Ainda no alto escalão de Trump, General Flynn ocultou pagamentos recebidos da Rússia

Os comitês de inteligência se recusam a conceder imunidade ao conselheiro de Segurança Nacional destituído

O ex-assessor de Segurança Nacional da Casa Blanca, Michael Flynn.
O ex-assessor de Segurança Nacional da Casa Blanca, Michael Flynn. (EFE)

O rastro do dinheiro pode enterrar Flynn. A declaração mostra pagamentos procedentes de uma empresa de segurança eletrônica russa (Kaspersky) e da companhia aérea Volga-Dnepr. Mas o pagamento mais espinhoso corresponde a 45.000 dólares (cerca de 148.000 reais) do grupo midiático Russia Today (RT). O motivo foi sua presença em 2015 à festa de décimo aniversário da empresa. Durante a celebração, chegou a se sentar na mesma mesa que o presidente russo, Vladimir Putin.

O encontro disparou os alarmes nas agências de inteligência norte-americanas. Não só pela proximidade de Flynn com o governante russo, mas porque os serviços secretos consideram que o RT participou ativamente da campanha de desprestígio orquestrada por Putin contra Hillary Clinton durante o período eleitoral.

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Outro ponto obscuro de Flynn tem sua origem na Turquia. A maior parte de suas receitas provém de sua consultoria, Flynn Intel Group. A empresa foi contratada por um intermediário para que fosse lobista em favor dos interesses do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. O tenente-general não se constrangeu em fazê-lo, apesar de naquele momento ser um dos principais assessores do candidato republicano Donald Trump.

Essas conivências e ocultações colocaram Flynn em descrédito. Durante muito tempo, o militar gozou da máxima confiança de Trump. Disruptivo e radical, apresentava um currículo militar impecável. Ganhou batalhas, foi chefe de inteligência de unidades de elite como os SEAL e a Delta Force e, em 2012, ao lado de Barack Obama, chegou a presidir a Agência de Inteligência da Defesa. No auge de sua careira, sofreu sua primeira queda.

O comando da agência durou apenas 20 meses. Seu caráter tirânico e a fé cega em suas próprias intuições — os chamados “fatos de Flynn”— lhe garantiram a inimizade de seus subordinados e chefes. Destituído por insubordinação, abriu sua consultoria e se aproximou do universo russo. Uma proximidade perigosa para alguém que tinha dirigido um dos principais serviços secretos dos Estados Unidos. Mas seu grande salto foi dado quando entrou no círculo de Trump.

O republicano, fascinado pelos generais com histórico de combate, encontrou em Flynn um espelho. Ambos eram duros e imprevisíveis. E mais importante ainda: compartilhavam o ódio ao Islã e a admiração por Putin. Depois de vencer as eleições, o multimilionário anunciou que o tenente general dirigiria seu Conselho de Segurança Nacional, um órgão executivo de nível máximo pelo qual passam os grandes segredos de Estado.

Apesar de Barack Obama ainda ocupar o poder, Flynn deu início então a uma intensa atividade e manteve uma série de reuniões com o embaixador russo Sergei Kislyak. Os contatos alcançaram seu ápice em 29 de dezembro, mesmo dia em que Obama anunciou a expulsão de 35 diplomatas russos pela ingerência do Kremlin na campanha eleitoral.

Já com Trump na presidência, o FBI o interrogou por sua relação com o embaixador russo. O conselheiro de Segurança Nacional negou que tivesse algo a ver com as sanções. Disse o mesmo diante do vice-presidente Mike Pence, que defendeu esta versão em vários pronunciamentos públicos.

Os serviços de inteligência norte-americanos descobriram a mentira. Uma gravação revelou que Flynn tinha dado a entender ao embaixador Kislyak que se a Rússia não fizesse represálias diante das sanções de Obama, o Governo de Trump restabeleceria o equilíbrio quando chegasse ao poder em 20 de janeiro. Putin, depois dessa ligação, não tomou nenhuma medida. A paralisia surpreendeu o mundo. Mas não a Flynn e a Trump.

As escutas chegaram às mãos da procuradora geral interina Sally Q. Yates. Rapidamente, a responsável pelo Departamento de Justiça se dirigiu à Casa Branca para informar que Flynn tinha enganado o FBI e o vice-presidente, e que por isso era suscetível de chantagem por parte do Kremlin. Trump deixou o tempo passar. E só depois da publicação da conversa no The Washington Post decidiu abrir mão de Flynn. Antes tinha despedido a procuradora geral por negar-se a defender o veto migratório.

Desde então, Flynn, de 58 anos, não parou de se afundar. Os pagamentos que recebeu de empresas russas, seu trabalho para o Governo turco, mas sobretudo suas conexões com o Kremlin o colocaram no olho do furacão. Sua declaração diante dos comitês de inteligência da Câmara dos Representantes e do Senado é esperada com ansiedade. O próprio Flynn esquentou o ambiente com seu pedido de imunidade. “O general Flynn tem uma história para contar e quer contá-la”, disse seu advogado. Mas a solicitação não vingou. A lembrança de Oliver North e as consequências de sua declaração no caso Irã-Contra falaram mais alto. Conscientes de que essa imunidade pode entorpecer as investigações do FBI, os parlamentares se recusaram. Flynn terá de enfrentar sozinho a investigação.

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