A BATALHA SECRETA

Trump e o jogo de espionagem de Putin

Trama russa deixa o presidente dos EUA acuado depois de ter atacado Hillary Clinton. Estes são seus personagens e suas operações secretas

Donald Trump speaks fala por telefone com Vladímir Putin, o 28 de janeiro de 2017.
Donald Trump speaks fala por telefone com Vladímir Putin, o 28 de janeiro de 2017. (REUTERS)

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A história jamais havia passado por Doral. A pequena cidade do condado de Miami-Dade (Flórida) não tem muito a oferecer. Um campo de golfe de 90 buracos, proximidade com o aeroporto e bom clima. Nada destacável, até que na manhã de 27 de julho de 2016 Donald Trump lançou ali algumas palavras que desde então não param de persegui-lo. No afã de desferir uma punhalada em sua adversária Hillary Clinton, então encurralada pelo uso de um servidor privado de email para tratar de assuntos da Secretaria de Estado, o candidato republicano proclamou: “A Rússia, se estiver ouvindo, espero que seja capaz de encontrar os outros 30.000 emails que faltam. Será recompensada por nossa imprensa”. Embora na superfície isso não passasse de mais um golpe baixo do irreprimível Trump, no mundo paralelo dos serviços secretos os alarmes dispararam. Na esquecível Doral, para muitos, consumou-se uma traição.

A opinião pública ainda não conhecia em detalhes a batalha travada longe dos holofotes. Mas, nas agências de inteligência, havia um clamor. Os Estados Unidos estavam sendo atacados como nunca antes por ordem de Vladimir Putin. O Kremlin havia iniciado uma imensa operação destinada a afundar Clinton. E o candidato republicano, na reta final das eleições, acabava de estimular publicamente as hostilidades. A porta da suspeita se abrira.

Desde então, a fratura entre Trump e a comunidade de inteligência não parou de crescer. Os escândalos dos meses seguintes, as mentiras dos seus colaboradores, os elos nunca explicados com o Kremlin alimentaram um incêndio que se tornou atualmente a maior ameaça para o presidente. Duas comissões parlamentares indagam o alcance da conexão russa. E o FBI tem uma investigação aberta para determinar se a equipe de campanha de Trump se coordenou com os russos para derrotar Clinton. Não provou nada até agora, mas, se vier a ser confirmado algum vínculo entre o republicano e Putin, o caminho para um processo penal contra o presidente seria claro. “Se algo vai acabar com Trump, não será a reforma da saúde nem o muro com o México, será a conexão russa”, diz um funcionário da Casa Branca na Administração Obama.

O relatório ICA 2017-01D do Gabinete de Inteligência Nacional é a base do caso. O dossiê, elaborado pela CIA, o FBI e a NSA, disseca toda a informação disponível até 29 de dezembro do ano passado. Suas conclusões são aterradoras: “Vladimir Putin ordenou em 2016 uma campanha contra as eleições presidenciais dos Estados Unidos. O objetivo da Rússia era solapar a confiança pública no processo democrático, vilipendiar a secretária Clinton e prejudicar sua elegibilidade e potencial presidência. Putin e o Governo russo desenvolveram uma clara preferência por Trump”, sustenta o documento.

Para levar esta estratégia adiante, o Kremlim orquestrou "uma operação secreta com apoio de agências governamentais russas, meios de comunicação públicos, intermediários de terceiros e até trolls digitais". A "máquina de propaganda" foi dirigida pelo serviço secreto, o GRU, e incluiu a infiltração, de julho de 2015 a junho de 2016, em servidores do Comitê Democrata Nacional, assim como o assalto a contas de cargos de alto escalão próximos a Clinton, entre eles, seu chefe de campanha, John Podesta. Para difundir a informação, um obscuro hacker romeno conhecido como Guccifer 2.0, o site DCLeaks e a organização Wikileaks foram empregadas. Foi, segundo o relatório de inteligência, a "maior operação conhecida até agora para interferir" na vida política dos Estados Unidos.

Quando a ofensiva russa foi detectada, já era tarde demais. O Kremlim havia penetrado até mesmo nos servidores do sistema eleitoral e os vazamentos eram constantes. Em meio a este furacão, os agentes descobriram uma variável ainda mais perturbadora.

