Literatura

Rupi Kaur: “Apesar das diferenças culturais, as questões das mulheres são universais”

Sucesso mundial, a poeta indiana Rupi Kaur tem segundo livro traduzido para português

Mais informações

Com voz e gestos suaves, Rupi Kaur explica que o que conta em seus poemas e ilustrações são coisas universais, que acontecem com muitas pessoas. Seu primeiro livro de poemas Outros jeitos de usar a boca foi traduzido para mais de trinta línguas e vendeu 100 mil exemplares só no Brasil. Agora, aos 24 anos, a jovem, que nasceu no Punjab (Índia) e emigrou para Toronto (Canadá), aos três anos de idade, tem seu segundo livro O que o Sol faz com as flores traduzido para português também pela editora Planeta.

Ao EL PAÍS, Kaur, durante um evento literário em Barcelona, no ano passado, disse utilizar a poesia para denunciar a discriminação sofrida pela mulher, especialmente no âmbito sexual, e sua luta na busca do amor. “Comecei a escrever o primeiro livro pensando em um público de mulheres jovens asiáticas ou emigradas, como eu. No início funcionou assim. Mas, à medida que viajava pelo Canadá e pelos Estados Unidos e lia os poemas em festivais, ia vendo cada vez havia mais mulheres ocidentais. Foi uma surpresa, mas logo percebi que eram questões universais e, apesar das diferenças culturais e sociais, há muitos pontos em comum”. Agora, assim como no volume de estreia, em O que o Sol faz com as flores os temas das poesias e ilustrações circulam ao redor de temas como amor, infanticídio, depressão, perda e abuso sexual e psicológico.

“Desde pequena me interesso pela igualdade da mulher e, por isso, meus poemas falam dessas coisas. Eu as conheci em primeira mão. Escrevo sobre experiências reais de mães, tias, primas e amigas minhas. Para mim foi uma catarse escrever isso”, comentou. Kaur costuma se apresentar como mais uma de dezenas, centenas ou milhares de jovens que emigraram com suas famílias da Ásia e cresceram em outra sociedade com outros valores. “Fomos com minha mãe e meus quatro irmãos para Toronto. Via pouco meu pai porque trabalhava a semana toda fora, não o reprovo. Mas foi minha mãe que nos criou e entendo muitas mulheres como ela que não falam inglês apesar de viverem há 20 anos no Canadá. Penso como seria eu com sua realidade, se passasse o dia inteiro limpando e cozinhando em casa e presa entre dois mundos.”

Escreve e ilustra. Ilustra e escreve. Na jovem autora, essa é uma dupla inseparável: “Queria criar um universo pessoal, ser diferente. E o desenho vem de forma espontânea.” Silhuetas, traços finos acompanham seus poemas página a página. Um cavalete aberto acompanha este poema: “The very thought of you / has my legs spread apart / like an easel with a canvas / begging for art” (pensar em ti / me abre as pernas / como um cavalete com uma tela / suplicando por arte). A mesma lógica, de misturar ilustração e poesia, também permanece no novo livro.

Com formação universitária em retórica e um curso de escrita criativa, Kaur admite ser mais leitora de narrativa que de poesia. Antes do primeiro livro, começou a escrever os poemas sem rumo claro, publicou alguns nas redes sociais – tem mais de 400.000 seguidores no Facebook – , com o sucesso, fez uma edição independente. “Logo me contatou um editor dos Estados Unidos – Andrews McMeel – que queria fazer uma coleção de livros de poesia de escritores jovens e reeditou Outros jeitos de usar a boca”. Depois disso virou best-seller. “São livros de poesia com muito sentimento, até poderia ser entendido, de certa forma, como autoajuda. Escrevo de maneira direta, simples, acessível, algo que a poesia não costuma ser”, reflete ao ser perguntada sobre os motivos de seu sucesso.

Polêmica no Instagram

Nas redes sociais, Kaur saltou para a fama por causa de uma fotografia que fez deitada na cama com as calças manchadas de sangue da menstruação. A imagem, que foi retirada do Instagram, era uma trabalho de fim de curso: “Não podíamos utilizar palavras e tinha de abordar um tema tabu. Eu sempre tive muito interesse pelos temas da mulher. E postei no Instagram porque um dos professores queria provar que as pessoas percebem a obra de arte de acordo com o espaço no qual é vista.” A polêmica em torno da retirada da imagem foi ofuscada, em parte, pela publicação de seu primeiro livro: “Naquela altura o número de leitores crescia aos milhares a cada semana, pode ter voltado a crescer, mas para mim, o que me preocupava é que vissem como fotógrafa, que não sou, porque eu quero continuar escrevendo."