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As três guerras de Donald... e as que estão por vir

A diversidade, intensidade, periculosidade e, às vezes, a banalidade dos conflitos causados por Trump não são normais

Donald Trump durante uma reunião na Casa Branca em 31 de março. AP

É normal que os presidentes se confrontem com seus opositores políticos e que tenham rusgas com outros países. Também é comum, e bastante saudável, que os governos e os meios de comunicação não se deem bem. Ou que os presidentes tenham de enfrentar a burocracia pública que, segundo afirmam, não executa com entusiasmo as políticas que eles prometeram aplicar.

Isso tudo é normal. Mas não são nada normais a diversidade, a intensidade, a periculosidade e, às vezes, a banalidade dos conflitos gerados pelo novo presidente dos Estados Unidos. Donald Trump, porém, não é, com efeito, um governante normal.

Presidentes costumam gozar de um período de alta popularidade no início de mandato. Trump, ao contrário, tem o mais baixo índice de aprovação jamais registrado nesse tipo de pesquisa de opinião. As tentativas de concretizar as suas principais promessas de campanha estão naufragando; ele enfrenta investigações criminais ameaçadoras sobre membros de sua equipe –alguns dos quais já foram obrigados a renunciar—e não consegue preencher postos que lhe permitiriam ter uma gestão melhor. Os vazamentos de informações a partir da Casa Branca são constantes. A China está ocupando rapidamente os espaços de liderança mundial que os Estados Unidos estão abandonando e a Rússia de Putin cresce e procura influenciar as eleições europeias como fez com as presidenciais norte-americanas.

Em vista de tudo isso, caberia pensar que Trump tentaria estabilizar a situação e formar alianças. Mas o presidente está fazendo exatamente o oposto. Em vez de conciliar, busca o confronto; em vez de fechar frentes de batalha, abre novas; e, em vez de unir, está dividindo. Eis as três principais guerras internas de Donald Trump.

A guerra contra o seu próprio partido: Todas as organizações políticas têm facções, e o Partido Republicano não é exceção. Suas divisões internas impediram que se aprovasse a lei que desmantelaria a reforma realizada por Barack Obama na área da saúde. Qual foi a reação de Trump? "Devemos combatê-los", afirmou, referindo-se aos membros de seu partido que foram contrários à sua proposta. E também disse que, nas eleições parlamentares de 2018, apoiará candidatos que possam derrotar e impedir a reeleição dos congressistas que não o apoiarem. As reações dos republicanos dissidentes não se fizeram esperar: "A intimidação não funciona", "essas ameaças podem dar certo na escola primária, mas o nosso governo não funciona assim"... Embora as duas partes se esforçarão para mostrar que as divergências foram superadas, a realidade irá demonstrar que essas divisões têm efeitos duradouros. Trump continuará em guerra contra os que não apoiarem as suas iniciativas. Mesmo que isso implique lutar abertamente contra os líderes de seu próprio partido.

A guerra contra as agências de inteligência: Os serviços de inteligência dos EUA empregam mais de 100.000 pessoas, que trabalham em 17 diferentes organizações. Embora rusgas entre essa comunidade e a Casa Branca tenham existido no passado, nunca o conflito foi tão forte como agora. O presidente Trump afirmou que essas agências são tão desonestas quanto os meios de comunicação que divulgam notícias falsas. Chegou a chamá-las também de "nazistas". As agências de inteligência, de seu lado, soltaram um relatório cuja conclusão é de que o Kremlin influenciou as eleições nos EUA e que Vladimir Putin tem uma predileção explícita por Trump. James Comey, diretor do FBI, confirmou que a sua instituição está investigando a possível ligação de membros da equipe de Trump, durante a campanha eleitoral, com agentes de inteligência russos. O presidente disse que agora confia mais nas agências de inteligência, e explica o motivo: "Já pusemos pessoal nosso lá". Sem dúvida. Mas existem cerca de 100.000 pessoas que ainda não são do "pessoal" de Trump.

A guerra contra a Reserva Federal: Esta guerra contra o Banco Central dos EUA ainda não começou, mas é possível vê-la se aproximando. Presidentes gostam que as taxas de juros sejam mais baixas, o que costuma estimular o consumo, a atividade econômica e o emprego. Mas, se o déficit fiscal e o dinheiro em circulação aumentam e os preços começam a subir, é dever do banco central aumentar as taxas de juros para amenizar os riscos de uma inflação elevada e outros males econômicos. Mais uma vez, essa tensão entre a presidência e o banco central, comum em todos os países, pode se agravar, no caso de Trump, até se tornar um conflito com consequências econômicas graves. Ainda como candidato, o atual presidente expressou sua opinião sobre a diretora da Reserva Federal, Janet Yellen. "Ela devia ter vergonha de si mesma", disse Trump. Por quê? Porque Yellen havia dito que talvez tivesse que promover uma alta nas taxas de juros.

Estas são as três guerras internas de Trump, mas a sua beligerância também se expressa nas relações internacionais de seu país. E o maior perigo é que as derrotas domésticas o levem a procurar por confrontos do lado de fora. Não seria o primeiro líder de um país a usar um conflito externo para desviar as atenções de seus problemas internos. Putin pode lhe dar muitas lições sobre isso. @moisesnaim