Igreja Luterana

Martinho Lutero como a escola nunca ensinou: antilatino e antissemita

Celebrações do 5º centenário do cisma luterano evitam aspectos obscuros do legado de Lutero. O manto religioso encobre um conflito político e nacionalista

Instalação do artista alemão Ottmar Hörl feita com 800 imagens de Martinho Lutero e exposta na cidade alemã de Wittenberg em agosto de 2010.
Instalação do artista alemão Ottmar Hörl feita com 800 imagens de Martinho Lutero e exposta na cidade alemã de Wittenberg em agosto de 2010.PETER ENDIG (AFP / Getty Images)

O gesto descrito às portas da igreja de Wittenberg é a representação mítica e ritual do significado de Martinho Lutero para o chamado Sacro Império Romano-Germânico. Há muito se duvida que ele tenha mesmo pregado suas teses; as menções ao ato desafiador aparecem muito depois, conforme se vai adornando e mitificando a personagem Lutero e o cisma que ele trouxe consigo. Mas, se non è vero, è ben trovato (ainda que não seja verdade, é bem possível). Seria muito menos heroico mandar o texto de protesto pelo correio – que é o que provavelmente aconteceu – ao bispo de Mogúncia (Mainz). O gesto simbólico conserva hoje toda sua aura teatral, mas era muito mais épico naquele tempo, porque o homem do século XVI sabia que essa era a maneira de divulgar os chamados cartazes de desafio, em que um cavalheiro insultava publicamente outro e o desafiava a um duelo. E era preciso responder, quem não o fazia ficava desonrado para sempre. Há, na figura de Lutero, um componente de heroísmo a posteriori muito interessante para compreender seu significado na história da Alemanha e também, não se surpreenda o leitor, na da Espanha.

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O cisma luterano é a manifestação de um problema político, mas o contexto religioso em que foi mantido turva completamente sua compreensão. Através dele se expressa o nacionalismo germânico primordial e, por isso, Martinho Lutero é celebrado e exaltado na Alemanha cada vez que esse nacionalismo ganha força. Desde a Segunda Guerra Mundial não se comemorava de maneira significativa nenhuma efeméride luterana. Em 1983 passou em branco na Alemanha Ocidental o quinto centenário do nascimento de Martinho Lutero, tão festejado nos tempos de Bismarck. Em 10 de novembro de 1883, por exemplo, o imperador Guilherme I liderou o desfile do quarto centenário de nascimento de Lutero em Eisleben.

Em Historia del año 1883 o intelectual e político espanhol Emilio Castelar escreve: “Os povos protestantes celebraram o quarto centenário de Lutero com júbilo universal” e ainda, embora “os católicos e os protestantes da Alemanha não tenham concordado em homenagear o religioso, concordaram em homenagear o patriota”. Mas o mais interessante é o expediente: “Nós, que não pertencemos à religião luterana nem à raça germânica, espanhóis e católicos de nascimento, podemos celebrar sem receio aquele que, iniciando as liberdades de pensamento e de exame, iniciou as revoluções modernas, por cuja virtude rompemos nossos grilhões de servos e proclamamos a universalidade da justiça e do direito”. Não precisamos, portanto, ir a Wittenberg para ler os textos que comentam a espetacular exposição. O que ali se conta é exatamente o mesmo que Castelar nos diz: Lutero, o pai da liberdade religiosa na Europa; Lutero, o herói por cujo esforço ímpar este continente se livrou das trevas e da escravidão. Castelar diz que “rompemos nossos grilhões”. A Lutero devemos nada menos que “a justiça e o direito”, porque é evidente que os espanhóis não tínhamos isso.

Lutero foi o grande protetor das oligarquias, o fiador religioso de um feudalismo tardio que manteve a Alemanha no atraso e na pobreza

E, claro, se Lutero rompe os grilhões é porque havia grilhões a romper e alguém os tinha colocado. Se traz a liberdade de pensamento é porque isso não existia, e quem impedia? Nem é preciso dizer com todas as letras, mas está aí, constantemente presente: o sombrio e sinistro Império espanhol e católico. Para que o herói Lutero exista é preciso haver um monstro que o antagonize. Sem monstro, não há herói. Quem visita Wittenberg ou qualquer das muitas exposições e celebrações na Alemanha hoje, mesmo sendo espanhol e católico – e especialmente se for espanhol e católico – não vê o cenário que torna possível o brilho germânico. Quando digo católico não quero dizer religioso. A fé é irrelevante neste contexto. Refiro-me a quem nasceu em um país de cultura católica. Porque esse fulgor germânico precisou, século após século, como condição sine qua non para sua exaltação, que o sul mediterrâneo fosse obscuro e atrasado, imoral e decadente, indolente e pouco confiável. Foi em tempos de Lutero que o adjetivo welsch – uma denominação geográfica pouco precisa para referir-se ao sul – passou a significar latino ou românico, e malvado e imoral ao mesmo tempo.

