Jornalismo

BBC contrata segurança para jornalista assediada na Internet

Redatora-chefe de Política, Laura Kuenssberg, é alvo habitual de ataques nas redes sociais

Laura Kuenssberg, em 2011
Laura Kuenssberg, em 2011PA

A BBC contratou um guarda-costas para que sua redatora-chefe de política possa cobrir a edição deste ano do congresso anual do Partido Trabalhista, realizada em Brighton. Laura Kuenssberg, de 40 anos, a primeira mulher que ocupa esse cargo na corporação pública, é alvo habitual de abusos nas redes sociais e nos sites ligados ao líder trabalhista, Jeremy Corbyn, por seu suposto viés contra a guinada à esquerda empreendida pela formação opositora sob o comando do veterano socialista.

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Certo é que Kuenssberg também sofreu assédio por parte de seguidores de outros partidos, incluindo o populista e antieuropeu UKIP. O presidente da BBC, David Clementi, pediu aos políticos e às empresas de redes sociais que tomem medidas contra o crescente abuso “explícito e agressivo” sofrido pelos repórteres do canal. Referiu-se às vaias em entrevistas coletivas e às ameaças nas redes, dizendo que são as jornalistas mulheres as que mais sofrem abusos “diariamente”.

Kuenssberg recebeu nos últimos dias o apoio de destacadas mulheres do Partido Trabalhista. Entre elas, Diane Abbott, porta-voz do Ministério do Interior na oposição e fiel aliada de Corbyn. Abbott também sofreu numerosos ataques sexistas durante a última campanha eleitoral e pediu aos simpatizantes trabalhistas que não permitam essas práticas. “Não façam isso, simplesmente não façam”, disse. “É preciso fazer uma defesa positiva de Corbyn online, vamos fazê-la. Não devemos atacar as outras pessoas. Laura está fazendo seu trabalho. Pode ser que eu nem sempre goste de como faz seu trabalho, mas é seu trabalho. Por que deve sofrer esse nível de abuso simplesmente por ser uma mulher jornalista?”

Yvette Cooper, ex-ministra do Governo de Gordon Brown e integrante do setor mais centrista do partido, disse estar com “nojo das fortes críticas lançadas de todos os lados contra Laura Kuenssberg”. “Fazer perguntas difíceis é seu trabalho. Seu trabalho é ser cética sobre tudo o que dizemos. Nada justifica esses ataques pessoais nem a misoginia”, afirmou.

Kuenssberg já foi vaiada por seguidores de Corbyn em alguns eventos da campanha das eleições de junho passado. Em maio de 2016, um pedido online feito à BBC para que demitisse a jornalista, acusando-a de viés antitrabalhista, obteve 35.000 assinaturas. A petição foi logo eliminada quando os promotores perceberam que havia se transformado num veículo para o “abuso sexista”.

A BBC pede medidas contra o crescente abuso “explícito e agressivo” sofrido por seus jornalistas

A BBC declarou que não faz comentários relacionados com a segurança de seus funcionários. Mas Kuenssberg foi vista nos últimos dias em Brighton acompanhada por um homem identificado pelo The Times como um especialista em segurança de jornalistas.

Não faltaram chacotas nas redes sociais sobre a decisão da BBC, atacando a vítima e não os autores dos assédios. Mas ela não é a primeira mulher que se vê obrigada a recorrer à segurança pessoal devido aos ataques que sofre na Internet. Gina Miller, ativista que levou o Governo de Theresa May à Justiça por sua intenção de não submeter a ativação do Brexit ao Parlamento – e ganhou – também precisou contratar guarda-costas depois dos virulentos ataques pessoais que recebia.

A intimidação de jornalistas por realizar seu trabalho, associada geralmente a regimes totalitários, tem sido um fenômeno frequente nos atos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Também na Espanha, no calor do processo independentista da Catalunha, jornalistas como Jordi Évole têm sofrido violentos ataques nas redes sociais por seu trabalho.

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