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Fantasma de Watergate persegue Trump

Demissão do diretor do FBI acentua as semelhanças com o caso de espionagem que terminou com Nixon

Archibald Cox, em 1973. Naquele ano, foi demitido por Nixon como promotor especial do caso Watergate.
Archibald Cox, em 1973. Naquele ano, foi demitido por Nixon como promotor especial do caso Watergate. AP

A origem do caso Watergate tem, estes dias, um aspecto desolador. O antigo hotel Howard Johnson está abandonado esperando o começo das obras para transformá-lo em um prédio de apartamentos. De um quarto desse hotel, foi preparado e supervisionado o ataque à sede do Partido Democrata, localizado na mesma altura do outro lado da rua, no complexo Watergate, em Washington. A invasão de cinco ladrões em 1972, frustrada pela polícia, destampou um escândalo de espionagem que terminou, dois anos depois, com a presidência de Richard Nixon.

Apesar da decadência do antigo hotel, o caso Watergate está mais vivo do que nunca em Washington. Nunca houve um presidente mais nixoniano que Donald Trump, nem uma trama mais watergatiana que a investigação sobre a alegada conexão da equipe do presidente dos EUA com a Rússia. Há notáveis semelhanças entre os dois casos, acentuadas esta semana com a demissão do diretor do FBI, James Comey, e a sugestão de Trump de que grava suas reuniões na Casa Branca. Mas há também diferenças profundas. E, acima de tudo, no caso do atual presidente não há nenhuma prova, por enquanto, de algo ilegal.

O epicentro das duas tramas é o Partido Democrata e o nó górdio é se o presidente está tentando bloquear uma investigação. No Watergate, o gatilho foi a instalação de microfones ocultos na sede da formação. Agora, é o ataque informático feito pela Rússia, de acordo com os EUA, ao servidor do Partido Democrata para roubar e-mails – divulgados por Wikileaks antes da eleição de novembro – e ajudar Trump.

Como na época, há um fluxo constante de revelações, a maioria publicadas pelo jornal The Washington Post. Há muitas incógnitas a resolver, linhas que não se unem, mas uma paisagem começa a se consolidar. Crescem as investigações do FBI e do Congresso, e uma suspeita generalizada de que o presidente está tentando esconder algo. Trump, republicano e impopular como Nixon, está sendo corroído pelos vazamentos à imprensa, por exemplo sobre as reuniões secretas de sua equipe com o embaixador russo antes de sua posse. Como Nixon, ele declarou guerra contra jornalistas e seus rivais políticos. Não tem escrúpulos para demitir investigadores que o ameaçam. E seus porta-vozes, como há quatro décadas, não articulam explicações coerentes sobre os fatos.

Nixon, em seu discurso de despedida como presidente, no dia 9 de agosto de 1974.
Nixon, em seu discurso de despedida como presidente, no dia 9 de agosto de 1974.

“O que estamos vendo em muitos aspectos é uma repetição em câmera rápida do Watergate”, diz em uma entrevista por telefone Tim Weiner, ex-jornalista do The New York Times e autor de dois livros importantes sobre a história do FBI e da presidência de Nixon.

Weiner lembra que só foi em 1973 – no quinto ano de sua presidência – que Nixon demitiu John Dean, conselheiro na Casa Branca, e Archibald Cox, o promotor especial nomeado para investigar o caso Watergate.

Em seus menos de quatro meses no Gabinete Oval, Trump demitiu o diretor do FBI, a procuradora-geral interina e seu conselheiro de segurança nacional. Todos estão relacionados com a investigação iniciada para descobrir se a equipe do republicano coordenou com a Rússia a interferência na campanha eleitoral.

Diferenças

Há, no entanto, duas diferenças fundamentais entre a trama russa e o Watergate. A primeira é que os republicanos mantêm maiorias nas duas câmaras do Congresso. Durante o Watergate, os democratas tinham um amplo controle, que foi determinante na pressão e na criação de um comitê especial de investigação, algo a que os republicanos agora se opõem.

A segunda é que não há um investigador especial. Depois de ser divulgado em março que se reuniu secretamente com o embaixador russo, o procurador-geral Jeff Sessions, se retirou da investigação sobre Moscou. Mas, ainda assim, insistiu com Trump na demissão do diretor do FBI, que poucos dias antes tinha pedido mais recursos para essa investigação.

Nixon renunciou em agosto de 1974 depois de descobrir que não tinha apoio para superar o impeachment preparado no Congresso para destituí-lo depois da descoberta de que tinha obstruído a justiça. Tudo mudou em julho de 1973 quando um antigo assessor revelou no comitê do Congresso que Nixon instalou um sistema de gravação na Casa Branca.

O presidente demitiu Cox, o promotor especial, depois de pedir que entregasse as fitas. O Supremo Tribunal forçou Nixon a facilitar as gravações e uma confirmou como mandava parar a investigação do FBI do caso Watergate, o que precipitou sua renúncia. Além disso, descobriu-se que, desde 1969, tinha pedido que funcionários fossem espionados para evitar vazamentos, bem como jornalistas e rivais políticos. O republicano foi perdoado, mas 25 pessoas foram presas.

Luke Nichter, professor de história na Universidade do Texas A & M, salienta que o mais parecido é o “clima” político. “Como no Watergate, não vemos o que está ao virar a esquina, qual vai ser a próxima manchete. Há uma sensação de aceleração, de que o escândalo continua girando”, diz Nichter, coautor de um livro sobre as 3.000 horas de gravações desclassificadas de Nixon na Casa Branca.

As fitas e as demissões acabaram virando contra Nixon. O mesmo pode acontecer com Trump. Ao sugerir que existem gravações de seu jantar em janeiro com o ex-diretor do FBI, o presidente encorajou os investigadores a solicitarem cópias. A demissão de Comey tem alimentado novos vazamentos e o debate no Congresso sobre a criação de uma comissão especial de inquérito sobre Trump e a Rússia. E também alimentaram a especulação se o presidente, como Nixon, poderia ser objeto de um impeachment.

O jornalista Weiner lembra que só é necessário o apoio de três senadores republicanos para aprovar, com os democratas, a criação de uma comissão de inquérito. E vários republicanos reagiram com inquietude à demissão de Comey, que Trump atribuiu inicialmente ao seu papel na investigação dos e-mails de Hillary Clinton, mas depois também à trama russa.

Weiner argumenta que a crise no FBI aumenta o risco para Trump de que o escândalo escape de suas mãos. Enfatiza que Nixon tinha muito mais experiência política que ele: tinha sido congressista, senador e vice-presidente, e sabia como usar e abusar do poder. Trump só possui experiência empresarial. Mas vê uma semelhança clara com Nixon e que pode marcar o destino de Trump: “uma fraca relação com a verdade”.

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