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“O acidente ia acontecer. A gente só não sabia quando nem a proporção”

Usuários que dependem do serviço de travessia Salvador-Itaparica questionam segurança de barcos

Parentes e amigos no enterro de Rita Santos, uma das vítimas do naufrágio em Salvador.
Parentes e amigos no enterro de Rita Santos, uma das vítimas do naufrágio em Salvador. REUTERS

A administradora Taís Medeiros, de 27 anos, saiu de casa muito cedo na última quinta-feira em Misericórdia, na Ilha de Itaparica, rumo a Salvador. Às 6h30, ela subiu na lancha Cavalo Marinho I com o filho, Lucas, de 2 anos, que tinha consulta marcada com o pediatra na capital. Dez minutos depois veio a tragédia. Os dois não sobreviveram ao naufrágio da embarcação, tida com a mais insegura e menos confortável da travessia. No cais, 13 pessoas haviam desistido da viagem só por saber que se tratava da lancha em questão, mas Taís não teve medo.


“Quem tinha medo da travessia era eu”, contou, emocionado, o pai de Taís, o autônomo Sérgio Lúcio Salles Neto, 47. Como ele mora em Salvador, sempre que a filha vinha à cidade, era avisado. Dessa vez, soube da tragédia pelos noticiários. “O pessoal de lá está acostumado, mas não é normal. Eu fiz a travessia só duas vezes e fiquei horrorizado. Era precário mesmo. Sempre falava para ela vir pelo ferry-boat”, disse, entre lágrimas, enquanto esperava a liberação do corpo da filha e do neto no Instituto Médico Legal, em Salvador.


O naufrágio em águas baianas expôs problemas que vão desde a fiscalização das embarcações até a falta de qualidade dos equipamentos. Um inquérito policial militar foi instaurado pela Marinha para determinar as causas do acidente enquanto o Ministério Público Estadual da Bahia criou uma força-tarefa para investigar até mesmo a qualidade da monitoramento das embarcações que transportam cerca de 5.000 pessoas por dia na travessia entre a capital baiana e Mar Grande, no município de Vera Cruz, na Ilha de Itaparica.

 

“Era uma lancha muito, muito velha. Já cansei de ver gente desistindo de ir nela. Eu tinha medo, mas nunca desisti. A gente que pega todo dia acaba se acostumando”, conta a estudante Vitória Gonçalves, 22 anos. Há três anos, a jovem usa o sistema todos os dias para vir a Salvador, onde estuda Produção Cultural na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Na quinta, dia do acidente, chegou atrasada. Pegaria a lancha das 7h - que sairia meia hora depois da Cavalo Marinho I.

 

Apesar do medo, ela preferia usar ‘as lanchinhas’ do que o ferry-boat por dois motivos: o valor e o tempo. Embora a passagem dos ferries seja mais barata (R$ 4,80 de segunda-feira a sábado contra R$ 5,30 nas lanchas), o transporte até o terminal Bom Despacho, de onde saem as grandes embarcações, acrescentaria R$ 8 aos gastos diários de Vitória. As lanchas são mais rápidas - a viagem é concluída entre 40 e 45 minutos, contra pouco mais de uma hora no ferry-boat. “Mas agora não vou mais usar. Só tenho mais uma semana de aula até o fim do semestre e vou usar o ferry-boat. No próximo semestre não sei o que vou fazer”. No dia do naufrágio, Vitória ficou esperando no terminal por mais de uma hora - diziam que a lancha que faria o transporte das 7h tinha ido socorrer um barco de pescadores.


Só que não havia pescadores. Era a Cavalo Marinho I. “Depois, disseram que fecharam o terminal pelo mau tempo. Só quando cheguei na praça fui saber, porque começaram a chegar pessoas desesperadas. Eu só pensava na minha filha de três anos, porque poderia ter sido qualquer horário. Na quarta, minha irmã tinha ido na Cavalo Marinho I. Na semana passada, eu fui. Isso ia acontecer de qualquer forma. A gente só não sabia quando, nem qual seria a proporção”, diz a estudante.

 

“A lanchinha, como nos referimos, sempre foi um serviço querido pela população. Em 60 anos, nunca houve nenhuma falha”, rebate em entrevista ao EL PAÍS Eduardo Pêssoa, diretor-executivo da Agerba (Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transportes e Comunicações da Bahia), um dos responsáveis pela fiscalização além da Marinha. Ele diz que, na ouvidoria do órgão, reclamações sobre o serviço de travessia não são frequentes.

 

De fato, há muita gente que não esconde a preferência pelas lanchas. Na manhã desta sexta-feira, a auxiliar administrativa Sonildes Teixeira, 68, foi o terminal marítimo somente para saber quando as lanchas vão retornar. Ficou mais tranquila quando soube que a previsão é que isso aconteça na segunda-feira. Funcionária de uma maternidade em Salvador, ela faz o percurso diariamente para trabalhar. “Nunca tive medo da travessia e continuo não tendo. A lancha é 100% melhor que o ferry-boat. Moro na ilha há 18 anos e nunca aconteceu nada, mesmo já tendo pegado ventania bem pior do que essa que teve. A gente só morre na hora certa”.


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