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Os acenos e os combates de Raquel Dodge para virar procuradora-geral da República

No posto máximo da carreira aos 55 anos, nova procuradora-geral assume em setembro no lugar de Janot

Raquel Dodge, futura procuradora-geral da República
Raquel Dodge, futura procuradora-geral da República REUTERS

Em 8 de fevereiro de 2003, Raquel Dodge, então procuradora regional da república, partiu emergencialmente para as proximidades da cidade de Pesqueira, em Pernambuco, onde eclodira uma batalha rural com indígenas mortos e uma tentativa de homicídio. Dodge ficou famosa no Ministério Público Federal por lidar com esse tipo de problema e se destacou também no combate ao crime organizado e à corrupção. Mas, aos 55 anos, ela precisa hoje pacificar outro tipo de conflito. Sabatinada nesta quarta-feira pelos senadores para um mandato de dois anos como procuradora-geral da República, Dodge terá de se equilibrar entre as expectativas de políticos, que sonham escapar de processos da Operação Lava Jato que ela herdará, e as demandas de “combatividade” dos procuradores da República que a elegeram.

“O combate à criminalidade é uma política que está incorporada à ação do Ministério Publico com o aval do Judiciário e o aplauso da sociedade. Raquel Dodge, nossa futura da PGR, na minha expectativa, dará continuidade a isso”, afirmou o subprocurador-geral da República Eitel Santiago ao EL PAÍS, que também concorreu pela lista tríplice do Ministério Público Federal e acabou derrotado.

Casada com um americano e fã de jazz, Dodge terá de improvisar diante de obstáculos políticos sem perder de vista os grandes objetivos de combate à corrupção e defesa dos direitos humanos. Ela terá o nome analisado pelo Senado em meio a uma guerra jurídica do Ministério Público com o presidente Michel Temer e boa parte do Congresso. Nem Janot, cujo mandato foi renovado em 2015  e com a Lava Jato em andamento, teve de passar pela sabatina dos senadores em momento tão conflagrado. Ainda assim, Raquel procurou pacificar os ânimos desde o começo da campanha pelo cargo na votação interna dos procuradores. Visitou senadores e deu indicações públicas de que terá atuação diferente, em alguma medida, à gestão de Janot, especialmente no tratamento da transparência de acordos de delação premiada. Até concorrentes da lista tríplice, como o subprocurador Eitel Santiago, fizeram acenos positivos a senadores pela aprovação do nome dela.

“Ela causou excelente impressão no Senado. Estive com senadores da Paraíba e pedi para que todos apoiassem minha colega indicada para PGR. Conversei com Cássio Cunha Lima, José Maranhão e Raimundo Lira, espontaneamente, recomendando o nome dela e tenho deles a informação de que ela vai se sair muito bem”, afirmou Santiago.

Raquel possui visões diferentes às de Janot, de acordo com procuradores que conhecem ambos. Santiago lembra que ela criticou o que ele chama de “divulgação apressada” de determinadas investigações que não estavam encerradas. Para os ouvidos dos parlamentares, melhor música não há. Tudo que eles mais querem é preservar crimes em sigilo até o último momento possível. Por isso há grande expectativa sobre como Dodge tocará inquéritos e ações penais.

“Pessoalmente, não tenho expectativa de Raquel ser mais branda do que Janot. Ela não tem perfil de engavetadora-geral, é muito ciosa. A questão é mais legal do que pessoal ou ideológica. Talvez a diferença seja no trato da informação dos eventos processuais para a sociedade”, afirmou o subprocurador Franklin da Costa, que também foi derrotado por Raquel na lista tríplice. Ele considera Raquel mais formal e menos irônica do que Janot.

Como atenuante para o peso de assumir a Procuradoria-Geral da República no período mais conturbado da democracia brasileira, é possível considerar que o serpentário de corruptos em Brasília parece menos arriscado do que outras quadrilhas enfrentadas por Dodge. Ela foi a responsável pela investigação e pelo julgamento do ex-deputado Hildebrando Paschoal, que comandou um grupo de extermínio no Acre e matou desafetos com uma motosserra. Dodge foi alvo de inúmeras ameaças de morte. Também foi a responsável pela coordenação da força-tarefa da Operação Caixa de Pandora, que prendeu o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda. O caso começou como uma investigação de promotores estaduais, mas foi assumido pelo então procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Naquela época, Gurgel delegou a Dodge a responsabilidade pelas investigações, onde ela comandou três promotores que hoje assessoram Janot com a Operação Lava Jato nos tribunais superiores. Nessas investigações, foram feitos acordos de delação premiada e ações controladas, técnicas especiais de investigação hoje consagradas na Operação Lava Jato.

Apesar do trabalho recente mais concentrado na área criminal, Dodge já passou por todas as áreas de atuação do Ministério Público e é considerada mais atuante na defesa dos direitos humanos, tema de sua dissertação na Universidade Harvard. “Se a intenção de Temer era ter um procurador-geral favorável a ele, ele errou feio. Talvez Raquel seja uma das poucas colegas que tenha passado com intensidade por todos os campos do Ministério Público”, afirma o procurador regional da república Domingos Sávio Silveira, velho amigo da futura procuradora-geral da República.

Silveira vê com bons olhos que um dos cotados para vice-procurador-geral na gestão de Dodge seja o subprocurador Luciano Mariz Maia, hoje responsável no Ministério Público Federal por coordenar todas as ações relacionadas a grupos indígenas na 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do órgão. Maia nega qualquer convite, mas não esconde o ânimo com a nova chefia do Ministério Público. “Em todas as situações que ela se coloca, tem um olhar no presente e uma capacidade de antecipar cenários. É capaz de endurecer posições sem perder a ternura”, afirma Maia, que nunca teve uma mácula no currículo, mas é motivo de desconfiança por ser primo do senador José Agripino Maia (DEM).

O senador Agripino Maia, aliás, foi um dos últimos visitados por Dodge na segunda-feira. Em entrevista ao EL PAÍS, ele negou que tenha tratado com ela sobre investigações. “Ela me pareceu equilibrada e preparada. A expectativa é de aprovação por larga margem no Senado. Longe de mim perguntar a ela sobre qualquer inquérito. Até porque sou objeto de investigações decorrentes de atuações no meu estado, então tenho consciência de qual é a origem. Nem de longe tratei desse assunto”, afirmou Maia. Não se sabe ainda a que tipo de equilíbrio o senador se refere. Depois da saraivada de flechas lançadas pela Procuradoria-Geral da República na Operação Lava Jato, os políticos parecem loucos para tentar zerar o jogo.

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