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Fim da hegemonia

Manifestação de Barcelona pulveriza o relato do independentismo

Vista da manifestação convocada em Barcelona por Societat Civil Catalana.
Vista da manifestação convocada em Barcelona por Societat Civil Catalana.MARTA PÉREZ (EFE)

O argumento que o movimento de independência da Catalunha tem usado com mais insistência sofreu uma derrota sem paliativos no domingo. A falsidade da ideia de que há um único povo unido por trás da sua causa e que, portanto, tem toda a legitimidade para forçar uma separação unilateral, ficou bastante evidente. A sociedade catalã é muito mais plural do que o nacionalismo repetiu sem descanso nos últimos anos. Ninguém pode discutir a capacidade de mobilização dos independentistas, e ninguém discute que há uma parte importante dos catalães que reivindicam outra relação com a Espanha. O que, a partir deste domingo também é indiscutível, é que existe uma imensa quantidade de catalães que rejeita o chamado para se desconectar da Espanha. As forças independentistas tinham se esforçado para que fosse a rua que desse legitimidade à mentira parlamentar orquestrada com as leis do referendo e transitoriedade, e foi a rua que lhes disse neste domingo em Barcelona que assim não, que não querem um processo que significa destruir o Estatuto e a Constituição.

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A grande novidade do que aconteceu no domingo é que uma maioria até agora silenciosa finalmente decidiu mostrar sua voz. É preciso destacar: suas vozes, visíveis através da bandeira catalã ou das da Europa e da Espanha. Até mesmo vozes contraditórias dentro de sua pluralidade, como ficou evidente quando Josep Borrell pediu em seu discurso que não cantassem pedindo a prisão de Puigdemont. Não, disse corretamente o político socialista, nesse assunto são os tribunais que devem se manifestar, nunca a rua.

A observação também pode ser lida como uma pertinente chamada de atenção para as regras mais elementares da democracia. Onde elas realmente funcionam, nunca é a rua – como quiseram alguns movimentos populistas – que dita os caminhos de um país. As democracias garantem a pluralidade e o equilíbrio de poderes. Portanto, desde que o processo separatista se voltou descaradamente para o lado populista e o Governo regional se atribuiu a suposta tarefa entregue por um “povo unido” para promover a independência, sua legitimidade foi posta em dúvida. A rua se manifesta, como no domingo, para defender a democracia constitucional, e os políticos têm o dever de ouvi-la. Mas a rua nunca pode impor nada, exceto em locais onde uma insurreição poderia ser justificada porque não há democracia.

O Govern ouviu da rua o que não quis ouvir no Parlament: que não há um povo único que quer a independência e que a Catalunha é plural, e terá que dar uma resposta. Há aqueles, em sua bolha, que já negaram o que foi expresso na manifestação pelo fato do conservador Partido Popular ter participado e por ter havido bandeiras espanholas. Essa seria uma das várias leituras equivocadas. Porque na democracia, como na Catalunha, cabem todos.

Durante décadas, o nacionalismo catalão construiu um monopólio ideológico e asfixiou a pluralidade da sociedade. No domingo, essa hegemonia, baseada no controle da rua, das instituições políticas e da sociedade civil, entrou em colapso estrepitosamente. O independentismo, já fora da legalidade, agora perdeu também a legitimidade.