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G19

O slogan de Trump, “A América em primeiro lugar”, isola os Estados Unidos do resto do mundo

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau.

Apesar de suas fragilidades e insuficiências, o G-20 é uma organização extraordinariamente útil. Os Governos que lá se sentam representam mais de dois terços da população mundial, 85% do PIB e 75% do comércio global. Entre o elitismo do clube do G-7 – no qual só entram as economias mais avançadas do Ocidente – e a inoperância de muitas organizações da ONU – onde têm lugar todos os seus membros, 193 na atualidade –, e na ausência de um Governo mundial, o G-20 reúne legitimidade e eficácia suficientes para ser o fórum a partir do qual determinar os rumos da governança global.

O multilateralismo é a única maneira de ordenar, mesmo que minimamente, o complexo mundo onde vivemos, assolado por desafios de enorme magnitude, seja em aspectos econômicos (comércio e investimento) ou mais políticos (mudança climática, migrações e terrorismo). Se há alguma chance de a globalização funcionar para o benefício de todos, é em fóruns como o G-20 que ela pode se materializar.

Esse entendimento da necessidade de regras e acordos é compartilhado hoje em todas as partes, menos, muito significativamente, em Washington, onde Donald Trump governa sob um slogan, “A América em primeiro lugar”, que não acaso foi importado diretamente dos anos trinta do século passado, época em que o protecionismo e o autoritarismo campeavam.

Paradoxalmente, nesse desprezo pelo G-20 e pelo multilateralismo encontramos neste fim de semana atores tão díspares como Donald Trump e o violento anarquismo que fez de Hamburgo, não se sabe muito bem em nome de quais ideais, fins ou princípios, uma cidade sequestrada pela violência nas ruas.

Em Hamburgo, a insistência de Trump em se desvincular dos acordos climáticos e se reservar o direito a ações unilaterais protecionistas esteve a ponto de impedir até mesmo a emissão de um comunicado conjunto. Infelizmente, o presidente dos EUA ditou mais uma vez a agenda global com suas contradições e mudanças de rumo. Depois de falar em Varsóvia sobre a crise civilizatória no Ocidente e se perguntar se este está disposto a defender seus valores, evitou todos os atritos ocidentais com a Rússia em sua primeira reunião presencial com Vladimir Putin, mantendo incólume, por outro lado, a hostilidade com o México, incluindo a promessa trumpista de obrigar os vizinhos do sul a pagarem por um muro anti-imigração. Tudo isso enquanto, para assombro de todos os demais líderes, sentava sua filha Ivanka em sua cadeira para substituí-lo, em lugar do seu secretário de Estado, como dita o protocolo.

A boa notícia do G-20 é que ele se mantém, mesmo que como um G-19. Por sorte, Trump não vai conseguir fazer a globalização e a governança global descarrilarem, pois todos os outros Estados têm um interesse direto em preservá-las. O G-0, ou mesmo o G-1 com o qual sonha Trump, não vai ocorrer. A Europa, que esta semana assinou um crucial acordo de livre comércio com o Japão e que acaba de ratificar outro com o Canadá, deve continuar apostando no multilateralismo. Com ou sem Trump.

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