A “liberdade luterana” não resiste a um olhar próximo e livre de preconceitos. Começou provocando uma guerra espantosa que se chamou Guerra dos Camponeses e deixou mais de 100.000 mortos nos campos do Sacro Império. Porque os camponeses acreditaram de verdade naquelas exaltadas pregações da boca de Lutero e de outros que clamavam contra as riquezas acumuladas pelos poderosos da terra com Roma como fiadora de tais injustiças. Isso provocou uma convulsão social como nenhuma outra na Europa até a Revolução Francesa. Os príncipes alemães, cujo propósito era basicamente opor-se ao imperador, não pensaram que incentivar aquela efervescência antissistema (Carlos V e o catolicismo) poderia se voltar contra eles, mas tiveram que enfrentar uma revolta de proporções gigantescas. Alguns clérigos revolucionários como Müntzer, conhecido como o teólogo da revolução, mantiveram-se fiéis a seus princípios até o final e foram executados, mas Lutero decidiu sobreviver. Desde o início de 1525, depois da morte de Hutten e Sickingen, os dois líderes revolucionários que o tinham protegido, Lutero fica serviço dos príncipes alemães e incentiva a violência brutal com que os grandes senhores germânicos sufocaram as rebeliões campesinas: “Contra as hordas assassinas e saqueadoras molho minha pena em sangue, seus integrantes devem ser estrangulados, aniquilados, apunhalados, em segredo ou publicamente, como se matam os cães raivosos”.

A partir de então Lutero passa a ser o grande defensor das oligarquias senhoriais, o arrimo teológico de um feudalismo tardio que manteve a Alemanha em um estado de pobreza e atraso já superado na Espanha e na maior parte do sul. A estagnação dessas oligarquias pela via religiosa impediu a unificação da Alemanha e possibilitou uma sobrevivência anômala do sistema feudal nessa parte da Europa. Quase todo mundo sabe que a servidão na Rússia durou até o século XIX, mas se ignora que na Alemanha também, sobretudo nas regiões protestantes. Um dos primeiros estados a abolir as leis de servidão foi a católica Bavária em 1808, mas, na região oriental, o processo só foi concluído em meados do século. Bem. Isso no que diz respeito a Lutero como libertador social. Vejamos agora Lutero como libertador do pensamento.

Liberdade religiosa e livre exame são dois ícones linguísticos cunhados por Lutero que nunca tiveram um reflexo na realidade, como demonstram primeiro a lógica e depois a história.

Quase uma quarta parte das propriedades do Sacro Império mudaram de mãos. Não houve um latrocínio igual até a Revolução Russa

Supostamente o livre exame significa que o cristão deve se entender diretamente com Deus através dos textos sagrados, sem intermediários onerosos e imorais como “os romanos” (assim Lutero chamava o clero católico, embora fossem tão alemães como ele). Se for assim, há uma consequência imediata: o desaparecimento do clero, por desnecessário. Os fatos demonstram que isto jamais aconteceu, porque Lutero não operou a destruição das igrejas, apenas criou outra. Nem Lutero deixou de ser clérigo, nem o número deles no Sacro Império diminuiu. Simplesmente se formou um novo corpo sacerdotal que também guiou o rebanho aonde deveria ir. Só que agora esse corpo de pastores serve unicamente ao senhor do território (e não a um Papa estrangeiro e a um imperador aliado com o mundo welsch), que é quem lhe dá de comer. Se lhe servir bem, como fez Lutero, viverá bem. Viverá inclusive melhor que com os “romanos”, e assim Lutero recebeu do príncipe da Saxônia, como primeira prova de gratidão, aquele que havia sido o seu antigo convento em Wittenberg. É um belíssimo palácio, onde se instalou com sua nova esposa, seus parentes e seus criados. Tinha nascido no seio de uma família muito humilde e, como monge agostiniano, jamais teria podido se permitir esses luxos. E aqui não tocaremos mais no assunto das críticas ferozes aos luxos do clero “romano”.

A liberdade religiosa é provavelmente o totem linguístico mais afortunado de Martinho Lutero. Foi e é ininterruptamente debatido diante das trevas do catolicismo e da sua nação defensora por princípio, a Espanha. Nem é preciso pensar muito para ver aonde vai parar a liberdade luterana. Se ela tivesse existido alguma vez, mesmo que teoricamente, também os católicos e outras facções protestantes teriam tido direito a ela. Se o cristão é livre para interpretar os textos sagrados, então também a interpretação católica é possível e deve ser aceita. E deveria ter sido respeitada em consonância com a “liberdade religiosa” que Lutero e seus diáconos pregavam. Se a lógica humana não é um engodo desde a sua própria raiz, é porque é assim mesmo. Mas o fato é que o novo clero criou uma versão do cristianismo que foi a única aceitável, e todas as demais foram proscritas e perseguidas; a católica, obviamente, mas também os anabatistas, calvinistas, menonitas etcétera.

