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E-mails de Hillary derrubaram Comey

Ex-diretor do FBI se viu engolfado por um velho caso alimentado por disputas pelo poder

Hillary Clinton durante evento em Nova York em 2 de maio passado.
Hillary Clinton durante evento em Nova York em 2 de maio passado.

A queda em desgraça do diretor do FBI James Comey é o último capítulo de um folhetim judicial e político, de um demorado redemoinho burocrático com cheiro de disputas pelo poder que remonta a uma polêmica decisão tomada por Hillary Clinton antes de assumir o cargo, em 2009, de secretária de Estado do primeiro governo de Barack Obama: instalar um servidor pessoal de e-mails em sua casa de Chappaqua, Nova York, em vez de uma conta oficial protegida, para o envio e recebimento de todas as suas mensagens –tanto pessoais quanto oficiais.

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O caso veio à tona em março de 2015 a partir de uma notícia publicada pelo The New York Times segundo a qual a comissão do Congresso encarregada de investigar o ataque ao consulado dos EUA em Bengasi (Líbia) reclamava que não estava sendo possível confirmar se Clinton –que era secretária de Estado no momento em que ocorreu o atentado—havia disponibilizado todas as informações possíveis, pois havia utilizado um servidor particular. Hillary aceitou disponibilizar sua correspondência eletrônica, mas apagou aquilo que ela e seus auxiliares julgavam de ordem “pessoal”. Das 60.000 mensagens que ela acumulou entre 2009 e 2013 como secretária de Estado, 30.000 foram definidas como particulares e, portanto, eliminadas.

Hillary afirmou ter usado esse sistema “por uma questão de conveniência”, para simplificar o recebimento de mensagens e enviá-las, todas, em uma só conta, e para não ter de usar dois telefones ao mesmo tempo. “Considerei que seria mais simples usar um aparelho só, mas não deu certo”, disse. Mais tarde, soube-se que ela, na realidade, havia utilizado outros aparelhos. Os críticos argumentavam que a poderosa dirigente democrata havia usado esse sistema para ter um controle absoluto sobre a sua correspondência.

À esquerda, o ex-diretor do FBI James Comey; à direita, Donald Trump, presidente dos EUA.
À esquerda, o ex-diretor do FBI James Comey; à direita, Donald Trump, presidente dos EUA.

Esse sistema caseiro de administração de e-mails poderia significar um descumprimento do regulamento existente para os funcionários federais e foi, portanto, investigado. Em setembro de 2015, Clinton pediu desculpas publicamente no Facebook por ter usado apenas uma conta. “Sim, eu deveria ter usado dois endereços de e-mails, um para assuntos pessoais e outro para o meu trabalho no Departamento de Estado. Sinto muito e assumo toda a responsabilidade”. Em maio de 2015, veio a público um relatório do Departamento de Estado que afirmava que, ao utilizar um servidor privado, Hillary havia infringido as normas oficiais.

Em julho de 2016, James Comey, nomeado como diretor do FBI em 2013, anunciou que encerrava sua investigação. A conclusão da agência foi de que Hillary e seus auxiliares tinham agido de forma “extremamente imprudente” ao gerenciar informações oficiais com um servidor privado, mas que isso não tinha significado uma ação criminosa. No dia seguinte, o Departamento de Justiça anunciou que não haveria acusações formais de ordem judicial contra a ex-secretária de Estado em função do uso do servidor pessoal. Nesse momento, ela já estava em plena campanha eleitoral pelo Partido Democrata e o caso dos e-mails vinha sendo usado vez por outra pelo então candidato republicano, Donald Trump, para ataca-la. Hillary podia, então, respirar aliviada.

Mas o folhetim votou a conhecer uma nova virada em 28 de outubro, duas semanas antes do dia da eleição para a presidência dos EUA (8 de novembro) e com Hillary aparecendo como favorita nas pesquisas. Surpreendentemente, Comey enviou uma carta a oito congressistas informando que o FBI estava analisando novos e-mails relacionados ao infeliz servidor pessoal de Clinton. Essas mensagens tinham sido reveladas em uma investigação paralela de um caso sobre Anthony Weiner, ex-marido de Huma Abedin, uma ex-assessora de Hillary. Ao saber que o caso, portanto, ainda estava vivo, Trump comemorou: “Isso muda tudo. É o caso mais importante desde Watergate”. Em 6 de novembro, porém, a três dias do pleito, Comey voltou a minimizar os fatos dizendo que a análise das tais mensagens não trouxera nenhuma novidade. A agência de investigação mantinha, assim, a mesma avaliação feita em julho, recomendando que não se apresentassem acusações formais de ordem criminal contra Hillary.

Nesta terça-feira, o fantasma dos e-mails da ex-secretária de Estado reapareceu para devorar Comey. Trump mantinha seu punhal à mão desde aquele 5 de julho de 2016, quando o hoje ex-diretor do FBI deu o caso por encerrado pela primeira vez. Agora, com Comey encarregado das investigações sobre a conexão da equipe de campanha de Trump com o Kremlin e depois de seu deslize ao admitir que cometeu erros em seu depoimento perante o Comitê Judicial do Senado sobre o caso dos e-mails, a Casa Branca encontrou o momento que procurava para baixar a sua sentença. Aos 56 anos de idade, James Brien Comey Jr. Já se transformou em um cadáver político.