Corrupção no Rio de Janeiro

Barata na prisão, o império dos transportes do Rio na berlinda

Lava Jato chega à família onipresente há 50 anos no transporte público no Estado do Rio

Jacob Barata Filho, preso enquanto tentava embarcar para Portugal.
Jacob Barata Filho, preso enquanto tentava embarcar para Portugal.Tânia Rêgo (EBC)

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A prisão de Barata Filho antecipou a operação Ponto Final, que nesta segunda decretou a prisão de 12 pessoas da cúpula de transportes do Rio, entre elas Lélis Teixeira, presidente da poderosa Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor), e Rogério Onofre, ex-presidente do Departamento de Transportes Rodoviários do Rio (Detro). O Ministério Público Federal investiga o pagamento feito por empresários de ônibus de cerca de 500 milhões de reais em propinas para políticos entre 2010 e 2016. Entre eles estão as autoridades vinculadas ao Governo de Sérgio Cabral, acusadas de receber cerca de 260 milhões de reais para que concedessem vantagens como altos reajustes nas tarifas de ônibus ou retenção irregular de créditos do Riocard. Só o ex-governador, que já cumpre uma pena de 14 anos de prisão por lavagem de dinheiro e corrupção, ficou com 122,8 milhões de reais em propinas, segundo a Procuradoria. Sempre que o Governo estadual autorizava o aumento das passagens, suspeita-se que o peemedebista recebia "prêmios" da Fetranspor, mesmo após ter deixado o governo. As investigações focam, por enquanto, no sistema de ônibus intermunicipais – ou seja, não afetam os que circulam apenas dentro da cidade do Rio de Janeiro e autoridades municipais.

O conglomerado da família Barata, um dos maiores do Brasil e dominante na Fetranspor, é peça fundamental desse esquema de pagamento de propinas, segundo o MP. Ainda que opere em vários estados brasileiros, sua musculatura sempre se concentrou no Rio. Foi lá onde, em 1950, tudo começou. Barata pai tinha 18 anos quando, com o dinheiro que havia economizado vendendo joias ou trabalhando como escriturário de um banco, comprou um Chevrolet de 10 lugares e passou a fazer a linha Madureira-Irajá. Era o tempo das lotações, o equivalente aos atuais serviços de vans que, naquela época, significaram uma transição dos bondes elétricos para os atuais ônibus. “Todo mundo que me encontrava dirigindo a lotaçãozinha dizia: ‘Jacob, você deixou de ser bancário para dirigir essa lotação’. Eu dizia: ‘Vocês estão confundindo: bancário é uma coisa, banqueiro é outra’”, recordou em 2013 durante uma entrevista ao jornal O Globo, para o qual também relatou ter sofrido bullying por causa do péssimo estado dos pneus de seu veículo. “Um camarada, o Bóris, da Benfica Pneus, me disse: ‘Ô judeuzinho, por que o pessoal faz hora com você?’ Expliquei que não tinha dinheiro para trocar os pneus. Aí ele me ofereceu a chance de comprar quatro e pagar um por mês. Foi um dia feliz na minha vida. É o que digo: felicidade completa na vida ninguém tem. Todos nós na vida temos momentos felizes. No dia seguinte, todo mundo passava e eu fazia: ó pra vocês (sinal com o dedo). Aí não enguicei mais. Fui tocando e estou aqui”.

Jacob Barata, hoje com 85 anos.
Jacob Barata, hoje com 85 anos.

Suas lotações se transformaram em empresas que, juntas, formaram o Grupo Guanabara no final dos 60. O grupo hoje é sócio de mais de 20 viações de ônibus em sete estados brasileiros, além de um banco, concessionárias, hotéis, operadoras de turismo, hospitais, entre outros empreendimentos. Entretanto, à medida que crescia o império familiar, Barata pai foi ganhando a fama de "mafioso" no Estado do Rio. O "Rei dos Ônibus" é visto como o líder de um cartel – ou simplesmente de uma "máfia", como diz a maioria – de ônibus que controla não apenas os preços das passagens como também toda a política estadual e municipal na área de transportes públicos. A falta de investimentos em metrô ou barcas, por exemplo, é constantemente creditada a esta "máfia de ônibus" que "financia políticos corruptos" em época de eleições ou através de propinas. Não são poucos os governantes que iniciam seus mandatos prometendo impor sua vontade e colocar as empresas de ônibus na linha. O último deles foi o atual prefeito do Rio Marcelo Crivella, que colocou como secretário de Transporte um especialista da área que prometeu reduzir o preço das passagens em até 30%. Até agora nada feito. Também está pendente a prometida frota com ar-condicionado em todos os veículos.

