Sally Yates

Mais um capítulo da trama EUA-Rússia: ex-secretária diz que general Flynn mentiu ao vice-presidente

Ex-responsável interina pelo Departamento de Justiça alertou a Casa Branca de que o conselheiro de Segurança Nacional era suscetível “de ser chantageado” pelo Kremlin

O ex-diretor James Clapper e a ex-secretária Sally Yates antes de depor.
O ex-diretor James Clapper e a ex-secretária Sally Yates antes de depor.A. P. BERNSTEIN (REUTERS)

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O tenente-general Michael Flynn era o elo mais frágil da segurança nacional dos Estados Unidos. Não apenas “estava enganando a opinião pública” e o vice-presidente sobre suas conversas com o embaixador russo, como também era suscetível “de ser chantageado” pelo Kremlin. A afirmação foi feita nesta segunda-feira pela ex-secretária de Justiça dos Estados Unidos Sally Yates em seu decisivo depoimento ao Subcomitê Judicial do Senado que investiga a trama russa. Uma declaração explosiva que expressou a preocupante lentidão da Casa Branca no momento de pôr um fim na crise aberta após a revelação das mentiras do conselheiro de Segurança Nacional.

O escândalo Flynn teve o seu epicentro ao final do ano passado. Donald Trump ainda não tinha tomado posse, e o presidente Barack Obama estava prestes a divulgar as sanções que seriam adotadas contra a Rússia por causa de sua intervenção no processo eleitoral por meio de uma campanha difamatória contra Hillary Clinton. Naquele momento, o magnata norte-americano havia delegado o relacionamento com o Kremlin ao tenente-general Flynn. Um militar de 58 anos tão brilhante nos campos de batalha quanto extremista e russófilo (admirador dos russos) no terreno ideológico.

Embora isso não fosse de conhecimento público, Flynn era objeto de investigação do FBI: sua relação com a Rússia ia muito além de suas simpatias pelas brincadeiras de poder de Vladimir Putin. Entre 2012 e 2014, ele havia dirigido a Agência de Inteligência da Defesa. Sua maneira tirânica de lidar com superiores e subordinados lhe valeu ódio profundo em diferentes setores e culminou com sua demissão. Depois de se afastar da Administração, em vez de manter distância começou a atuar como consultor para empresas russas, chegando, com essa aproximação, a sentar ao lado de Putin em um evento público.

Mas não eram apenas essas conexões que levantavam suspeitas. O próprio Obama, segundo fontes da Casa Branca, aconselhou Trump a não nomear Flynn para nenhum cargo, dado o seu comportamento abusivo.

O republicano, porém, desdenhou o conselho. Confiava em Flynn para desanuviar as relações com o Kremlin. E assim aconteceu em 29 de dezembro passado. Nesse dia, Obama anunciou a expulsão de 35 diplomatas russos por ingerência na campanha eleitoral. Em seguida, Flynn telefonou para o embaixador russo, em Washington, Sergei Kislyak. Ao longo de diversos telefonemas, o tenente-general deu a entender que se Moscou mantivesse a calma e deixasse de reagir às sanções, seria mais fácil retomar as relações mais adiante assim que Trump tomasse posse. Na manhã seguinte, Putin decidiu não adotar nenhum tipo de represália.

Após a posse, em 20 de janeiro, Flynn foi nomeado conselheiro de Segurança Nacional. Ao ser interrogado em 24 de janeiro pelo FBI a respeito de suas conversas com Kislyak, ele negou ter falado com o embaixador sobre as sanções. E repetiu essa negativa publicamente. A mesma versão foi reafirmada várias vezes, em entrevistas, pelo vice-presidente do país, Mike Pence.

Foi então que surgiu a intervenção de Sally Yates, a número dois da ex-secretária de Justiça, a democrata Loretta Lynch. Em 26 de janeiro, ela pediu um encontro com o Donald McGahn, conselheiro da Casa Branca. Sabedora das escutas telefônicas que o serviço de inteligência havia feito, de rotina, das conversas de Kislyak e nas quais figurava a conversa com Flynn, Yates avisou que o conselheiro de Segurança Nacional estava faltando com a verdade e que, portanto, era suscetível de ser chantageado pela Rússia.

“Eu lhe disse que o comportamento de Flynn era problemático, que ele tinha enganado o vice-presidente e a opinião pública e que os russos também sabiam disso. Era um problema, pois criava uma situação comprometedora”, afirmou Yates ao Senado.

A ex-secretária e McGahn voltaram a se encontrar no dia seguinte. “McGahn me perguntou qual era o problema de um membro da Casa Branca mentir para outro. Respondi que cada vez que essa mentira era reproduzida a situação ia ficando mais perigosa. E que estava lhe passando a informação para que medidas fossem tomadas”, disse Yates.

O alerta era de extrema gravidade. Um dos maiores responsáveis pela segurança dos Estados Unidos e guardião de seus mais profundos segredos estava mentindo, inclusive para o vice-presidente, sobre sua relação com o Kremlin. A Casa Branca não deu importância ao alerta, considerando que se tratava de uma questão legal, e Trump deixou o tempo passar. Mas Yates não sobreviveu. Quatro dias depois, a secretária foi demitida por se negar a defender o polêmico veto migratório baixado por Trump. E foi só depois que o The Washington Post revelou, duas semanas mais tarde, as conversas com Kislyak que o presidente se livrou de Flynn.

Desde esse dia, 13 de fevereiro, Trump não conseguiu se livrar, porém, da trama russa. O FBI e duas comissões de inteligência investigam se o entorno do republicano agiu ou não de forma coordenada com o Kremlin no ciberataque realizado contra Hillary. Embora essa conexão ainda não tenha sido demonstrada, qualquer novo indício acaba se tornando extremamente nocivo para a Casa Branca. Com Flynn demitido e com o secretário de Justiça, que também ocultou suas conversas com o embaixador russo, parcialmente inabilitado, a próxima peça a ser capturada seria o próprio presidente.

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