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‘Blade Runner 2049’ e seus replicantes de última geração

Analisamos, sem ‘spoilers’ a continuação da obra-prima de Ridley Scott, que estreia em 5 de outubro

Nesta quinta-feira, 5 de outubro, estreia Blade Runner 2049, a continuação – 35 anos após a filmagem e 30 anos depois na história narrada na tela – da obra-prima de Ridley Scott inspirada no livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick. O novo roteiro não se baseia em continuações literárias – muitos esquecem que o romance original teve três sequências escritas por Kevin Wayne Jeter. Na verdade, o roteirista Hampton Fancher (veterano de 79 anos e autor da primeira parte) e Michael Green (colaborador de Ridley Scott em Alien: Covenant), com a supervisão de Scott, bebem do filme original para uma continuação completamente consistente com o narrado em 1982.

Em qual das versões de Blade Runner se encaixa Blade Runner 2049? Ryan Gosling deixou claro em Madri: “A história da versão do diretor continua”. Blade Runner teve várias revisões ao longo do tempo, e entre elas está a que Scott defende como a mais próxima de suas ambições iniciais. Na verdade, nesse final cut (do qual nesta quinta-feira comemoram-se 10 anos da estreia) existem vários elementos-chave deste novo filme.

Harrison Ford, a lenda. Blade Runner 2049 poderia proporcionar vários Oscars a seus criadores. O primeiro, o mais óbvio, é o de Harrison Ford como melhor ator coadjuvante. Ford – mais do que grande ator, ícone do cinema – só foi indicado uma vez ao prêmio de Hollywood. Foi em 1986, com A Testemunha. Com certeza, qualquer um pode imaginar todo o teatro Dolby de pé em março do ano que vem homenageando o ator, enquanto este comemora com a estatueta na mão. Outro criador digno do prêmio é o diretor de fotografia Roger Deakins, que foi 12 vezes (nada fácil) indicado à estatueta por seu trabalho com Sam Mendes, os irmãos Coen, Frank Darabont e com o próprio Denis Villeneuve. Nunca ganhou: é o seu momento.

Quem é mais humano, um replicante ou um ser humano? Era uma das questões sobre as quais Blade Runner se baseou. Nesta sequência, não há dúvida: os ciborgues têm mais sentimentos. O blade runner K, também conhecido como Joe (Ryan Gosling), é um replicante cercado por replicantes. A seu lado, os humanos parecem monstros. “O que nos faz humanos é morrer por uma causa”, diz no filme uma replicante encarnada, aliás, por uma atriz estrela do cinema de autor. Por sinal, Joe K, como o protagonista de O Processo, de Kafka.

O início há um quarto de século. Blade Runner tinha um início no qual Rick Deckard se aproximava de uma cabana solitária junto a uma árvore morta e enfrentava um agricultor replicante. A sequência até apareceu no storyboard, mas nunca foi filmada; há alguns anos, Scott revelou que a havia recuperado para este novo roteiro. Efetivamente, substituindo Deckard por K, é como começa Blade Runner 2049.

Falta de comunicação. Embora o abismo da solidão já emergisse na versão original, nesta continuação há ainda menos personagens e mais falta de comunicação. “Os blade runners agora são párias e fazem um trabalho que ninguém quer enfrentar. Meu personagem tem uma existência solitária, sem conexões humanas. E neste início do filme explora suas emoções para tentar ser algo mais do que seu trabalho”, dizia Gosling em Madri. Como o primeiro, este BR 2049 indaga na imagem hiperssexualizada da mulher, o que significa pertencer ou não a um grupo, a falta de empatia... A Terra e a humanidade sofreram terríveis transformações... e o curioso é que, terminado o filme, sentimos que estamos falando dos tempos atuais. Muito perturbador.

Denis Villeneuve. O diretor canadense sai revalorizado do desafio porque arrasa com seu desempenho. No fundo, há menos poesia e mais crítica social do que no primeiro, mas, na forma, Villeneuve tira o fôlego. Agora, está muito preso ao original, não alça seu próprio voo. E isso vem do roteiro.

É uma obra-prima como a original? Não, mas é um bom filme. E o espectador assistiria outras três horas, porque hipnotiza.

Momentos míticos. Há um diretamente relacionado ao monólogo de Rutger Hauer, agora interpretado por Gosling, embora sem palavras. E outra sequência fascinante é enfrentada por Gosling e Ford cercados em um bar de hologramas de estrelas do século XX. Desconcertante.

Além de Deckard, mais alguém repete da primeira parte? Deckard é um replicante? Ahhh...

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