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Trump admite que a Rússia pode ter interferido nas eleições dos EUA

Presidente visita a Polônia, onde fez acenos ao ultraconservador Duda antes da cúpula do G20

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Trump, durante seu discurso na praça Krasinski de Varsóvia nesta quinta-feira. AP
Varsovia (enviada especial)

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, admitiu nesta quinta-feira que a Rússia pode ter interferido nas eleições que lhe deram a vitória sobre Hillary Clinton, em novembro passado. “Já disse muito claramente, acho que poderia muito bem ter sido a Rússia, acho que poderia muito terem sido outros países”, afirmou o republicano numa entrevista coletiva em Varsóvia ao lado do seu homólogo polonês, Andrzej Duda. O líder norte-americano, que chegou nesta quarta-feira à Polônia para uma rápida visita, como parte da sua segunda viagem oficial à Europa, aproveitou para criticar o “mau comportamento” da Coreia do Norte e se comprometeu a apoiar Varsóvia contra o “comportamento desestabilizador” da vizinha Rússia. Um porta-voz do Kremlin reagiu imediatamente, rejeitando essa descrição.

Quando Trump embarcou pela primeira vez para a Europa como presidente, em maio, deixou para trás as notícias de que o FBI investigava Jared Kushner, seu genro e assessor de confiança, por causa de contatos dele com a Rússia. Na época, o presidente não concedeu entrevistas coletivas e evitou perguntas sobre o envolvimento do seu entorno na trama russa. Mas nesta quarta-feira, num país que considera amigo e aliado, Trump falou sobre a Rússia e aproveitou, de passagem, para criticar seu antecessor, Barack Obama. “Disseram a ele no começo de agosto que a Rússia estava tentando se envolver com bastante força [na campanha eleitoral]. Ele não fez nada a respeito, e isso porque achava que a Hillary ia ganhar”, afirmou.

Sobre as últimas ações militares da Coreia do Norte, afirmou que o regime de Kim Jong-un vem “se comportando mal, muito, muito mal”. Disse que não deseja que a Coreia do Norte se transforme em uma nova Síria, e pediu ajuda a todas as nações para confrontar a “ameaça global” que o programa nuclear norte-coreano representa. Trump prometeu respostas “sérias”, mas acrescentou que seu Governo ainda está analisando quais serão. “Eu não desenho linhas vermelhas”, declarou o mandatário, acusando Obama de cometer um “grande erro” ao usar essa expressão, “linha vermelha”, como sinônimo de um limite que o Governo sírio não poderia ultrapassar – o uso de armas químicas em meio à sua guerra civil. Na avaliação de Trump, Obama não cumpriu as ameaças quando ficou claro que o regime de Bashar al Assad havia empregado esse tipo de armamento. Ainda sobre Síria, ele disse que nenhum país que defenda a humanidade poderia permitir ataques com arsenais químicos.

Para o Governo ultraconservador polonês do partido Lei e Justiça (PiS), a visita de Trump é um grande feito da sua política externa – e assim vem alardeando o Executivo de Varsóvia há semanas, num esforço para demonstrar que o país, confrontado por Bruxelas devido à sua rejeição à política migratória comum, e muito criticado por suas reformas antidemocráticas, não está tão isolado quanto parece. E, para Trump, que chegou à capital polonesa com as promessas de fechar acordos comerciais e esperando uma calorosa acolhida – algo que alegrará um pouco a sua viagem antes da cúpula do G20 em Hamburgo, onde os líderes mundiais não facilitarão sua vida, e em cujas ruas já ocorrem manifestações – a rápida escala de 16 horas na Polônia também será benéfica.

O Executivo polonês espera que Trump mencione em Varsóvia seu compromisso com a defesa comum dos aliados da OTAN, mencionada no artigo 5º. da aliança. Até agora, porém, o presidente norte-americano tem evitado, como já fez na primeira visita ao continente, reiterar esse compromisso com uma aliança que, em muitos momentos, qualificou de obsoleta. Trump, com enormes semelhanças com o Governo ultraconservador, eurocético, nacionalista e xenófobo do PiS, difere quanto à aproximação com a Rússia, vista pela Polônia como um inimigo real. Por isso, a referência do republicano às “ações e o comportamento desestabilizador” de Moscou foi uma pequena vitória para Varsóvia.

Diante o presidente Duda, que se mostrou encantado e sorridente ao lado do colega norte-americano, Trump elogiou o compromisso da Polônia com a política de defesa. Este é um dos poucos membros da OTAN que dedicam mais de 2% do seu orçamento para esse fim.

Com sua viagem à Polônia, um país ex-comunista, o presidente dos Estados Unidos quebra a tradição de visitar primeiro os aliados mais antigos, como o Reino Unido e a Alemanha. Seu gesto contribui para esfriar ainda mais as relações com seus sócios históricos, ao mesmo tempo em que, internamente, representa um forte respaldo ao Executivo do PiS, cada vez mais distanciado da UE e confrontado com Bruxelas por causa dos seus rumos autoritários e da sua política migratória.

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