamos perdido algo essencial que pensávamos não poderia acabar tão cedo. Para mim significava minha infância, minha juventude”.

Passaram-se 30 anos desde que o artista tirou sua última polaroid. “Vivemos em um universo distinto, para o bem e para o mal”, destaca. “O mundo que então fora objeto de curiosidade e nostalgia é agora algo secundário, ao qual se pode dar as costas. Em seu lugar o ego passou a ser a principal atração”. Para além da nostalgia, o autor se pergunta sobre o “tsunami cultural” ao qual a era digital nos arrasta por meio das redes sociais, onde o ego que simboliza o indivíduo independente, seguro e satisfeito consigo mesmo se defronta com o selfie, “frequentemente vazio, inseguro e isolado”. “A arte de olhar mudou”, se queixa o cineasta. “Podemos ainda simplesmente ter a felicidade de olhar algo em paz, sem tirar uma foto ou fazer um vídeo?”, se pergunta.

Dennis Hopper, 1976
Dennis Hopper, 1976WIM WENDERS/ CORTESÍA WIM WENDERS FOUNDATION

“Me alegra que estas polaroids me (lhes) lembrem como nos divertimos quando as fotografias existiam como ‘objetos’, únicos”, escreve o artista. “Podiam ser passadas de mão em mão, de um para o outro, uma a uma, singulares e inigualáveis. Quando todos conhecíamos nossos amigos porque realmente estavam lá.” As coisas continuarão sendo coisas enquanto os dados são só dados. “Não são nada a não ser que possam ser lidos. E ainda assim são evanescentes, frágeis, corruptíveis, frios, feios no verdadeiro sentido da palavra.”

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