Atentados terroristas em Barcelona e Cambrils

Polícia espanhola mata suspeito de atentado em Barcelona

O jovem de 22 anos usava um cinto explosivo e gritou "Alá é grande" quando foi abordado

Agentes de segurança no local onde Younes Abouyaaqoub foi morto
Agentes de segurança no local onde Younes Abouyaaqoub foi morto Lluis Gene (AFP)

O autor do maior atentado terrorista na Espanha desde os de 11 de Março de 2004 está morto. Os Mossos d’Esquadra (polícia regional catalã) abateram nesta segunda-feira, em uma região de vinhedos de Subirats (a 50 quilômetros de Barcelona), Younes Abouyaaqoub, de 22 anos. Abouyaaqoub se transformara no homem mais procurado desde que na quinta-feira à tarde irrompeu em La Rambla com uma van branca e atropelou dezenas de pessoas. Deixou 13 mortos e 88 feridos. Na fuga, que se prolongou por quatro dias, apunhalou e matou um homem para lhe roubar o carro. O chamado à população para ajudar na busca, feito ontem, funcionou e os Mossos localizaram Abouyaaqoub. Portava um falso cinturão de explosivos. “Allahu akbar” (“Alá é grande!”) gritou, antes de ser atingido pelos disparos da polícia.

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Os Mossos confirmaram por volta do meio-dia, de modo oficial, o que já suspeitavam havia dois dias: que Younes Abouyaaqooub era o condutor e único ocupante da van que atropelou em La Rambla na quinta-feira. A polícia da região autônoma divulgou nesta segunda-feira várias de suas fotografias a órgãos policiais de toda a Europa e também à população, à qual pediu colaboração. “Toda informação de que possam dispor, não só onde ele está agora, mas também sobre seu passado, deve ser comunicada”, pediu o delegado Josep Lluís Trapero, principal autoridade policial catalã. Trapero lembrou que, ao contrário das fotos, Abouyaaqoub — moreno, cabelo curto, 1,80 de estatura — “poderia estar com barba de alguns dias”.

Não havia passado nem três horas quando os alertas foram ativados. Por volta das 15h30, os Mossos começaram a receber mensagens de que o suspeito tinha sido visto. Uma delas alertava que a pessoa estava vestida com uma camiseta azul e calças vermelhas, usava óculos de sol e levava uma garrafa d’água. Outro morador avisou que um jovem de aparência magrebina se aproximara de um grupo de casas isoladas que há na região e havia assobiado. De repente, ele se viu surpreendido por alguém que não esperava e saiu correndo, segundo seu relato. A descrição se encaixava com a de Abouyaaqoub: um jovem de uns 20 anos, com camiseta azul que seguia na direção de Vilafranca, atravessando os vinhedos.

Os Mossos ativaram diversas unidades e localizaram Abouyaaqoub perto de uma região de vinhedos. O jovem levava um jaleco de explosivos, tal como tinham feito também seus companheiros de célula terrorista em Cambrils (Tarragona) pouco antes de serem abatidos. O mesmo destino esperava Abouyaaqoub. O rapaz começou a se aproximar da patrulha policial com o grito habitual dos que estão dispostos a morrer como mártires: “¡Allahu akbar!” (“Alá é grande!”). A uma distância de entre 10 e 15 metros, efetuaram vários disparos.

A incerteza sobre a identidade do homem abatido se manteve durante duas horas. Depois de levar os tiros, Abouyaaqoub ficou estendido com a boca para baixo. Dois rapazes explicaram que, da piscina da casa de campo em que se encontravam, escutaram uma dúzia de disparos. Tal como determinam os protocolos, os Mossos acionaram os Tedax (especialistas em desativação de explosivos), que utilizaram robôs para se aproximarem do cadáver e realizar as comprovações necessárias. Às 18h20, os Mossos confirmaram que acabavam de matar o autor do ataque terrorista de Barcelona. A morte do jihadista de Ripol não representa o encerramento da investigação sobre a célula terrorista, mas a solução ao problema mais premente.

