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Buscava uma vida melhor em São Paulo e acabei na cracolândia

Na região onde se aglomeram usuários de drogas, mais de 45% das pessoas vieram de outras cidades. Prefeitura quer aumentar programa que subsidia retorno

Cracolâdia
Usuários se aglomeram ao lado da estação Julio Prestes. Folhapress

O mundo de Marcos Costa desabou quando sua filha foi estuprada. Ele tinha chegado a São Paulo com apenas 22 anos. Recém-formado em contabilidade em sua cidade, Salvador (Bahia), abriu sua empresa. Ganhou dinheiro, teve filhos e expandiu seus negócios para sua cidade natal. “Tinha tudo, viajava bastante...”, lembra hoje, um homem de estatura baixa, 46 anos, o rosto enrugado, barba e cabelo curtos e grisalhos. Então aconteceu o indizível. “Claro que me vinguei do cara que fez isso!”, exclama. O homem que abusou de sua filha vinha “de uma família grande”, então Marcos decidiu fugir para que não devolvessem a vingança. Logo começou a beber. Viajou para os Estados Unidos, gastou todo o seu dinheiro e, após voltar para São Paulo, acabou na rua. Da bebida ao crack foi um pulo. “Uso desde sempre”, conta ele. Aparenta ser mais velho. Um colchão dentro de uma barraca improvisada no centro da cidade, os cobertores com os quais fica meio escondido, seu RG, um anel no dedo indicador e um cachimbo remendado de crack são alguns dos poucos pertences que lhe restam. Sua família, com a qual já não tem contato, está espalhada por várias outras cidades.

Marcos é um dos frequentadores do “fluxo”, o mercado aberto de drogas da cracolândia. Uma pesquisa feita pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) em parceira com o Governo do Estado de São Paulo mostra que, em 2017, mais de 45% das pessoas dessa região – que na última quarta-feira se moveu da Praça Princesa Isabel até a Alameda Cleveland, ao lado da estação Júlio Prestes – vieram de outros lugares do Brasil. Em 2016, eles representavam quase 58%. A cracolândia, assim como o resto da capital paulista, é formada também por aqueles que vieram em busca de melhores oportunidades.

O casal Leandro Ferraz e Andreia Garcia até gostaria de voltar para Jacareí, no interior de SP, mas ambos fazem a mesma indagação: "Para quê? Para voltar para a rua?". Com 29 anos, Leandro está só há um mês na cracolândia, mas já fuma crack desde sua adolescência. “Lembro até hoje como foi. Estava sentado num bloquinho e, na hora que dei um trago, veio um furacão. Uma brisa muito louca”, conta Leandro. Seu pai é alcoólatra, mas, ainda assim, não culpa problemas familiares pelo vício. “Tive uma criação da hora. Já usava outras coisas, só de curtição mesmo”. Ao ser abordado por esta reportagem, Leandro caminhava a passos largos pela rua Helvétia olhando ansioso para todos os lados, como se estivesse procurando ou esperando alguém. Vestia bermuda, camiseta e tênis limpos e um boné para trás escondia os cabelos pretos raspados. Sua esposa Andreia, uma mulher alta e loira, conta que a primeira vez que usou crack, há mais de 20 anos, teve “a melhor sensação” de sua vida. Hoje, com 37 anos, exibe um corpo franzino, um semblante pálido e um olhar fixo e assustado. Chora quase sempre que fuma a pedra.

Em 1998, Andreia foi presa por assalto à mão armada. Viu-se finalmente livre da cadeia e das drogas seis anos depois, em 2004. Reconstituiu sua vida: fez uma faculdade de Administração, se casou, teve três filhos e virou gerente de uma grande loja de tintas de Jacareí. Tudo ia bem até que, em 2014, descobriu as traições de seu marido. “Me separei e voltei a sair, a ir pras baladinhas... Até que dei um tiro”, conta ela sobre a vez que voltou a usar cocaína, após 10 anos limpa de qualquer droga. Até que lhe ofereceram o crack dias depois. E ela não negou. “Fumei e no mesmo dia troquei tudo o que tinha por droga. Raspei todo o caixa”. Pouco tempo depois conheceu Leandro. Não se largaram desde então. “Ele me levou para a casa da família dele já me apresentando como namorada!”.

Andreia Garcia mostra seu RG e seu cachimbo. pulsa en la foto
Andreia Garcia mostra seu RG e seu cachimbo.

Leandro e Andreia são hoje companheiros na vida e num vício que já tentaram inúmeras vezes superar. Em uma dessas tentativas, ele chegou a ficar internado por sete meses em uma clínica particular que sua família pagava. “Nessa época eu também parei. Imagina ele fazendo todo aquele esforço e eu chego toda horrível para a visita? Que estímulo ele teria para continuar?”, explica Andreia. Ao sair, Leandro arranjou um emprego como chapeiro em uma lanchonete e alugou um lugar para eles ficarem. “Se estou com a cabeça ocupada e sem ver as pessoas fumando, não fumo”, conta ele. Sua esposa engravidou e ambos conseguiram ficar longe das drogas. Mas, assim que ela deu à luz, a Justiça entregou sua filha à sogra. “Então desabamos e voltamos pra rua de novo”, contam. Acabaram na cracolândia. Retornar ainda não é uma opção para o casal.