Ao redor de Trump, agitava-se um enxame de assessores suspeitamente conectados com a Rússia. Era o caso do chefe de campanha do bilionário, Paul Manafort, que ocultava que em seus tempos de lobista havia trabalhado para favorecer os interesses do governo russo. Pode-se dizer o mesmo do conselheiro de política externa, Carter Page, cujas visitas a Moscou ainda seguem sem explicação. E Roger Stone, assessor e amigo de Trump, que não apenas esteve em contato com Guccifer 2.0, mas anunciou, no Twitter, os vazamentos do Wikileaks antes que eles ocorressem.

Nesta trama, brilhou com luz própria o antigo tenente-general Michael Flynn, um dos íntimos de Trump. Após dirigir a Agência de Inteligência da Defesa, Flynn havia feito negócios com a Rússia. Como consultor, cobrou de empresas vinculadas a este país e, entre seus deslizes, até mesmo jantou e foi fotografado com Putin.

O general reformado Michael Flynn durante um jantar com Vladimir Putin.
O general reformado Michael Flynn durante um jantar com Vladimir Putin.

O Kremlim estava presente no universo Trump. Não eram apenas os elogios que o bilionário dirigia ao presidente russo ou a ameaça de que eles teriam acesso aos 30.000 e-mails de Clinton. Era que seus mais próximos orbitavam em torno do maior escândalo de espionagem do século nos Estados Unidos. O inimigo jogava em casa. "Faz tempo que Putin abandonou a noção de que as relações com o Ocidente têm que ser harmoniosas. Somos antagonistas", alerta o ex-coronel e professor da Universidade de Boston Andrew Becevich.

A chegada ao poder de Trump não apagou o fogo. Ao contrário. O general Flynn, nomeado conselheiro de Segurança Nacional, teve que renunciar quando descobriu-se que ele havia ocultado o conteúdo de suas reuniões com o embaixador russo em Washington, Sergei Kislyak. Em seguida, foi a vez do procurador-geral, Jeff Sessions. Ele se silenciou, diante do Senado, sobre reuniões com a diplomacia russa. Esta mentira obrigou-o a se retirar de todas as investigações abertas pelo escândalo.

Paul Manafor, ex-chefe de campanha de Trump.
Paul Manafor, ex-chefe de campanha de Trump. (AFP)

A saída de Flynn, a inabilitação parcial de Sessions e as suspeitas generalizadas de que algo nebuloso aconteceu durante a campanha abriram a maior crise do seu curto mandato. O presidente, fiel a sua máxima de atirar antes de perguntar, embarcou em um furioso ataque a todos os que considera traidores. Acusou Obama de espioná-lo, chamou a imprensa de "inimigos do povo", ordenou uma operação de limpeza nos serviços de inteligência e tachou o FBI de incompetente.

Trump defende-se e não são poucos que ainda acreditam nele. Mesmo personalidades, como Michael Morell, antigo vice-diretor da CIA na era Obama, consideram que há "muita fumaça, mas não há fogo". Outros veem de maneira diferente.

O diretor do FBI, James Comey, depõe à Comissão de Inteligência da Câmara de Deputados sobre a suposta ingerência russa.
O diretor do FBI, James Comey, depõe à Comissão de Inteligência da Câmara de Deputados sobre a suposta ingerência russa. (AFP)

"É possível que todos esses acontecimentos e relatórios não tenham relação e não sejam mais que uma infeliz coincidência? Sim, é possível. Mas também é possível, mais que possível, que não sejam coincidência, nem que estejam desconectados. E, se isso for verdade, estaríamos diante de uma das maiores traições à democracia na história dos Estados Unidos", disse o congressista Adam Schiff, o democrata mais bem ranqueado no comitê de inteligência que investiga a trama russa.

Por enquanto, a dúvida está vencendo o jogo. O Kremlim, com habilidade soviética, semeou a discórdia no campo do inimigo. O próprio presidente está sob suspeita. Enfrentando seus serviços de inteligência, investigado pela imprensa e encurralado pelo escândalo. Não é pouco. Talvez não falte mais nada para Putin sorrir.

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