El Penedès e seus vinhedos foi o ponto final de uma fuga que começou na quinta-feira às 16h53. Abouyaaqoub abandonou a van branca com que havia percorrido 500 metros desde a cabeceira de La Rambla até o teatro del Liceu. O veículo ficou parado sobre o mosaico de Joan Miró e o jovem iniciou a fuga a pé. Algumas testemunhas afirmam que houve um esforço para detê-lo, mas que o caos e a necessidade de atender às vítimas do atropelamento pesaram mais.

Escapada pela Boqueria

Em quatro dias de investigação, os Mossos reconstituíram (em parte) a rota seguida pelo terrorista na fuga. Em um ritmo tranquilo, ele entrou no emblemático mercado de La Boqueria. Dali, enveredou pelas ruas até a zona alta de Barcelona. Fez isso caminhando, embora “em alguns fotogramas também seja visto correndo”, explicou o chefe dos Mossos, que analisaram todas as imagens das câmeras de vigilância. Em meio ao caos provocado pelo atropelamento em massa, em uma cidade mergulhada no medo, Abouyaaqoub conseguiu caminhar mais de cinco quilômetros para chegar à avenida Diagonal. E especificamente, até a Zoina Universitária, que abriga a sede de várias faculdades.

Um punhal na fuga

Às 18h10, os Mossos situam Abouyaaqoub em um estacionamento utilizado pelos estudantes da Zona Universitária, a apenas 100 metros do Camp Nou. “É onde se encontra fatidicamente com o cidadão Pau Pérez, que estava estacionando seu veículo. Ele o apunhala já nesse momento. Coloca-o na parte posterior do veículo e inicia a saída de Barcelona”, relatou o delegado Trapero.

Pérez se tornou assim o 15º morto dos atentados de Barcelona e Cambrils, este último frustrado parcialmente pela polícia, que abateu cinco terroristas que pretendiam atropelar e esfaquear pessoas no passeio marítimo dessa localidade de Tarragona. Pérez, que tinha sido voluntário em diversas ONGs e era um apaixonado por futebol, trabalhava em uma empresa do setor vinícola em Barcelona. Regressava a Vilafranca em seu Ford Focus quando Abouyaaqoub abriu a porta do veículo e o apunhalou até causar-lhe a morte, com uma faca de tamanho grande. Os Mossos alertaram nesta segunda-feira para a periculosidade do terrorista, precisamente porque poderia estar armado.

O jovem terrorista utilizou o Focus para abandonar Barcelona. Eram 18h30. Os Mossos haviam ativado a operação Gàbia para tentar prender o autor de atropelamento, que naquela altura já era vinculado com um atentado terrorista de tipo islamista – tese que se confirmou mais tarde, quando o Estado Islâmico se atribuiu a autoria do ataque. Uma patrulha dos Mossos estava já posicionada na avenida Diagonal. Ao vê-la, Abouyaaqoub pisou no acelerador e investiu contra uma agente da corporação, que sofreu uma fratura do fêmur. Seu companheiro disparou contra o veículo, mas se manteve ao lado da policial.

O terrorista seguiu seu trajeto por cerca de 20 minutos mais, até chegar à vizinha localidade de Sant Just Desvern. Ali, por motivos que se desconhece, abandonou o carro com Pérez dentro. Os Mossos viram um homem completamente imóvel no interior de um veículo e, por precaução, alertaram os Tedax. Pensaram que era o condutor e que tinha falecido pelos disparos do policial no controle de segurança. Mas, não. Pérez tinha morrido esfaqueado e Abouyaaqoub havia sido seu carrasco.

“O último movimento é em Sant Just Desvern, e ali, às 19 horas, o perdemos de vista”, explicou Trapero por volta do meio-dia, apenas três horas antes da localização do terrorista mais procurado. Younes Abouyaaqoub nasceu há 22 anos na localidade marroquina de Mrirt. Chegou à Espanha ainda criança e viveu normalmente em Ripoli até que começou seu processo de radicalização por intermédio do imã local. Morreu como seu irmão, Houssaine, abatido em Cambrils.