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Trump se ‘nixoniza’

Investigação sobre a intervenção russa na eleição não pode parar

Donald Trump em Washington com o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov.
Donald Trump em Washington com o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov.

A decisão adotada por Donald Trump de demitir o diretor do FBI, James Comey, está longe — de acordo com todas as aparências — de ser um ato de justiça; responde mais a uma nova tentativa do presidente de dificultar a investigação que pode comprometer sua permanência na Casa Branca.

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O presidente anunciou que dispensa Comey poucos dias depois que o diretor do FBI solicitou mais recursos para investigar a alegada intervenção russa no processo eleitoral norte-americano que concluiu com a vitória de Donald Trump. Comey já estava no olho do furacão depois de ser acusado por Hillary Clinton de ter desempenhado um papel na campanha ao reabrir, apenas dez dias antes da data das eleições, uma investigação contra a candidata democrata por irregularidades no uso de dados públicos em seu e-mail privado. Mas, apesar da gravidade das acusações, Trump não perdeu a confiança no funcionário.

Cabe perguntar por que um presidente que, por exemplo, demorou literalmente minutos para demitir uma procuradora geral do Estado por expressar desacordo em público com a política de imigração do Governo precisou de meses para afastar Comey de seu cargo? Não menos surpreendentes foram os comentários de Trump nesta quarta-feira, atacando o demitido Comey ao assegurar que tinha perdido “a confiança de quase todo mundo em Washington” e que “não estava fazendo um bom trabalho”.

O alarme em Washington faz todo o sentido. É muito difícil ignorar que Comey era, até algumas horas, o máximo responsável por uma investigação que pode ter graves repercussões políticas e estratégicas para Trump: a que estuda a relação — cada vez mais evidente — entre sua candidatura à presidência dos Estados Unidos e o Governo russo. Neste contexto, é sintomático o adjetivo de nixoniana com o qual o senador Bob Casey classificou a demissão do diretor do FBI. Embora Trump sofra a “Síndrome de Adão” de todos os populistas, deveria saber que isso já foi visto antes na política dos EUA. Richard Nixon também fulminou o funcionário responsável por investigar irregularidades na eleição presidencial. O resto é história; Nixon acabou renunciando.

Em poucos meses na Casa Branca, Trump se acostumou a andar nos limites da lei, de uma forma que seus antecessores, democratas ou republicanos, nunca fizeram. Mas a posição privilegiada de sua filha e seu genro no círculo presidencial, a teatral — embora difícil de acreditar — renúncia a seus negócios privados, a guerra sem precedentes contra os meios de comunicação, o uso irresponsável de instrumentos jurídicos delicados, como são as ordens executivas ou a mudança imprevisível e errática de postura sobre questões internacionais não são flagrantemente ilegais (mesmo longe de serem amostras exemplares de comportamento). No entanto, obstruir uma investigação — que em nenhum caso deve agora ser fechada — sobre o processo democrático mais importante dos EUA é, simplesmente, um crime. Trump pode ter cruzado uma linha sem possibilidade de retorno.