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Karim: “Tornei-me radical porque não aceitava minha homossexualidade”

Três muçulmanos que fugiram de seus países relatam a perseguição que vivem os homossexuais em mais de 70 países onde ser gay é crime

Karim, 27 anos, Samir, 29 anos e Faysal, 22 anos, durante a entrevista em Madri.
Karim, 27 anos, Samir, 29 anos e Faysal, 22 anos, durante a entrevista em Madri.

Karim rezava cinco vezes por dia. Toda sexta-feira, pontual, comparecia à mesquita de Al Hoceima, sua cidade de origem, no norte de Marrocos. “Aos 16 anos tive uma fase de depressão muito forte. Caí num buraco negro e me tornei um radical. Isolei-me da família e dos amigos. Refugiei-me na religião, na mesquita e nas rezas”, recorda o marroquino de 27 anos, residente em Madri há pouco mais de dois anos. Sua família chegou a pensar que tinha caído nas mãos de alguma rede terrorista. Mas a verdade era outra: simplesmente era gay. E não assumia.

“Estava convencido de que todos iriam para o inferno porque via que ninguém praticava bem o Islã”, diz. “Mas era só um conflito que tinha comigo mesmo. Não aceitava minha homossexualidade, sentia que estava cometendo um crime”, diz num café da Plaza de Chueca, em Madri, enfeitada para as comemorações do Orgulho gay.

Foi na mesquita a que ia diariamente que o convenceram a seguir rigorosas regras morais, que incluíam não ver televisão nem frequentar certos locais de lazer. Da homossexualidade, nem se falava, exceto para condená-la. Karim passou por várias fases de rejeição e aceitação de sua orientação sexual que quase lhe custaram a vida. “Numa de minhas depressões cheguei a pensar no suicídio”, admite.

Foi no final dessa fase que conheceu um rapaz muito religioso. Até mais que ele. E também homossexual. “Nunca faltava a nenhuma reza na mesquita, mas tinha graves problemas de consciência por ser gay. Cada vez que tínhamos uma relação, em seguida chegava o arrependimento e sofria crise de ansiedade”, conta. Aquilo, de certo modo, o fez abrir os olhos e perceber o círculo vicioso em que se encontrava. “Percebi que não queria ser assim; queria aceitar o que era e viver em paz comigo mesmo”, diz.

Finalmente, renegou a religião e encontrou um bom emprego num banco que lhe proporcionou certo nível econômico. O suficiente para, aos 25 anos, largar tudo e emigrar para a Espanha. Hoje, com sua mudança de residência, perdeu qualidade de vida, mas ganhou em tranquilidade e segurança, apesar de ter que lidar com o racismo e a islamofobia, que às vezes encontra também dentro da comunidade LGBT. Ficaram para trás os insultos que ouvia seu pai e os abusos sexuais que sofreu anos mais tarde em silêncio, por medo da rejeição de sua família, e que o fizeram negar para si mesmo o que sentia desde pequeno quando, aos quatro ou cinco anos, já sabia que gostava de meninos.

A história de Samir

Os pais de Samir Bargachi se mudaram de Marrocos para a Espanha quando ele tinha apenas seis anos. Esse marroquino de nascimento, naturalizado espanhol, homossexual e de cultura muçulmana quase não viveu em seu país natal, mas sempre manteve o contato com suas origens. Em seus 29 anos de vida viajou frequentemente a sua cidade, Nador, e o círculo social de seus pais na Espanha sempre foram outros marroquinos emigrados. “Apesar de ter crescido aqui, minha educação foi marroquina e muito conservadora. Por isso, quando aos 13 ou 14 anos descobri minha orientação sexual, foi muito duro”, conta Samir. “Na cultura muçulmana não existe o conceito de individualidade; você não pode sair da norma. Além do mais, Marrocos é muito conservador. Por isso, ser diferente é um sofrimento muito grande”, conta sobre um país que ainda hoje pune os atos homossexuais com penas de até três anos de prisão. “A insegurança que uma pessoa LGBT sente em certos países faz muitos quererem emigrar, e a Espanha é um dos melhores países do mundo para ser LGBT”, diz.

Quando finalmente se aceitou, Samir contatou outros homossexuais de cultura muçulmana para criar um grupo de apoio, a associação Kif Kif que agora, de suas sedes em Madri e Getafe, ajuda quem pede asilo na Espanha por sofrer perseguição ou discriminação em virtude de sua orientação sexual ou identidade de gênero. “Trabalhamos principalmente com asilados de países de maioria muçulmana, mas ultimamente também vêm de outros lugares como a Venezuela e outras partes da América Latina”, diz. O Ministério do Interior não classifica os dados dos refugiados segundo os motivos do pedido de asilo, mas Samir afirma que, em 2016, sua associação prestou assistência a mais de 300 pessoas, a quem assessorou no processo legal e ajudou a integrar-se no país.

A fuga do Iraque

Faysal Hamoud, de 22 anos e nascido em Bagdá (Iraque), escuta atento o que seus amigos contam, mas sua história é mais dura que a de outros muçulmanos homossexuais. Está há nove meses na Espanha e, com um grande sorriso, conta que pouco depois de aterrissar em Madri, onde agora reside, correu para fazer um piercing no nariz como sinal de rebeldia.

Aos quatro anos partiu com seu pai para Aleppo, na Síria. Depois da morte do pai, Faysal, então com oito anos, ficou sob a guarda de sua tia paterna, que o expulsou de casa dois anos mais tarde. “O marido de minha tia era gay, mas ninguém sabia. Propôs que eu tivesse relações sexuais com ele e me senti ultrajado porque, naquela altura, eu não sabia nada de minha orientação”, diz. Quando a situação com o marido da tia se tornou insustentável, Faysal decidiu contar a ela. “Não acreditou em mim; negou tudo, bateu em mim e me expulsou de casa. Acabei em um orfanato”, conta. Mas não esperava que, no orfanato, conheceria o primeiro amor de sua vida e que ficaria junto dele por oito anos. “Pouco depois do início da guerra na Síria, caiu uma bomba no orfanato e morreram todos. Todos menos eu, porque estava fora da cidade”, conta Faysal, enquanto muda de expressão ao se lembrar do namorado falecido.

Dali partiu para o Líbano, onde contatou o Acnur. Em dois meses, a Espanha aprovou seu pedido de asilo e ele rumou para cidade que, em 2017, é a capital mundial do orgulho LGBT. Os três concordam que, apesar das dificuldades, emigrar foi a melhor coisa que poderiam ter feito. “Não pretendemos voltar”, conclui Samir, que recorda que ser LGBT não é igual no mundo inteiro. Alguns países, como a Espanha, têm leis contra a discriminação, reconhecem o casamento igualitário e perseguem os crimes de ódio por motivos de sexo, raça ou nacionalidade. Mas a homossexualidade ainda é considerada crime em 72 países, segundo a ILGA (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Transgêneros) e oito países, como o Irã, aplicam a pena de morte.

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