Ele é apresentado como o paladino da liberdade religiosa, mas o clero luterano perseguiu as demais versões do cristianismo

Entretanto, século após século, Lutero passeou pela história da Europa imune à verdade, aos fatos e à lógica. Basta o leitor digitar a sequência “Lutero liberdade religiosa” em algum buscador da Internet e verá. Se escrever em inglês e alemão, ficará pasmado. Poderíamos levar um pouco adiante este perverso jogo com as palavras e exasperar os argumentos históricos habitualmente aceitos. Porque aplicar a “liberdade religiosa” em sentido luterano é o que fizeram os Reis Católicos na Espanha, ou seja, que todos os súditos devem ter a mesma religião que seu senhor terreno. Este é o princípio conhecido como cuius regio, eius religio, e deu cobertura legal aos príncipes alemães para obrigarem as populações de seus territórios a se tornarem protestantes, quisessem ou não, e nem sempre graças a sermões persuasivos e pacíficos. Mas é evidente que os Reis Católicos não podem ser os pais da liberdade religiosa, embora tenham feito exatamente o mesmo, porque, como diz Castelar, nós não somos luteranos nem pertencemos à raça germânica.

A esta altura você já estará se perguntando: mas por que os príncipes alemães tinham tanto empenho em se tornarem protestantes? Não é difícil de explicar, mas para isso, como apontamos acima, é preciso sair do terreno religioso, da superioridade moral e das palavras totêmicas, onde todo o protestantismo diligentemente insistiu em situar aquele sangrento conflito. Quase uma quarta parte dos bens imóveis do Sacro Império mudaram de mãos, entre confiscos de propriedades eclesiásticas e de pessoas que abandonaram os territórios protestantes por se negarem a acatar a conversão forçosa. Até a Revolução Russa, não houve latrocínio comparável no Ocidente. Mas, claro, não chamamos assim, porque um tinha uma cobertura teológica, e o outro, uma cobertura ideológica. Definitivamente: uma justificativa moral. Isto naturalmente não será contado ao visitante na magna exposição de Wittenberg.

Foi furiosamente antissemita e prefigura o programa nazista. A Noite dos Cristais foi feita em homenagem aos seus 450 anos

Lutero foi não somente antilatino, mas também furiosamente antissemita. O filósofo alemão Karl Jaspers escreveu que o programa nazista está prefigurado em Martinho Lutero, que dedicou parágrafos horripilantes aos judeus: “Devemos primeiro atear fogo às suas sinagogas e escolas, sepultar e cobrir com lixo o que não incendiarmos, para que nenhum homem volte a ver deles pedra ou cinza”. O primeiro grande pogrom de 1938, a Noite dos Cristais, foi justificado como uma operação piedosa em homenagem a Martinho Lutero por seus 450 anos. Hitler disputou as eleições de 1933 com um soberbo cartaz no qual a imagem de Lutero e a cruz gamada aparecem juntas. As celebrações luteranas dos nazistas eram espetaculares. Com idêntica ferocidade Lutero estimulou e justificou a queima de bruxas, que deixou nada menos do que 25.000 vítimas na Alemanha, segundo Henningsen. Acumulamos tantos milhares, milhões de mortos com este assunto que é melhor nem fazer contas.

Mas não há do que se envergonhar. A Alemanha celebra ostensivamente Martinho Lutero porque se sente bem, porque Lutero é o pai do nacionalismo alemão e de sua Igreja, e tem, portanto… indulgência teológica. Desde a reunificação, e depois com a chegada do euro como elixir mágico, a Alemanha está em um tempo novo e encara às claras uma hegemonia europeia inconteste. A Grã-Bretanha desertou do barco da União, e a França não está em condições de confrontar a indiscutível supremacia germânica. Nem a Espanha nem a Itália parecem perceber muito bem como são necessárias para compensar esta hegemonia e como andam perdidas, sem conseguir superar o complexo de inferioridade que assumiram há séculos. Porque, com tudo isto, chegamos ao grande assunto do qual se trata aqui: o da superioridade moral frente ao suíno mundo não protestante no qual vivemos, a qual foi tão absolutamente assumida que muitos de nossos jornais, como nos tempos de Castelar, se somaram contentes à celebração luterana, tão cegos e tão perdidos hoje no labirinto da sua própria inferioridade como estavam há 100 anos.

*María Elvira Rocha Barea é filóloga e autora de ‘Imperiofobia e Lenda Negra’ (Siruela).

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