Trudeau sugere que Papa peça desculpas aos indígenas do Canadá

Bispos canadenses dizem que Francisco poderá visitar o país no próximo ano

O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, instou o papa Francisco a visitar o Canadá para pedir desculpas aos povos originários pelo tratamento dado pela Igreja Católica às crianças indígenas nos internatos que dirigia nesse país no final do século XIX.

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"Disse [ao Papa] como é importante para os canadenses buscar uma verdadeira reconciliação com os povos indígenas e enfatizei o quanto poderia ajudar emitindo um pedido de desculpas”, explicou Trudeau aos jornalistas, depois de se reunir com o Sumo Pontífice em audiência privada na segunda-feira.

Cerca de 30% das crianças dos povos originários do Canada, aproximadamente 150.000, foram levadas à força ao que se conhece como “residências”. Seu projeto inicial era educar os pequenos, mas depois se transformaram em parte de uma campanha governamental para erradicar a cultura indígena (como algumas dessas instituições chegaram a defender, era preciso “matar o índio na criança”). Nas residências, era comum as crianças sofrerem abusos sexuais e físicos.

Os dados com os quais o Governo trabalha na atualidade sugerem que a metade dos menores internados nesse tipo de instituição morreu de tuberculose e outras doenças. Muitos dos que conseguiram sobreviver à experiência afirmam que sofreram abusos psicológicos, físicos e sexuais, por exemplo, por falar sua própria língua. Também eram frequentes as ameaças de uma condenação eterna se não se convertessem ao cristianismo. O governo do Canadá já pediu perdão oficialmente aos indígenas por essas práticas, em 2008, e no ano seguinte o antecessor de Francisco, Bento 16, expressou sua “tristeza” pelos abusos cometidos no Canadá.

A Comissão da Verdade e da Reconciliação do Canadá admitiu em 2015 que essa prática, que manteve as crianças das nações originárias, os inuit e os métis, longe de seus pais, equivalia a um “genocídio cultural”. A comissão formulou 94 recomendações, entre as quais se encontra um pedido formal de desculpas da Igreja aos sobreviventes e seus descendentes por seu papel nesse escândalo.

Assim, Trudeau, que é católico e foi educado em uma escola jesuítica e é fervoroso defensor dos direitos dos homossexuais, aproveitou sua visita ao Vaticano para convidar o Papa a ir ao Canadá, segundo contou depois do encontro. De acordo com o primeiro-ministro, o Papa “lembrou que dedicou sua vida inteira a apoiar as pessoas marginalizadas no mundo” e que espera trabalhar com ele e os bispos canadenses nesse sentido. Os bispos canadenses disseram que o Papa poderia visitar o país no próximo ano.

150.000 crianças foram levadas à força ao que se conhece como "residências"

O convite ao Papa para a viagem ao Canadá, ocorrido nesta segunda-feira, no primeiro encontro entre ambos, realizado no Vaticano, foi divulgado pelo próprio Trudeau, mas a Santa Sé não o mencionou em sua nota sobre o evento. Segundo a Santa Sé, o Papa e Trudeau abordaram alguns dos assuntos tratados na cúpula do G7 neste fim de semana em Taormina (Sicília), sobretudo os relativos ao Oriente Médio.

O Papa e Trudeau, segundo o Vaticano, ressaltaram no encontro, que durou 36 minutos, “as boas relações bilaterais entre a Santa Sé e o Canadá e a contribuição da Igreja Católica na vida social do país”, assim como da “liberdade religiosa, integração e reconciliação”.

O primeiro-ministro canadense foi ao Vaticano acompanhado da esposa, Sophie Trudeau, e depois do encontro a sós com o Papa se reuniu, como é habitual nesse tipo de compromisso, com o secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, e com o secretário para as Relações com os Estados, Paul Richard Gallagher.

Trudeau, de 45 anos, chegou ao Vaticano depois de participar das cúpulas da OTAN, em Bruxelas, e do G7, em Taormina, e de visitar no domingo, o município italiano de Amatrice (centro), devastado pelos terremotos de 24 de agosto de 2016. Nesta terça-feira está prevista uma reunião com o primeiro-ministro italiano, Paolo Gentiloni.