A Prefeitura de São Paulo, comandada por João Doria (PSDB), causou polêmica nas últimas semanas ao prometer ampliar um programa que, desde 2003, auxilia – através de kits de viagem, refeições, passes de Metrô, encaminhamento para serviços socioassistenciais e passagens de ônibus – o retorno daqueles que não têm condições financeiras e querem retornar às suas cidades. A única condição é que haja familiares ou amigos que estejam esperando o migrante. Ainda que apenas leve em conta a vontade da pessoa, especula-se que o programa possa também ser usado pela Prefeitura para "se livrar" de usuários de drogas.

Filipe Sabará, secretário de assistência social de São Paulo, garantiu no último dia 13 ao EL PAÍS e outros meios de comunicação que ainda estava estudando ampliar o projeto. Dois dias antes havia publicado texto e vídeo no Facebook anunciando a volta de Antônio, que naquele mesmo dia tinha sido "resgatado das ruas após ação contra o tráfico", para São Luís (Maranhão). Sabará explicou que sua iniciativa foi um ato de caridade após ouvir as súplicas do rapaz. Tanto ele como Doria reafirmaram em diversas ocasiões que possíveis repatriações só serão feitas caso seja a vontade da pessoa. Segundo a Secretaria, o programa oferece hoje uma média de 100 passagens mensalmente. Em 2015 foram 1.348 benefícios; em 2016, 1.416; e, até 18 de junho de 2017, 754. A Prefeitura não possui os números dos anos anteriores. 

Para Dimitri Salles, membro do Condepe (Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana) e doutor em direito constitucional, a publicação nas redes mostrou o secretário querendo "faturar politicamente em cima de uma pessoa em condição de vulnerabilidade" O programa que hoje existe, diz, é importante desde que o retorno "seja sempre uma livre opção da pessoa". "O poder público não pode condicionar a permanência em São Paulo ou o retorno para a sua região de origem. Como a Prefeitura não tem uma política de inclusão de assistência e de saúde efetiva, mas sim uma política higienista, de violência institucional, ela está pressionando. Não existe a possibilidade de livre escolha". Já o advogado Marcos Roberto Fuchs, diretor adjunto da ONG Conectas Diretos Humanos, acredita que a repatriação de uma pessoa significa falta de "habilidade para resolver o problema dentro". "Mas se a pessoa quiser voltar e o município quiser ajudar, tudo bem. Mas que jamais seja algo para se livrar do problema". Ele pondera, entretanto, que antes de entrar em um ônibus, "é preciso saber se a pessoa vai ter condições de tratamento adequado" ao chegar ao seu destino, com "acompanhamento médico, psiquiátrico, ou psicossocial".

Jefferson de Paula Gomes é de Belo Horizonte e gostaria de voltar a sua cidade natal para ver sua mãe e seus filhos. "Quero saber como estão, se precisam de mim para alguma coisa", conta ele. Diz que aceitaria a ajuda municipal, mas não garante que ficaria em Minas Gerais. O provável, ele diz, é que voltasse para São Paulo, onde chegou há dois anos para retomar seus estudos e arranjar um trabalho. Também tinha um sonho: "Entrar pela primeira vez no mar, em Santos". Já tinha visto a praia anos antes, quando viajou para o Rio de Janeiro com o circo no qual trabalhava. Mas não gostou da cidade, a qual define como "muito violenta".

Oriundo de uma família humilde e "muito trabalhadora", também já foi pedreiro e diz ter feito todo tipo de serviço. Com 35 anos, diz usar drogas há pelos menos 20. Mas seu vício não lhe impediu de trabalhar e nem de ter duas filhas com sua ex-companheira. Ao chegar em São Paulo, entretanto, acabou na rua. Não liga nem para elas e nem para a sua mãe porque, argumenta, elas já sabem da sua situação. "Não quero falar com elas e magoá-las ainda mais".  Com um rosto jovial e uma barba escura cobrindo parte da expressão, arrasta um enorme saco preto com latas para reciclar. É a sua atual fonte de renda, mas também já teve uma carroça. Diz que para largar o vício precisa ocupar sua mente. Já pensou em procurar ajuda, mas explica, com uma fala mansa e muito lúcida, que anda deprimido, "calado" e sem querer conversar com as pessoas. "Preciso entender o meu mundo, eu mesmo não me entendo".

— O que te causa sofrimento? 

— O modo como as me pessoas me olham. Alguns encolhem o corpo quando chego perto. Outros chegam a cuspir no chão quando passam por mim. A gente é usuário, mas também é ser humano.

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