Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine
JANET MURGUIA | Presidenta do Conselho Nacional da Raça

Janet Murguía: “Este é o pior momento nas relações entre o Governo dos EUA e os latinos”

A presidente do mais poderoso lobby latino dos Estados Unidos fala sobre a ausência de interlocutores na Casa Branca

Janet Murguía, em uma entrevista coletiva em 2014.
Janet Murguía, em uma entrevista coletiva em 2014. GETTY

Janet Murguía afirma que atualmente não tem nenhum interlocutor no Governo de Donald Trump. Para a presidente do lobby hispânico mais importante dos Estados Unidos, o National Council of La Raza (NCLR ou Conselho Nacional da Raça), trata-se de uma situação sem precedentes nos 50 anos de história da organização, que sempre atuou junto a presidentes dos dois partidos. A Administração Trump “marca o ponto mais baixo nas relações entre o Governo e a comunidade latina”, afirma. “Um ponto histórico”.

“Francamente, não pensávamos que nos encontraríamos aqui”, diz Murguía, como tantas outras pessoas a quem se pergunta se esperava a vitória de Trump. “Ninguém pensava. Mas aqui estamos. Nos sentimos diante de um desafio. Em muitos sentidos, este é um momento obscuro para nossa comunidade, ao ver que alguém que tem o cargo mais alto do país não só não é um aliado como também tem confrontado nossa comunidade e tenta nos dividir e nos confrontar com outros. Estamos em um ambiente muito hostil. Este é o momento de maior desafio para nossa comunidade”.

Não há diálogo, nem a mínima aproximação a organizações que representem os interesses latinos em Washington. “Isso é preocupante. Quando você vê a composição demográfica deste país, não faz sentido que um presidente sequer tente beneficiar uma comunidade que é parte do sucesso econômico da nação. A única coisa que vemos é um ataque após o outro”.

Marguía afirma que Alex Acosta, o secretário de Trabalho e único latino na Administração é “alguém com quem, de fato, tivemos uma relação e apreciamos seu trabalho em um Governo republicano anterior (com Bush)”. Mas “ainda é preciso ver o que ele vai propor nesta Administração”.

Nasce o UnidosUS

O lobby latino mais importante dos Estados Unidos mudará de nome esta semana, segundo informou, na segunda-feira, a agência Associated Press. O novo nome será UnidosUS. As letras US podem ser entendidas como uma abreviatura de Estados Unidos, em inglês, ou como a palavra us (“nós”). Há anos a referência a “raça” soava antiquada não só para os jovens como também para os muito latinos nos Estados Unidos cuja experiência é completamente diferente da do movimento dos imigrantes dos anos 60 que cunhou o termo. Ainda que “a raça” originalmente se referia simplesmente ao povo, era comum que se confundisse com uma referência racial.

No entanto, a partir de suas palavras pode-se deduzir que as esperanças de diálogo com este Governo são mínimas. “O presidente conduziu sua campanha e sua presidência de uma maneira hostil aos latinos. As pessoas se sentem atacadas pelo Governo. Obviamente, se houvesse algum ponto em comum, tentaríamos encontrar. Não vimos nenhum até agora. Mas se alguém se aproximar de nós com alguma ideia que consideremos benéfica para nossa comunidade, conversaremos. Até agora só vimos o contrário disso. Ou ele nos ignora ou nos ataca”.

Nesse sentido, a vitória de Trump representou um golpe na ideia de que nos Estados Unidos não se pode ganhar uma eleição sem o voto dos latinos. Há menos de um ano, essa era uma convenção política assumida por todo o espectro, tanto que era a principal preocupação dos republicanos com seu candidato. Trump ganhou não só ignorando os latinos como também insultando-os e atiçando sua mobilização.

“Olhem em quem votaram os latinos”, responde Murguía. “Trump recebeu entre 17% e 19% do voto latino. Os latinos não o elegeram. Creio que a maioria de nós está de acordo com o fato de ser quase impossível ganhar uma eleição sem o voto latino”. Murguía levanta o dedo para dar ênfase à palavra “quase”. “Trump desafiou muitas convenções nessa eleição”.

O risco, então, é que os partidos cheguem a uma conclusão inesperada a partir da campanha de 2016: que cortejar os latinos não é tão importante. “Existe esse risco”, admite Murguía. “Mas com o tempo, isso não vai acabar bem para o Partido Republicano. Não é sustentável”. Em 2016 “pensávamos que estávamos prontos e o país também. Não aconteceu. Mas essa mudança é inevitável. Ninguém sabe quando vai ocorrer. Só podemos continuar crescendo”.

Murguía conversa com o EL PAÍS em Phoenix, no Arizona, onde sua organização realizou sua conferência anual no último fim de semana. Há poucos anos, a entidade tinha vetado o Arizona e liderou um boicote nacional contra o Estado, pela lei SB1070, que permitiu ao xerife Joe Arpaio lançar uma campanha de caça aos imigrantes. A lei foi declarada inconstitucional e os eleitores dispensaram Arpaio em novembro passado. A realização do evento em si é tida pela organização como um exemplo das consequências que têm as políticas abertamente racistas. Murguía destaca que essa lição agora tem ressonância nacional com Trump.

“Podemos ver o Arizona como um exemplo. Aquele era um momento obscuro como o que estamos vivendo agora no país. As pessoas se mobilizaram depois que promovemos um boicote”, recorda. “Não nos rendemos. Registramos 250.000 novos eleitores latinos no Arizona e elegemos 32 novos latinos para cargos no Estado”. Através do boicote, no Arizona “as pessoas perceberam que não queriam ser a bandeira do racismo e da intolerância nos Estados Unidos. Essa lição tem que ser aplicada”. Isso é o que Murguía acredita que possa ocorrer com o Partido Republicano a nível nacional depois da vitória de Trump.

“Se alguma coisa a eleição de Trump mostrou é que a mudança para nossa comunidade não ocorre da noite para o dia. Chegamos perto, temos que conseguir”, afirma.

MAIS INFORMAÇÕES