Le Pen a Macron: “A França será governada por uma mulher. Eu ou Merkel”

Debate entre candidatos à presidência da França expõe visões e estilos diametralmente opostos

Apoiadores do candidato social-liberal do movimento Em Marcha!, em um bar de Paris.
Apoiadores do candidato social-liberal do movimento Em Marcha!, em um bar de Paris.EFE
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Foi um combate anormal, assimétrico. Esgrima contra a luta livre, folha contra o martelo, os argumentos e a emoção.

Macron, candidato da nova formação Em Marcha!, exibiu um grande domínio técnico dos temas, um controle dos matizes que contrastava com o estilo 'casca grossa' da adversária, o que a colocou em dificuldades quando o debate entrava nos detalhes. “Você está falando bobagem”, repetiu várias vezes. Ou “mente o tempo todo”. Macron, favorito absoluto de acordo com todas as pesquisas, lembrou desde o início que Le Pen é a herdeira da extrema direita: seu pai, Jean-Marie, fundou a Frente Nacional. E contrastou sua visão apocalíptica e derrotista com o otimismo e o “espírito de conquista” – a França que ganha, que não teme a globalização – que ele encarna nesta campanha.

Le Pen procurou desde a primeira resposta o corpo a corpo com argumentos mais gerais, uma ou duas ideias que martelava fosse qual fosse o assunto em questão. Primeiro, a ideia de que Macron é responsável pela herança do impopular presidente François Hollande, de quem foi assessor no Palácio do Eliseu e depois ministro da Economia. E, segundo, que Macron, que trabalhou como banqueiro antes de entrar na política e defende um europeísmo sem complexos, está a serviço não dos interesses dos cidadãos franceses ou da nação, mas de poderes supranacionais, como a Comissão Europeia ou os grandes grupos financeiros. É, segundo a candidata da FN, o homem do sistema.

Em dado momento, Macron alfinetou: "Seu projeto é mortal" na sua proposta de deixar a Europa e o euro. A que Le Pen respondeu: "A França será governada por uma mulher. Seja ou Madame Merkel "(...)" Você representar a França submissa ".

O debate foi um acontecimento televisivo e político excepcional. Pela primeira vez desde que Valéry Giscard d’Estaing e François Mitterrand debateram diante das câmeras em 1974, os dois candidatos não pertenciam a nenhum dos dois grandes partidos, eliminados no primeiro turno do último 23 de abril. Quando em 2002, Jean-Marie Le Pen chegou ao segundo turno, seu rival da época, Jacques Chirac, se recusou a debater com ele.

Quinze anos depois, muito mudou. A unidade daquela época, contra Le Pen pai, rachou. Macron não podia se dar ao luxo de não debater. Com uma vantagem de 20 pontos, o debate, organizado pelas redes TF1 e France 2, significava uma plataforma para mostrar que ele, novato nas campanhas, jovem aos 39 anos para a política presidencial, tem base para ocupar o cargo. Para Le Pen, de 46 anos, representava a última oportunidade de virar o jogo. Vai ser difícil que consiga.

Aposentadoria e terrorismo

A economia foi o centro na primeira parte. Le Pen tentou colocar o debate no contexto da luta entre a “globalização selvagem”, o “ultraliberalismo” e a ideologia do dinheiro contra a soberania dos franceses e os direitos dos trabalhadores. Defendeu a aposentadoria aos 60 anos. E atacou Macron, a quem associou às reformas de Hollande por pedir constantemente sacrifícios aos franceses. “Não aceito esta culpabilização dos franceses”, afirmou. Era a versão mais esquerdista de uma candidata que vem da extrema direita, mas que procura uma mensagem transversal que atraia – ou pelo menos desmobilize – os eleitores do radical de esquerda Jean-Luc Mélenchon.

Ao abordar o terrorismo, questão predileta de Le Pen, a tensão aumentou. A candidata acusou Macron de “complacência com o terrorismo islâmico”. Macron não permitiu que se apoderasse desta questão. Alertou que as medidas de Le Pen alimentam o Estado Islâmico e levam o país à “guerra civil”.

De fundo, uma colisão de visões antagônicas sobre o lugar da França no mundo e a identidade do país. Nada ficou de fora nas duas horas e vinte minutos de debate. Nem mesmo a política da memória, o impacto da história no presente. Para Macron, é necessário assumir os episódios mais traumáticos, como os crimes na guerra da Argélia ou o regime colaboracionista de Vichy durante a Segunda Guerra Mundial. Le Pen, cujo partido nasceu para se opor ao gaullismo, apelou ao general De Gaulle, fundador da V República, para defender que a França não teve nada a ver com os crimes de Vichy. Macron, que também reivindica o general, respondeu: “Deixe o General De Gaulle tranquilo”.

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