Barata pai, o “Rei dos Ônibus”, é uma espécie de entidade da qual todos os cariocas falam, mas poucos conhecem sua cara ou seus familiares. Tanto é assim que Barata Filho, que hoje lidera os negócios da família, conta não ter sido reconhecido durante as manifestações de junho de 2013, das quais participou para tentar entender as demandas acerca do transporte coletivo. Relata ter se sentido “mal, aborrecido e muitas vezes injustiçado”. Também é comum no Rio a criação de diversas lendas urbanas em volta da Família Barata. Umas delas dizia que Adriana Ancelmo, esposa de Cabral, também era filha de Barata pai. Mas a história mais conhecida talvez seja a dos protestos ocorridos durante o casamento de Beatriz Barata, neta do patriarca e filha do atual dirigente do império, em julho de 2013. Naquela ocasião, umas 60 pessoas se concentraram nas portas da Igreja do Carmo, no centro, para exibir cartazes como "Dona Baratinha, vá de ônibus para o Copacabana Palace". Nas portas do hotel o número de manifestantes cresceu e chegou a quase 200, entre os quais se destacava uma jovem vestida de noiva que distribuía baratas de plástico para os convidos que chegavam. 

"Dona Baratinha", assim como outros membros do clã familiar, trabalha nos negócios do Grupo Guanabara e só anda acompanhada por seguranças. Um empregado que trabalha na administração de uma de suas empresas define a gestão do império dos Barata como "amadora", com muitos amigos e familiares em postos de gerência. A preocupação, explica, não é tanto com a gestão dos negócios mas sim com a "receita" e se estão "pagando impostos demais". Na mesma entrevista ao jornal O Globo, Barata pai explicou sua estratégia: "O controle que eu tenho é: todos os meus sócios que dirigem as empresas. Não sou caixa nem tesoureiro de nenhuma delas. A única coisa que quero é todo dia o caixa na minha mesa. Saber o tostão que entra e o tostão que paga. Não admito fazer um tostão de vale na empresa. Admito qualquer erro, menos financeiro. Se precisar, é só me pedir. Quem erra por um real erra por um milhão".

Ele também explicou que administrar uma empresa significava "delegar poderes e cobrar". "Não é fazer, não. Eu só dirigi um ano. Depois coloquei motorista”, contou na ocasião o Rei dos Ônibus, para quem a segunda geração da família "melhorou muito, veio com outra mentalidade, melhoraram as carrocerias e as indústrias". Já faz alguns anos que o patriarca da família se afastou do dia a dia dos negócios e passou o bastão para seu filho, que se encarregou de manter uma relação sempre próxima aos políticos, como ele mesmo já admitiu em uma entrevista para a Folha de S. Paulo em 2014. "Naturalmente há políticos que ajudamos a eleger, com trabalho nas emrpesas. Como há bancada ruralista, há a do transporte. (...) É [uma ajuda] pessoal. Temos certa influência junto aos funcionários. São pessoas em cujo trabalho acreditamos e pedimos para que votem nelas", explicou.

Esta relação entre empresários e políticos está agora na mira da Justiça, que finalmente começa a transformar em fatos e números concretos a corrupção da "máfia de ônibus" que tantos cariocas se acostumaram a falar. O procurador Eduardo El Hage resumiu a questão da seguinte maneira: "É um dos esquemas criminosos mais antigos do Rio, e um dos mais maléficos, por atingir a população de baixa renda". Com Barata Filho preso e uma megaoperação em curso, a sobrevivência do império dos Baratas, bem como todo o sistema de transporte público do Rio, está em xeque.

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