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O Papa defende que “a liberdade de expressão tem limites”

“Não podemos reagir violentamente, mas se insulta a minha mãe, pode esperar um soco" O Pontífice argentino disse ainda que não se pode “ofender” a religião ou “burlar-se” dela

FOTO: ETTORE FERRARI (EFE) | VÍDEO: REUTERS-LIVE! (reuters_live)

O papa Francisco disse na quinta-feira que é “aberrante” assassinar em nome de Deus, mas assegurou que “não se pode ofender” a religião ou “burlar-se” dela. Assim se manifestou o pontífice durante uma entrevista coletiva com a imprensa de 40 minutos a bordo do avião que viajava do Sri Lanka até as Filipinas e no qual os meios de comunicação, entre os que se encontrava a Efe, perguntaram sobre o recente ataque ao semanário Charlie Hebdo em Paris, no qual morreram 12 pessoas.

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A liberdade religiosa e de expressão, assuntos que foram tratados durante sua permanência no Sri Lanka, foram abordados pelo Papa, que se referiu, sem citar expressamente, ao ataque à redação dessa publicação. O Pontífice entendeu o sentido da pergunta que foi feita pelos jornalistas franceses e respondeu: “Acho que os dois são direitos humanos fundamentais, tanto a liberdade religiosa quanto a liberdade de expressão.”

“Você é francês? Falemos sobre Paris, falemos de forma clara”, disse a um deles para afirmar: “Matar em nome de Deus é uma aberração.” Depois, começou a falar da liberdade de expressão, que afirmou ser um direito e uma obrigação, mas que, afirmou, “tem limites”.

“É verdade que não podemos reagir violentamente, mas se Gasbarri (o papa aludiu a um de seus colaboradores sentado ao lado dele no avião), meu grande amigo, diz um palavrão sobre a minha mãe, pode esperar um soco. É normal!”, afirmou.

“Não podemos provocar – acrescentou –, não podemos insultar a fé dos demais. Não podemos burlar da fé. Não podemos”, insistiu o papa. E acrescentou: “Temos a obrigação de falar abertamente, de ter liberdade, mas sem ofender.”

O atentado contra o semanário Charlie Hebdo foi motivado pela publicação de caricaturas de Maomé, em teoria proibidas pelo islamismo. Por isso, segundo os vídeos gravados por testemunhas dos fatos, os terroristas gritaram, depois de cometer a ação, que tinham “vingado o profeta”.

E o último número de Charlie Hebdo, o primeiro depois dos atentados, volta a apresentar na capa uma caricatura do profeta chorando e segurando um cartaz que diz “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie), debaixo do título “Tudo está perdoado”. No avião, em sua viagem para as Filipinas, o Papa respondeu a oito perguntas, uma delas também sobre as supostas ameaças do extremismo islâmico. Até brincou com a possibilidade de reforçar sua segurança por causa da ameaça de atentados e contou à imprensa que tem “uma boa dose de inconsciência”.

“Eu sempre digo que tenho um defeito, que tenho uma boa dose de inconsciência”, disse Francisco quando perguntaram se tinha medo e se havia pensado em aumentar o nível de sua segurança nas viagens ou na Santa Sede. Francisco, no entanto, se mostrou preocupado com os fiéis que participam dos atos.

No entanto, tentou amenizar o assunto brincando: “Eu só peço uma graça, que no caso (de atentados) não sinta dor, porque não sou valente quando se trata de enfrentar a dor. Disto tenho muito medo.” “Sei que estou nas mãos de Deus, mas também sei que há atenção com a segurança”, ressaltou.

A questão da segurança será fundamental nas Filipinas, onde amanhã o pontífice argentino tem a agenda cheia de eventos. Quando chegou à base aérea de Villamor, em Manila, foi recebido pelo mandatário filipino, Benigno Aquino, e amanhã visitará o palácio presidencial.

O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, não quis apresentar números sobre a multidão que saiu à rua para dar as boas-vindas a Francisco, embora tenha assegurado que foi “impressionante” e que eram “centenas de milhares de pessoas”.

Pouco depois, realizará sua primeira missa na presença de arcebispos, sacerdotes e devotos na catedral da Imaculada Conceição de Manila, em seguida se reunirá com famílias filipinas pobres.

Durante a entrevista coletiva no avião, Francisco explicou que nesta visita às Filipinas “o centro da mensagem serão os pobres”. “Os pobres que querem avançar, os pobres que sofreram com o tufão Yolanda e que ainda sofrem as consequências, e os pobres que têm fé e esperança (...), os pobres explorados, os que sofrem tantas injustiças sociais, espirituais e existenciais”, especificou.