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Decepcionante, ‘O círculo’ prefere suavizar pesadelo das redes sociais

É frustante que o próprio escritor Dave Eggers tenha sido um dos responsáveis por extirpar todo o potencial provocador de seu trabalho na adaptação para o cinema

O círculo
Tom Hanks em "O Círculo".

Em seu ensaio Pop Control, Miguel Ibáñez citava as conclusões de Neil Postman em Amusing Ourselves to Death ao comparar os modelos distópicos de George Orwell e Aldous Huxley: “Em 1984, as pessoas são controladas pela dor; em Admirável Mundo Novo são controladas pelo prazer; Orwell temia que seríamos destruídos pelo que odiamos; Huxley temia que seríamos destruídos pelo que adoramos”. Ibáñez encerrava sua argumentação com uma referência visionária: a desarticulação do fantasma de 1984 no célebre comercial dirigido por Ridley Scott para o lançamento do primeiro Mac. Uma nova distopia assumia seu lugar por meio de um (estético) golpe de martelo.

Citando o testemunho de J. G. Ballard na arte de propor coerentes e perturbadoras construções distópicas a partir do que já começou a se manifestar na realidade, Dave Eggers publicou O Círculo em 2013, romance em que um infocomunismo administrado pela modalidade mais predatória das dinâmicas capitalistas permitia reconhecer o pesadelo latente na era da transparência, das redes sociais e da comunidade virtual globalizada. O escritor optava por descrever esse universo (que é o nosso, com sutis variações) através dos olhos de uma crente e, servindo-se de elegantes diálogos socráticos, se esforçava para fazer as perversas colocações dessa corporação dedicada a centralizar todo o poder soarem sensatos, utópicos e até desejáveis. Eggers também acertava ao pôr ênfase na dimensão moral do assunto, imaginando um novo totalitarismo cujo poder de sedução se baseava em garantir a perfeição ética de seus súditos.

Por isso é decepcionante que o próprio escritor tenha sido um dos responsáveis por extirpar todo o potencial provocador de seu trabalho na adaptação para o cinema assinada por James Ponsoldt depois do notável O Fim da Turnê (2015). O diretor toma uma boa decisão estilística ao contrastar os harmoniosos, quase etéreos movimentos de câmera no interior do Círculo com a câmera instável e os tons desbotados da vida exterior, mas opta pelo recurso mais fácil ao traduzir as interações da protagonista com seu seguidores mediante as já tão batidas bolhas de texto invadindo o plano. O roteiro assinado por Ponsoldt e Eggers condena à insignificância algumas personagens estimulantes do livro – caso de John Boyega –, mas o mais embaraçoso é sua decisão de finalizar o discurso com uma nota tranquilizadora. Como se isso, em vez de advertência, fosse um comercial.

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