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Assim é o imã de Ripoll, suposto cérebro dos ataques em Barcelona e Cambrils

Nasceu no Marrocos, dava aula de árabe para menores, era muito reservado e deixou de predicar meses atrás

De forma misteriosa, o imã de Ripoll sumiu da pequena localidade do interior de Girona no início de junho, justo quando os membros da célula responsável pelos ataques terroristas em Barcelona e Cambrils ocuparam o chalé abandonado em Alcanar, ao sul da Catalunha. Uma das hipóteses dos Mossos d’Esquadra (polícia regional catalã) é que seu corpo seja um dos que foram encontrados nos escombros dessa mesma residência, que explodiu. Os terroristas armazenavam ali botijões de gás e explosivos como o triperóxido de triacetona (TATP), mais conhecido como a “mãe de Satã” e habitualmente mencionado entre os fóruns jihadistas.

Mezquita de Ripoll
Púlpito de uma das mesquitas de Ripoll onde pregava Abdelbaki. REUTERS

O imã se chama Abdelbaki Es Satty e, segundo fontes policiais, teria 40 anos. Os moradores consultados pelo EL PAÍS o retratam como uma pessoa muito reservada, alguém que fazia grande esforço para não se destacar. Não se integrou à comunidade muçulmana de Ripoll, uma localidade rural de 10.000 habitantes onde todo mundo conhece todo mundo e onde há cerca de 500 pessoas oriundas do Magreb. Na verdade, “todo mundo” exceto Es Satty, sobre quem as pessoas praticamente só recordam que dava aula de árabe, em dialeto marroquino, às crianças. Nunca em suas prédicas deixou entrever que sua versão do islã fosse salafista ou radical.

Os policiais estiveram nesta manhã em sua casa em Ripoll procurando mostras de DNA e outras provas. Trata-se de um apartamento modesto num imóvel da rua Sant Pere, onde ele havia alugado um quarto a outro cidadão marroquino. Na sala, encontraram um colchão com os lençóis colocados no chão, ao lado de um sofá de cinco lugares e um televisor. Perto do aparelho, encontraram um pequeno Corão. Pendurado sobre o sofá, um calendário de abril de 2013 com uma sura do Corão e a foto de uma mesquita.

Imagem do apartamento de Abdelbaki Es Satty em Ripoll.
Imagem do apartamento de Abdelbaki Es Satty em Ripoll. AP

Seu inquilino disse aos policiais que havia falado com o imã pela última vez na terça. E que ele havia dito que pensava em voltar ao Marrocos, onde havia deixado vários filhos.

Abdelbaki exercia o cargo de imã em Ripoll desde 2015. Primeiro trabalhou numa mesquita antiga, que deixou quando ela ficou pequena e já não oferecia espaço suficiente para suas aulas de árabe. Depois, uma parte da comunidade muçulmana abriu um novo templo, maior, graças a contribuições dos fiéis. Ele foi então chamado para exercer sua atividade. As duas mesquitas ficam na mesma rua, separadas por alguns metros.

Parede no apartamento do ímã.
Parede no apartamento do ímã. REUTERS

Justamente de Ripoll são vários dos jovens suspeitos identificados pelas forças de segurança: os irmãos Driss e Moussa Oukabirm, Mohammed Hychami e Younes Abouyaaqoub, tido como o autor do atropelamento e que se encontra foragido. Da localidade de Ribes de Fresner, a 13 quilômetros de Ripoll, era Said Aallaa, outro suposto integrante da célula.

Alguns moradores informaram ao EL PAÍS, que, quando deixou Ripoll há dois meses, o imã disse a alguns conhecidos que desejava se mudar para a Bélgica, um dos centros de maior exportação de radicais de segunda geração ao conflito da Síria e alvo de ataques terroristas nos últimos anos. Não era novidade. O imã dizia com frequência que gostava de viajar à Bélgica, sem dar mais detalhes do motivo.

Vários moradores consultados pelo EL PAÍS explicam que ficaram surpresos com sua ausência repentina da localidade há dois meses e meio. Foi tudo muito rápido. A comunidade pensava que ele tinha ido embora para a Bélgica ou voltado para o Marrocos. No entanto, segundo fontes da investigação, ele teria ido a Alcanar, à propriedade em que o grupo de terroristas preparou os atentados da Rambla de Barcelona e de Cambrils. Só existe uma certeza: havia meses que ele não exercia o cargo de imã, e vários fiéis se alternavam nas orações de sexta-feira.

Segundo a polícia, a preparação dos atentados começou alguns meses atrás. O grupo pretendia cometer um grande ataque com explosivos em Barcelona, instigado supostamente pelo imã. Mas a explosão fortuita da noite de quarta passada em Alcanar, base logística da célula, obrigou-os a mudar de plano. Os investigadores suspeitam que um dos corpos achados na residência de Alcanar é o do imã de Ripoll. Se de fato for, os jovens perderam o material explosivo e o mentor que dava impulso às suas ações. Por isso saíram para as ruas com vans com a intenção de matar.

Com informação de Jordi P. Colomé, Marta Rodríguez e Jesús García.

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