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COLUNA

Xenofobia Futebol Clube

O protesto contra a lei dos migrantes assombra a cidade de São Paulo, historicamente vocacionada para receber o mundo todo

Manifestantes protestam na avenida Paulista contra a Lei de Migração.
Manifestantes protestam na avenida Paulista contra a Lei de Migração. Direita São Paulo-Facebook

Cosmopolita do Cariri, cosmonauta na autopista do ciganismo, confesso minha incapacidade para entender o protesto contra a nova lei de migração aprovada no Congresso — uma raríssima bola dentro dos parlamentares na era pós-golpe. Um grupelho de extrema-direita vociferava, no começo desta semana, um discurso de ódio contra os povos islâmicos, que seriam terroristas e estupradores, blábláblá, como você lê aqui no EL PAÍS, a única cobertura jornalística sem vergonha de ir a fundo no tema.

O nome desse timinho do dito protesto é Xenofobia Futebol Clube. E justamente na cidade de São Paulo, construída por brasileiros com sangue japonês, italiano, português, coreano, espanhol, alemão, polaco, turco, libanês, israelense, árabe no geral, judeu, palestino, boliviano, sírio, nigeriano, panamérica de áfricas utópicas, vixe, haitiano, quase-o-mundo-todo. Complete ai, leitor camarada, a parte do mapa forasteiro que ficou em falta.

Somos todos refugiados, alguns mais refugos humanos do que os outros, a depender do período e da geopolítica. Mas por que diabos imitar essas passeatas nazis da Europa, rapazes da Paulista? Modinha? Confesso que não entendo. Tudo bem que a direita anda metida, mas que aposte na legalidade. Às urnas, senhores e senhoritas, o Bolsonaro está aí para representa-los. Viram a pesquisa Datafolha?

Ainda bem que não passavam de 50 pessoas nas ruas com tal sentimento mesquinho contra a lei dos migrantes. Ainda acho uma multidão, tamanho absurdo do pleito excludente e fascista. De que planeta essa gente chegou a SP? De que experiência de “sangue puro”? Será que ninguém ali tem origem nordestina como este cronista? Indígenas? Negros? Nenhum judeu migrado para a Paulicéia? Como vivem, o que fazem, de que se alimentam, além do panfleto do ódio explícito?

Quando aqui cheguei, seu moço, do meu Bodocó... Minto, do Bodocó é a gente da minha vó, eu já cheguei do Recife, todo ginasial completo, estudadozinho na UFPE e crente na escola de Frankfurt, ai de mim, Walter Benjamin... Quando cruzei a Ipiranga com São João pela primeira vez, começo dos 90, juro, havia um projeto-de-lei na Câmara Municipal paulistana, podicrê, amizade, que determinava, data vênia: nordestino com menos de cinco anos de residência em SP terá que dá marcha ré no pau-de-arara e voltar para casa. Você ri? Eu também, mas só agora.

Essas tentativas malucas sempre existiram, tais intenções parlamentares, meu caro Eduardo Matarazzo Suplicy, não têm o crédito dos paulistanos decentes. Nunca tiveram. Que cidade cosmopolita. Abriga como nenhuma outra no país todos os chegantes, ficantes ou nordestinados da nação Cariri ou da Croácia etc. Se respirar e for gente, tanto faz, é tudo a mesmíssima humanidade. Óbvio que o drama de ganhar a vida é outro problema, cada um conta a sua história.

Por isso que ainda me entristece testemunhar passeatas como a desta semana. Na tentativa de fechar as portas da cidade aberta de São Paulo. A gente sabe que se trata apenas de uma pulga fascista tentando coçar um elefante democrático. A gente sabe, mas não custa ficar de olhos bem abertos.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Big Jato” (ed. Companhia das Letras). Comentarista de televisão nos programas “Papo de Segunda” (GNT) e “Redação Sportv”.

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